Mudanças frequentes e intensas de comportamento podem ser sinais de que uma criança ou adolescente está enfrentando sofrimento emocional, mesmo quando não consegue explicar o que está sentindo. Irritabilidade, isolamento, choro intenso, perda do interesse por atividades que antes faziam parte da rotina, alterações no sono e na alimentação e resistência em ir à escola estão entre os comportamentos que, segundo a psicóloga Isabela Sampaio, merecem atenção dos pais e responsáveis. As declarações foram dadas durante entrevista concedida ao Jornal da Cultura na manhã desta terça-feira (29).
Especialista em análise do comportamento e pós-graduanda em neuropsicologia, Isabela chama atenção para a necessidade de observar não apenas o que crianças e adolescentes dizem, mas também como eles passam a se comportar. A avaliação deve considerar principalmente a frequência e a intensidade dessas mudanças.
“Às vezes é apenas um hormônio, a questão da mudança dessa pré-adolescência para adolescência, mas às vezes não é”, afirmou a psicóloga durante entrevista. Para ela, o comportamento pode funcionar como uma forma de comunicação quando a criança ainda não consegue nomear o que está sentindo.
A orientação ganha importância diante dos dados. Segundo estatísticas da Secretaria de Vigilância em Saúde divulgadas pelo Ministério da Saúde em setembro de 2022, entre 2016 e 2021 houve um aumento de 49,3% nas taxas de mortalidade de adolescentes de 15 a 19 anos, chegando a 6,6 por 100 mil, e de 45% entre adolescentes de 10 a 14 anos, chegando a 1,33 por 100 mil. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a terceira causa de morte depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.
Nem todo sofrimento é verbalizado
Na infância e na adolescência, mudanças emocionais podem ser confundidas com características próprias da idade. O adolescente pode alternar momentos em que deseja conversar com outros em que prefere ficar sozinho. Por isso, para Isabela, não é uma alteração isolada que deve determinar a preocupação dos adultos, mas a combinação entre frequência, intensidade e mudanças na rotina.
O afastamento de atividades que antes despertavam interesse é um dos sinais que devem ser observados. O mesmo vale para o isolamento, episódios recorrentes de choro e irritabilidade intensa.
A dificuldade está também no fato de que crianças nem sempre conseguem identificar ou explicar o que sentem. Por isso, a psicóloga orienta que pais e responsáveis estejam atentos às mudanças de hábitos e comportamentos. “Eu sempre enfatizo que o comportamento é uma comunicação”, destacou.
Resistência para ir à escola pode ser um sinal de alerta
A escola também ocupa um papel importante na identificação de mudanças. Segundo Isabela, uma criança que passa a demonstrar resistência para ir às aulas, chora ao colocar o uniforme ou apresenta alterações significativas relacionadas à rotina escolar pode estar comunicando, por meio do comportamento, que algo não está bem.
Nesses casos, a recomendação é investigar o que está acontecendo, inclusive por meio do diálogo com professores e com a própria escola.
A atenção também deve alcançar situações de bullying e cyberbullying. Para a psicóloga, quando uma criança ou adolescente relata uma situação de violência ou constrangimento, o relato não deve ser tratado como “drama” ou como uma experiência que faz parte da infância porque na época dos pais também acontecia. A comparação com experiências vividas pelos próprios adultos pode acabar minimizando o sofrimento apresentado pela criança.
A orientação é ouvir, entender o que aconteceu, conversar com a escola e verificar se o comportamento é recorrente. Quando necessário, a família deve buscar acompanhamento profissional.
Tecnologia pode ampliar o distanciamento
Outro ponto abordado por Isabela é o uso da tecnologia. A rotina de trabalho dos pais e o cansaço cotidiano podem fazer com que celulares e outros dispositivos sejam utilizados como uma forma de entretenimento ou descanso para as crianças. O problema, conforme a psicóloga, aparece quando esse recurso ocupa o espaço da comunicação e do vínculo familiar.
Crianças e adolescentes passam parte significativa do dia na escola e, ao retornarem para casa, podem buscar os pais para falar sobre amizades, acontecimentos e experiências vividas durante o dia. Quando esse espaço de conversa não acontece, a tecnologia pode se tornar uma espécie de alternativa para essa comunicação.
Para Isabela, o acompanhamento do conteúdo acessado também é necessário. Ela cita a existência de conteúdos inadequados para crianças e adolescentes, incluindo vídeos sexualizados, violência e materiais capazes de provocar angústia.
A psicóloga orienta que os responsáveis acompanhem os aplicativos utilizados, estabeleçam limites de tempo e avaliem se a idade da criança ou do adolescente é adequada para o acesso a determinadas redes sociais. Isso porque a exposição a determinados conteúdos pode causar sofrimento emocional e colocar a saúde mental das crianças e adolescentes em risco.
Comparações podem minimizar o sofrimento
A tentativa de comparar a infância atual com experiências vividas por outras gerações também foi apontada pela psicóloga como um comportamento que pode dificultar a escuta.
Frases como “na minha época era assim” ou “eu passei por isso e sobrevivi” podem fazer com que crianças e adolescentes sintam que aquilo que estão vivendo não merece atenção.
Para Isabela, as mudanças sociais e tecnológicas exigem dos adultos uma postura diferente diante das experiências das novas gerações. Em vez de minimizar, a orientação é tentar compreender o que está por trás daquela mudança de comportamento.
Quando buscar ajuda profissional
A psicóloga ressalta que uma mudança de comportamento não significa, necessariamente, que a criança ou o adolescente esteja apresentando ideação suicida. Diferentes situações podem produzir alterações emocionais e comportamentais, como ansiedade.
Por outro lado, comportamentos mais intensos, autolesão, agressividade, alterações importantes no sono e na alimentação e rigidez diante de atividades da rotina podem indicar a necessidade de uma avaliação profissional.
A orientação é não esperar que o sofrimento chegue a uma situação extrema para procurar ajuda. Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais podem participar do acompanhamento, de acordo com a necessidade identificada.
A família também pode começar pela escuta. Para Isabela, transmitir à criança que existe disponibilidade para ouvir e ajudar é parte importante da prevenção. “Olha, eu estou aqui com você, eu posso te entender”, exemplificou a psicóloga.
No cotidiano, a recomendação é observar mudanças nas notas escolares, no sono, na alimentação, na disposição para ir à escola, no relacionamento com amigos e familiares e no interesse por atividades que antes faziam parte da rotina.






