BLOG DO MAURO Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026, 11:22 - A | A

Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026, 11h:22 - A | A

ANÁLISE

Quando o voto vale mais que a coerência

Mauro Camargo

Arte produzida com IA

Incoerência eleitoral: o vale tudo

 

Há momentos em uma campanha eleitoral em que o eleitor conhece melhor um candidato por aquilo que ele faz do que por aquilo que promete.

Mato Grosso parece ter chegado a esse momento.

A reta final das eleições produziu uma sequência de acontecimentos que merece ser observada para além da disputa entre partidos, direita e esquerda ou governo e oposição. O que está em discussão é algo mais elementar: a coerência entre aquilo que determinados personagens políticos dizem defender e o comportamento que adotam quando o voto passa a ser prioridade.

Não é necessário atribuir falta de caráter a ninguém. Caráter é uma dimensão pessoal e o jornalismo não dispõe de instrumento para medi-lo. É possível, entretanto, examinar o caráter das escolhas políticas. E algumas escolhas feitas nesta campanha são suficientemente eloquentes.

José Medeiros talvez seja o exemplo mais completo.

Candidato ao Senado pelo PL, Medeiros integra formalmente a mesma aliança de Wellington Fagundes, candidato de seu partido ao Governo. Desde o início da campanha, porém, deixou evidente sua resistência à composição construída por Wellington, principalmente à presença de Janaina Riva e do MDB.

Na primeira propaganda eleitoral, apareceu cortando uma melancia. Disse que Mato Grosso produz soja, mas que durante a eleição também aparecem muitas “melancias” — expressão usada por setores bolsonaristas para atacar políticos que seriam verdes por fora e vermelhos por dentro.

A peça foi imediatamente interpretada como fogo amigo contra Wellington, alvo antigo desse rótulo em razão de suas relações políticas anteriores com governos petistas.

Medeiros posteriormente negou que estivesse atacando Wellington. Disse que a mensagem era destinada a candidatos ao Senado.

O esclarecimento precisa ser registrado. Mas não elimina a realidade política que a própria campanha tornou evidente: Medeiros e Wellington pertencem ao mesmo partido, mas percorrem caminhos diferentes e representam estratégias políticas distintas dentro da mesma eleição.

Com Janaina, a contradição ficou ainda mais explícita.

Um áudio enviado por Medeiros ao prefeito de Diamantino, Francisco — Chico — Mendes, irmão do ministro Gilmar Mendes, mostra o candidato explicando por que não poderia aparecer ao lado da candidata do MDB, embora ambos participem da mesma coligação.

Medeiros reconhece qualidades eleitorais de Janaina e chega a considerá-la uma adversária com possibilidades concretas de vitória. É exatamente por isso que explica a necessidade de manter distância.

No meio da argumentação, surge uma das frases mais reveladoras desta campanha.

“Meu eleitor é aquele que ora para alienígena e bebe detergente”, disse Medeiros.

Depois afirmou que era uma piada, uma brincadeira antiga retirada de contexto.

O problema é justamente o contexto.

Na íntegra da conversa, a frase aparece no meio de uma explicação racional sobre estratégia eleitoral. Medeiros argumentava que não poderia ser visto abraçado com Janaina porque aquele eleitor poderia abandoná-lo e procurar outro candidato identificado com a direita.

Não parecia contar uma piada. Explicava uma estratégia.

Há algo profundamente desconfortável quando um candidato constrói publicamente sua identidade como representante de determinado grupo político e, numa conversa reservada, utiliza esse mesmo grupo como caricatura para explicar seu comportamento eleitoral.

Mas os áudios revelaram mais.

Em outra conversa com Chico Mendes, Medeiros explicou sua relação com o Supremo Tribunal Federal.

Disse que orientara sua equipe a retirar referências críticas ao STF de seus textos. Ressalvou Alexandre de Moraes: se quisessem que atacasse Moraes, poderiam chamá-lo a qualquer hora.

A distinção chama atenção porque Medeiros construiu parcela importante de sua identidade política no enfrentamento ao Supremo.

Não há ilegalidade alguma em um parlamentar conversar com ministro do STF. Nem deveria haver. Instituições democráticas conversam entre si.

A questão é outra.

Medeiros procurou justamente Chico Mendes para conseguir uma audiência com Gilmar Mendes depois de receber a informação de que poderia ser alvo de uma operação policial.

O próprio candidato confirmou posteriormente que foi a Brasília conversar com o ministro.

Disse que não pediu favor, que queria esclarecer o rumor e que ouviu de Gilmar Mendes que não havia operação contra ele. Também declarou publicamente que não teme investigação e que não tem “rabo preso”.

Essas explicações precisam ser consideradas.

Mas não eliminam uma pergunta política legítima:

Por que uma informação não confirmada sobre uma eventual operação policial produziu preocupação suficiente para que um candidato procurasse o irmão de um ministro do Supremo e pedisse uma audiência com o próprio ministro?

A pergunta ganha relevância por causa de um episódio anterior.

Quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Heritage, que atingiu Mauro Mendes e pessoas próximas ao então governador, Medeiros criticou a realização de operações policiais durante campanhas eleitorais e defendeu que ações desse tipo fossem impedidas nos seis meses anteriores às eleições.

Na ocasião, seu adversário era quem estava sob o impacto político de uma operação.

Depois, foi o próprio Medeiros quem disse ter ficado preocupado ao ouvir que poderia ser alvo de uma.

Não há prova pública de que existisse qualquer operação contra ele. Muito menos de que Medeiros tenha praticado crime. Seria irresponsável sugerir o contrário.

O que existe é uma sequência de comportamentos públicos que merece escrutínio: primeiro, a defesa de uma barreira temporal para operações policiais em período eleitoral; depois, a procura por um ministro do Supremo diante do rumor de que ele próprio poderia ser alvo de uma ação.

A coerência também está sendo submetida a teste no outro campo político.

A eleição deste ano oferece duas vagas para o Senado. Isso criou uma situação peculiar: aliados formais começaram a escolher adversários para o segundo voto.

Virgínia Mendes, candidata a deputada federal pelo União Brasil, é mulher de Mauro Mendes, candidato ao Senado e uma das principais lideranças da federação formada por União Brasil e PP.

Margareth Buzetti disputa a outra vaga ao Senado pelo PP.

Virgínia participou de um evento de Buzetti. Segundo a própria senadora, declarou voto nela e em Mauro.

Nove dias depois, subiu no palanque de José Medeiros, candidato ao Senado pelo PL e integrante de uma aliança adversária, e pediu votos para ele e para Mauro Mendes.

Buzetti reagiu publicamente. Disse lamentar o episódio e lembrou que Virgínia havia estado em seu evento poucos dias antes.

Posteriormente, quando perguntaram a Virgínia se seu segundo voto seria para Buzetti, respondeu que era “segredo”.

É direito de qualquer eleitor votar em quem desejar. Também é direito de Virgínia.

Mas candidato não é apenas eleitor.

Candidato representa partido, integra projeto político, pede votos para aliados e participa de uma estrutura construída coletivamente para conquistar poder.

Quando uma liderança pede votos para um adversário direto de uma candidata de sua própria federação, existe uma escolha política que precisa ser explicada.

Mauro Mendes, registre-se, fez movimento diferente. Pediu publicamente o segundo voto para Buzetti, elogiou sua atuação parlamentar e chegou a classificá-la como a melhor senadora de Mato Grosso dos últimos 30 anos.

Ainda assim, o episódio envolvendo Virgínia mostra como as fronteiras partidárias se tornaram permeáveis quando o objetivo é alcançar diferentes segmentos do eleitorado.

Buzetti, por sua vez, tem feito uma campanha peculiar. Mauro ocupa naturalmente o espaço de primeiro voto dentro do grupo, enquanto ela busca consolidar-se como segunda escolha. Sua dificuldade não está apenas nos adversários externos, mas na incapacidade da própria aliança de transformar formalidade partidária em unidade eleitoral.

Nenhum episódio, porém, talvez seja tão didático quanto o protagonizado por Gisela Simona e Antônio Galvan.

Gisela foi relatora, na Câmara dos Deputados, do Pacote Antifeminicídio apresentado por Margareth Buzetti.

Defendeu a legislação, comemorou sua aprovação e destacou como avanço a transformação do feminicídio em crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos.

Galvan pensa diferente.

Durante a campanha, questionou a existência do feminicídio como crime autônomo. Sustentou que a morte de uma mulher não deveria receber tratamento penal diferente da morte de um homem e colocou em dúvida a eficácia da legislação específica.

É uma posição política que ele tem o direito de defender.

Gisela também tinha uma posição.

E era frontalmente contrária.

Quando Galvan fez essas declarações, Gisela classificou seu posicionamento como “grave”. Disse que manifestações desse tipo poderiam contribuir para naturalizar a violência contra as mulheres e afirmou que agentes políticos possuem responsabilidade sobre aquilo que dizem.

Difícil imaginar divergência mais clara.

De um lado, o candidato que questiona justamente uma das principais mudanças introduzidas pela legislação.

Do outro, a parlamentar que relatou essa legislação e advertiu publicamente que o discurso dele era grave.

Até que chegou a reta final da eleição.

Nesta semana, Gisela apareceu em vídeo ao lado de Galvan e pediu votos para ele.

“Está aqui o nosso futuro senador, Antônio Galvan”, declarou.

O homem cujo discurso poderia contribuir para naturalizar a violência contra as mulheres tornou-se, poucas semanas depois, o “futuro senador” apresentado pela própria parlamentar que havia condenado sua posição.

O que mudou?

Galvan não anunciou mudança de posição sobre o feminicídio.

A lei não mudou.

Gisela não anunciou que reconsiderou aquilo que havia defendido na Câmara.

Mudou a conveniência eleitoral.

É precisamente aí que uma campanha deixa de ser apenas disputa de votos e passa a oferecer elementos para que o eleitor examine a qualidade das escolhas de quem pretende representá-lo.

Política exige composição. Democracia exige diálogo. Partidos fazem alianças e adversários de ontem podem legitimamente construir projetos comuns amanhã.

Mas composição não é sinônimo de ausência de limites.

Quando princípios proclamados em público desaparecem diante de uma conveniência eleitoral imediata, a questão deixa de ser apenas partidária. Passa a ser ética.

Medeiros pode explicar por que não quer aparecer ao lado de Janaina. Pode dizer que brincou ao falar dos próprios eleitores. Pode explicar por que evita atacar o STF enquanto mantém Alexandre de Moraes como alvo. Pode dizer por que procurou Gilmar Mendes diante do rumor de uma operação policial.

Virgínia pode explicar por que pediu votos para um candidato adversário de Margareth Buzetti e depois manteve em segredo seu segundo voto.

Gisela pode explicar por que um posicionamento que considerou “grave” e capaz de naturalizar a violência contra mulheres deixou de impedir que pedisse votos para o autor daquela declaração.

Todos têm direito à explicação.

O eleitor também tem direito de confrontar as explicações com os fatos.

Porque eleições não servem apenas para escolher quem ocupará determinado cargo.

Servem também para revelar até onde alguém está disposto a ir para conquistá-lo.

E talvez seja exatamente isso que esta reta final esteja mostrando em Mato Grosso.

Nota de Transparência

Esta análise foi produzida a partir de declarações públicas, peças de propaganda eleitoral, gravações posteriormente reconhecidas ou comentadas pelos envolvidos, manifestações dos candidatos e registros públicos da campanha. Foram confrontadas as versões apresentadas pelos personagens citados, inclusive esclarecimentos posteriores de José Medeiros sobre a propaganda da “melancia”, os áudios e sua reunião com Gilmar Mendes. Também foram verificadas as manifestações de Virgínia e Mauro Mendes sobre a disputa ao Senado e as posições públicas de Gisela Simona e Antônio Galvan sobre o feminicídio.

 



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Redação: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

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