Mato Grosso completa, em 2026, 30 anos sem registros de febre aftosa. O último foco da doença no estado ocorreu em janeiro de 1996. Três décadas depois, o estado também passou a integrar, em 2025, a relação de unidades reconhecidas como livres da doença sem vacinação, condição que amplia as possibilidades de negociação da produção pecuária com mercados internacionais.
O reconhecimento sanitário é resultado de um processo iniciado ainda nos anos 1990, com o cadastramento das propriedades rurais, campanhas de vacinação, monitoramento dos rebanhos e participação de produtores, setor privado e órgãos públicos. Segundo João Marcelo Néspoli, médico veterinário e coordenador de Defesa Sanitária Animal do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT), a construção desse status envolveu diferentes etapas e exigiu a participação de toda a cadeia produtiva.
A febre aftosa é uma doença altamente contagiosa que pode atingir animais de casco fendido, como bovinos, bubalinos, ovinos, caprinos e suínos. Entre os impactos provocados pela enfermidade estão lesões na boca e nos cascos, dificuldade de alimentação, perda de peso, queda de produtividade e mortalidade, especialmente entre animais jovens. Além dos efeitos sobre os rebanhos, a ocorrência da doença pode provocar restrições à comercialização de produtos de origem animal.
Três décadas de controle sanitário
O caminho até o atual status sanitário passou inicialmente pela vacinação. Conforme o coordenador do Indea, após o último foco registrado em 1996, Mato Grosso manteve campanhas de vacinação e ampliou o controle sobre os rebanhos. O trabalho começou pelo cadastramento dos estabelecimentos rurais e pela identificação dos animais e de seus responsáveis.
O produtor rural teve papel central nesse processo. Era dele a responsabilidade pela compra e aplicação da vacina, enquanto o serviço oficial de defesa sanitária acompanhava e certificava as ações. Néspoli afirma que a adesão dos produtores às campanhas foi elevada e que a eficiência da vacinação também era acompanhada por meio da coleta de amostras e análises laboratoriais.
A estrutura de prevenção também incluiu a criação de um fundo emergencial para dar suporte às ações sanitárias e garantir recursos para eventuais indenizações. Para o coordenador, essa estrutura ajudou a aumentar a segurança dos produtores para comunicar suspeitas de doenças às autoridades sanitárias.
A última vacinação contra a febre aftosa ocorreu em 2022. A partir daí, o trabalho passou a se concentrar na vigilância e na preparação para eventuais emergências sanitárias. O estado cumpriu as etapas previstas no plano estratégico e, segundo Néspoli, o relatório foi submetido à Organização Mundial de Saúde Animal, com o reconhecimento formal recebido em 2025. As declarações de Néspoli foram dadas em entrevista ao Jornal da Cultura, na manhã desta terça-feira (29).
Certificação pode ampliar mercados
O status de livre de febre aftosa sem vacinação tem reflexos que ultrapassam a questão sanitária. Segundo o coordenador do Indea, alguns mercados internacionais estabelecem requisitos específicos para a compra de produtos de origem animal, e a nova condição sanitária brasileira abriu espaço para tratativas com países como Japão e Coreia do Sul.
Essas negociações são conduzidas pelo Ministério da Agricultura, segundo Néspoli. A expectativa apresentada na entrevista é que o reconhecimento sanitário contribua para ampliar as possibilidades de comercialização e diversificar os destinos dos produtos brasileiros.
A certificação também está inserida em um processo mais amplo de exigências dos mercados consumidores. Além da situação relacionada à febre aftosa, entram nesse conjunto aspectos como rastreabilidade, bem-estar animal, utilização de insumos veterinários e controle de antimicrobianos. Este último, motivado pela restrição imposta pela União Europeia à carne brasileira.
Para o coordenador do Indea, quanto mais elevados os níveis de certificação exigidos e atendidos pela cadeia produtiva, maior tende a ser a competitividade dos produtos nos mercados que demandam essas garantias sanitárias.
Vigilância continua mesmo sem a doença
A ausência de registros de febre aftosa não encerra o trabalho de defesa sanitária. Pelo contrário, a manutenção do status exige vigilância permanente, especialmente porque a doença continua presente em outras regiões do mundo.
Néspoli afirma que o desafio é manter produtores e equipes de defesa sanitária preparados para reconhecer rapidamente eventuais sinais da doença e realizar a notificação. A capacidade de resposta é considerada parte fundamental da manutenção do status sanitário.
As áreas de fronteira internacional recebem atenção específica. De acordo com o coordenador, Mato Grosso mantém equipes de vigilância na faixa de fronteira com a Bolívia, além de estruturas destinadas ao monitoramento das áreas consideradas de maior risco. A vigilância, segundo ele, precisa ser contínua ao longo de todo o ano.
A preocupação não se limita à febre aftosa. Na entrevista, o representante do Indea também citou outras exigências sanitárias e comerciais que estão no radar do setor, entre elas as relacionadas ao uso de antimicrobianos e às regras adotadas por mercados internacionais.
Para o órgão, a manutenção da condição sanitária conquistada depende justamente da combinação entre vigilância oficial, participação dos produtores e capacidade de resposta diante de uma eventual suspeita.
Depois de três décadas sem registros da doença e da transição para o status de livre de febre aftosa sem vacinação, Mato Grosso entra em uma nova etapa: preservar a condição sanitária que ajudou a sustentar sua produção pecuária e, ao mesmo tempo, responder às exigências cada vez maiores dos mercados compradores.






