“Homem nenhum presta.” “Cansei de relacionamento.” “É melhor ficar sozinha.” Frases como essas, cada vez mais comuns nas redes sociais e nas conversas cotidianas, ajudam a traduzir um fenômeno que ganhou nome: o heteropessimismo. O conceito descreve uma postura de desencanto, frustração ou desesperança diante dos relacionamentos heterossexuais, principalmente por mulheres, e ganhou força no ambiente digital. O termo foi cunhado em 2019 pelo escritor e pesquisador Asa Seresin.
Para a psicóloga Roberta Damaceno, o fenômeno precisa ser compreendido dentro do contexto social em que homens e mulheres constroem seus relacionamentos. Em entrevista ao Papo com Ela, ela afirma que expectativas relacionadas aos papéis de gênero podem alimentar conflitos e, depois de experiências frustrantes, contribuir para uma visão generalizada das relações.
Segundo a psicóloga, homens e mulheres ainda são submetidos a expectativas diferentes sobre como devem se comportar dentro de uma relação. Enquanto ao homem historicamente é atribuído o papel de autoridade e provedor, à mulher são associados a função de cuidadora, a feminilidade e uma posição mais submissa.
Quando essas expectativas entram em choque com as transformações nas relações contemporâneas, podem surgir conflitos. Para Roberta, experiências repetidas de frustração podem fazer com que uma pessoa passe a acreditar que novos relacionamentos seguirão necessariamente o mesmo padrão. É nesse ponto que, segundo ela, aparece um dos principais problemas do heteropessimismo, a generalização. É justamente a lógica que a psicóloga considera prejudicial. A mesma generalização pode ocorrer no sentido inverso, quando homens passam a afirmar que todas as mulheres apresentam determinado comportamento. A consequência é transformar experiências individuais em regras sobre grupos inteiros.
Das experiências individuais para o discurso coletivo
A internet tem papel importante na disseminação desses discursos. Redes sociais permitem que pessoas compartilhem experiências pessoais e encontrem outras que passaram por situações semelhantes. Ao mesmo tempo, segundo Roberta, esse ambiente também pode favorecer a generalização.
Uma pessoa que viveu relacionamentos frustrantes pode encontrar milhares de relatos semelhantes e interpretar essa repetição como uma confirmação de que os relacionamentos são problemáticos. Mas existe ainda outra possibilidade. Pessoas que nunca passaram por determinadas experiências podem incorporar o discurso mesmo assim.
A psicóloga observa que parte dos jovens que reproduzem discursos heteropessimistas pode ter vivido relacionamentos frustrantes, enquanto outros podem apenas ter acompanhado esses relatos nas redes sociais e adotado aquela visão como forma de evitar uma possível decepção. Nesse caso, o discurso também pode funcionar como uma estratégia de proteção contra a própria frustração.
Estudos e pesquisas recentes sobre o fenômeno têm justamente observado a circulação desses discursos nas plataformas digitais. Uma pesquisa apresentada naAssociação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós), em 2025, analisou manifestações relacionadas ao heteropessimismo e ao boysober no TikTok e identificou discursos de desistência da vida amorosa e sexual associados a experiências de mal-estar nas relações heterossexuais.
Quando desistir parece mais seguro
A possibilidade de evitar relacionamentos também aparece como consequência desse processo. Roberta explica que uma pessoa que acumula experiências negativas pode chegar à conclusão de que não deseja mais se relacionar. Ela ressalta, no entanto, que não é possível estabelecer uma relação automática entre heteropessimismo e movimentos de celibato voluntário ou de afastamento das relações. A conexão, para ela, pode existir, mas precisa ser observada caso a caso.
O mesmo vale para o modelo de relacionamentos rápidos e passageiros associado ao conceito de “amor líquido”. Para a psicóloga, experiências marcadas pela substituição constante, diante da percepção de que “deu trabalho, pula, é o próximo”, também podem contribuir para desilusões, embora não determinem o comportamento de todas as pessoas.
O impacto na saúde emocional
O problema, conforme Roberta, aparece quando a descrença deixa de ser apenas um discurso e passa a orientar a vida afetiva. A pessoa que acredita que os relacionamentos necessariamente terminarão mal pode deixar de buscá-los. E essa escolha, quando associada ao desejo de estabelecer vínculos, pode produzir outro tipo de sofrimento. “Se eu acredito que os relacionamentos serão desta forma, então eu não os buscarei”, explica.
Entre os possíveis impactos está a solidão. A pessoa pode começar a questionar se encontrará alguém, se existe algum problema com ela própria ou se os relacionamentos simplesmente nunca funcionarão.
O heteropessimismo, portanto, pode criar um ciclo. Uma experiência negativa alimenta uma crença generalizada; a crença influencia novas escolhas e a ausência de novas experiências pode reforçar a própria crença.
Redes sociais e pertencimento
Além da tentativa de evitar a dor, o discurso também pode cumprir uma função de pertencimento. Ao encontrar nas redes um grupo de pessoas que compartilha as mesmas frustrações e opiniões, alguém pode passar a adotar aqueles discursos como parte da própria identidade.
Roberta ressalta que isso não significa que todas as pessoas que reproduzem esse tipo de conteúdo estejam necessariamente nessa situação. O ponto é observar como os ambientes digitais podem amplificar determinados discursos e oferecer uma sensação de pertencimento a quem compartilha daquela visão. Essa dinâmica ajuda a explicar por que frases originalmente relacionadas a experiências individuais podem ganhar caráter coletivo.
Para a psicóloga, reconhecer problemas existentes nas relações não significa concluir que todos os relacionamentos ou todas as pessoas funcionarão da mesma maneira. O desafio estaria justamente em separar a experiência vivida da generalização sobre o outro.
Em vez de simplesmente perguntar se o modelo tradicional de relacionamento “faliu” ou se seria necessário começar tudo novamente, Roberta propõe olhar para as estruturas sociais que ajudaram a construir essas relações. Isso inclui discutir papéis de gênero, expectativas sobre homens e mulheres e os padrões culturais que ainda influenciam a vida afetiva.
Ela defende que esse processo também passa por educação e informação. Assim como ocorre no enfrentamento à violência contra a mulher, compreender as estruturas que sustentam determinados comportamentos pode ampliar o repertório das pessoas para construir outras formas de relacionamento.
Uma pessoa que se identifica com uma postura heteropessimista pode rever essa posição, desde que consiga compreender a própria experiência e perceber quando está transformando acontecimentos particulares em regras gerais.
O primeiro passo, segundo Roberta, é olhar para o que aconteceu antes da conclusão de que “ninguém presta” ou de que nenhum relacionamento pode dar certo. Isso significa compreender as experiências anteriores, identificar os padrões que produziram sofrimento e questionar se eles necessariamente se repetirão.
O objetivo não seria ignorar experiências negativas, mas evitar que elas determinem antecipadamente todas as experiências futuras.
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