CULTURA Terça-feira, 29 de Setembro de 2026, 16:10 - A | A

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NO MUNDO DAS LETRAS

Samantha entre cinema e poesia

Mauro Camargo

Adiel Lima

samantha e mauro

A palavra veio antes da imagem. Antes dos roteiros, dos sets de filmagem e dos prêmios conquistados por suas produções, a cineasta, roteirista, produtora e escritora cuiabana Samantha Col Debella já encontrava nos livros uma maneira de compreender e imaginar o mundo.

“Eu digo que o meu ofício é a palavra”, afirmou, em entrevista ao programa Nossa República. Leitora desde a infância, ela considera que o desejo de contar histórias nasceu muito antes de sua entrada no cinema.

Formada em Rádio e TV pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Samantha teve ainda na universidade um dos primeiros contatos marcantes com o cinema, por meio do festival promovido pela instituição. A transformação daquela atração em produção autoral, entretanto, demoraria cerca de duas décadas.

Durante esse período, trabalhou com audiovisual institucional, publicidade e marketing. Produziu documentários e conteúdos para governos e empresas. Por volta de 2015, decidiu mudar de direção.

“Quero contar a minha história agora”, lembra ter pensado — não uma autobiografia, mas histórias que fossem efetivamente suas.

Vieram os estudos de roteiro, especializações e cursos. Samantha também encontrou profissionais da publicidade que compartilhavam a vontade de abandonar os limites dos comerciais de poucos segundos para construir narrativas mais complexas.

Foi preciso aprender cinema.

Samantha rejeita a ideia de que a experiência anterior tenha sido uma espécie de formação cinematográfica automática. Para ela, publicidade, documentário institucional e ficção trabalham com linguagens distintas.

A relação, hoje, ocorre quase no sentido inverso. Depois de aprender a estrutura narrativa do cinema, passou a transportar parte dessa experiência para os documentários: personagens, arcos narrativos e recursos cinematográficos passaram a integrar trabalhos baseados em acontecimentos e pessoas reais.

A ficção, porém, permaneceu como o território principal de sua produção autoral.

O desafio de fazer cinema em Mato Grosso

A consolidação de uma indústria audiovisual em Mato Grosso enfrenta uma dificuldade central: financiamento. “Cinema é muito caro”, resume Samantha.

Uma produção mobiliza profissionais, equipamentos, locações e longos períodos de trabalho. Por isso, segundo ela, a atividade depende de investimentos, incentivos e políticas públicas permanentes capazes de dar continuidade à produção.

A crítica não se dirige apenas à existência ou ausência de recursos. O problema também está na velocidade com que eles chegam a quem produz.

Samantha considera o Estado excessivamente moroso desde o lançamento dos editais até o julgamento dos projetos e a liberação dos recursos. Essa demora impede a criação de uma cadeia contínua na qual profissionais possam terminar um filme e iniciar outro.

Ela identifica, ao mesmo tempo, um momento favorável para o cinema brasileiro, com maior reconhecimento das produções nacionais e crescimento do interesse do público.

Para transformar essa expansão em indústria, sustenta, é necessário aumentar o volume e a diversidade dos filmes disponíveis. Produções nacionais precisam disputar as salas com grandes estúdios internacionais e frequentemente recebem menos sessões e horários menos competitivos.

A ampliação do público poderia criar condições para que as próprias produções passassem a gerar recursos para os projetos seguintes.

Em Mato Grosso, Samantha vê um mercado audiovisual em formação, mas ainda insuficiente para garantir que os realizadores vivam exclusivamente do cinema.

Ao citar o cineasta Bruno Bini e suas premiações, ela resume a dimensão coletiva dessa construção: “Quando ele ganha, ganhamos todos nós”. Cada reconhecimento, argumenta, ajuda a colocar Mato Grosso no mapa da produção cinematográfica brasileira.

Foi com Teodora Quer Dançar que Samantha deixou de ser apenas roteirista e descobriu que também queria dirigir. O filme nasceu de uma lenda urbana de Cuiabá sobre uma mulher que seduzia homens no antigo Clube Feminino. A história foi transportada para uma Cuiabá contemporânea, mantendo a estrutura da lenda e incorporando cenários como a Praça da Mandioca.

Inicialmente, Samantha pretendia apenas escrever o roteiro. A produtora executiva insistiu para que ela também assumisse a direção.

A experiência mudou sua trajetória.

O primeiro set foi difícil, mas a energia coletiva da produção a conquistou. O processo de reunir diferentes profissionais para construir uma cena transformou a percepção que tinha sobre seu próprio trabalho. “Eu me descobri diretora de cinema nesse instante”, contou.

Teodora Quer Dançar percorreu festivais e recebeu premiações em diferentes categorias, entre elas roteiro, atuação e direção de arte. No Cine PE, conquistou dois troféus.

A experiência também ajudou Samantha a definir o papel do diretor. Ela o compara ao de um maestro: alguém responsável pela condução, mas que precisa permitir que os talentos individuais se manifestem.

Essa concepção aparece de maneira especialmente clara na relação com a direção de arte.

Samantha evita determinar todos os elementos dos cenários porque entende que o excesso de controle pode limitar a contribuição dos outros profissionais. Um dos exemplos ocorreu em Beatriz Vira Folhas.

O roteiro precisava de uma biblioteca solene, quase soturna, que representasse simultaneamente o universo da literatura e a severidade da religiosa responsável pelo espaço. As referências imaginadas pela diretora não existiam em Cuiabá, e o orçamento não permitia deslocar a produção para outra cidade.

O diretor de arte Rafael assumiu o desafio de criar o ambiente.

Quando Samantha entrou no cenário pronto, encontrou uma biblioteca que considerou melhor do que aquela que havia imaginado.

A experiência sintetizou uma convicção construída ao longo dos filmes: cinema não é uma criação individual. A direção organiza o conjunto, mas o resultado depende da capacidade de incorporar as soluções produzidas por diferentes profissionais.

Em #Júri, Samantha trabalhou com outro fenômeno: julgamentos e condenações promovidos nas redes sociais. No filme, a punição de um suspeito é submetida a votação online.

A ideia não nasceu como antecipação de um futuro tecnológico. Segundo a diretora, o comportamento já estava presente nas redes quando escreveu a obra. Até mesmo as opções de punição apresentadas no roteiro foram inspiradas em sugestões feitas por pessoas em um caso real.

O que chamou sua atenção foi a intensidade da crueldade. Para Samantha, manifestações nas redes podiam propor punições mais violentas do que o próprio ato que havia provocado a indignação. O fenômeno posteriormente passaria a ser identificado também pela expressão “cancelamento”.

Dos filmes aos livros

Se #Júri observa a violência das redes, Beatriz Vira Folhas retorna a uma experiência muito mais íntima: a descoberta da literatura.

O longa não é autobiográfico, mas contém elementos da infância de Samantha.

Leitora precoce, ela frequentava intensamente a biblioteca da escola. Lia tanto que a bibliotecária acabou desistindo de preencher continuamente sua ficha de empréstimos e lhe concedeu liberdade para escolher os livros.

Samantha chegou a ler O Exorcista aos 10 anos — episódio que seria recriado no filme.

A história inicialmente nasceu como um conto sobre sua relação com os livros. Quando decidiu transformá-la em roteiro, percebeu que aquela estrutura não funcionava para o cinema.

Criou então Beatriz.

A personagem precisa reencontrar a melhor amiga e, para isso, enfrenta justamente aquilo que evitaria: um concurso de leitura e redação. O percurso acaba levando a menina à descoberta do universo literário.

A trama foi ambientada na década de 1990 e incorpora elementos da infância da própria diretora: videogames, bicicletas, objetos e experiências de uma geração.

Beatriz Vira Folhas venceu o Júri Popular do Cinemato e marcou também a estreia de Samantha na direção de longa-metragem.

Depois de Beatriz, veio um projeto ainda maior.

A série Entre Longes, com dez episódios de ficção, acompanha uma enfermeira suíça que chega ao interior de Mato Grosso na década de 1950, depois da Segunda Guerra Mundial, para reconstruir sua vida. A produção estreou no horário nobre da TV Brasil em 2024.

Samantha compara a diferença entre os dois formatos recorrendo a uma imagem: se produzir Beatriz foi montar um quebra-cabeça de mil peças, realizar uma série significou enfrentar um de cinco mil.

Houve dias com cerca de 200 figurantes no set. A dimensão da produção, somada às limitações orçamentárias e às dificuldades de bastidores, provocou forte desgaste físico e emocional.

Depois de emendar Beatriz Vira Folhas e Entre Longes, Samantha decidiu que precisava interromper o ritmo e repensar as condições em que voltaria a fazer cinema.

Foi nesse intervalo que a palavra encontrou outro caminho.

O livro Caco de Vidro não representa exatamente uma ruptura com o cinema. Para Samantha, é outra manifestação de uma relação muito mais antiga com a escrita.

Parte dos poemas é recente; outra foi recuperada de diferentes momentos da vida. Havia textos guardados em arquivos e até escritos em papéis e guardanapos.

Ao revisar esse material, ela percebeu que determinados poemas compartilhavam um fio condutor: a dor.

A seleção passou por leitura crítica da poeta Bruna Beber. Depois dos apontamentos, Samantha enviou os originais a editoras que estavam recebendo poesia. O livro foi aceito por um selo da Atlantic Books, editora portuguesa, com publicação no Brasil e em Portugal.

A experiência trouxe uma diferença radical em relação ao audiovisual. Um filme pode consumir três ou quatro anos entre concepção e conclusão. O livro, terminado em fevereiro, estava impresso e circulando em setembro.

Mas a diferença fundamental está na própria escrita. No roteiro, Samantha trabalha com técnica e com as emoções que pretende provocar no espectador. É preciso calcular ritmo, tensão, humor e reação. Na poesia, o movimento foi inverso. “Esse livro foi escrito para mim”, afirmou.

A exposição emocional provocada pela obra foi definida por um amigo de Samantha em uma frase que ela incorporou: “Poesia é uma espécie de nudes”. “É a alma da gente que está aqui”, explicou.

Isso não significa que o leitor encontrará uma autobiografia organizada em versos. Samantha considera que existe muito pouco dela no livro, embora, paradoxalmente, esteja inteira nele.

A diferença está na apropriação feita pelo leitor. Um amigo pode reconhecer experiências que estejam por trás de determinado poema. Para os demais, sentimentos particulares da autora podem ganhar outros significados.

A literatura também não significa abandono das câmeras.

Há um novo livro em preparação, desta vez organizado em torno de uma temática específica. Não existe prazo definido porque, segundo Samantha, poesia não obedece necessariamente a uma rotina de produção.

E há também um roteiro cinematográfico pronto.

Depois do período de afastamento provocado pelo desgaste de Entre Longes, Samantha Col Debella pretende voltar ao set.

Confira a entrevista na íntegra aqui



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