O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, é formalmente investigado pela Polícia Federal no caso dos repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
A investigação foi autorizada em julho pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a partir de representação apresentada pela própria Polícia Federal e com concordância da Procuradoria-Geral da República.
O conteúdo da decisão tornou-se público nesta sexta-feira (11), após a retirada de sigilo de documentos das investigações relacionadas ao Banco Master. No despacho, Mendonça autorizou a instauração de procedimento investigatório para apurar a hipótese criminal apresentada pela PF.
A investigação alcança suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A abertura do procedimento não significa indiciamento, denúncia ou reconhecimento de responsabilidade criminal. Significa que a Polícia Federal apresentou elementos que considerou suficientes para justificar o aprofundamento da investigação, a PGR concordou com a medida e o relator autorizou formalmente a apuração.
STF já registrava investigação própria
Documentos oficiais do Supremo confirmam que o caso Dark Horse já tramitava em procedimento específico na Corte.
Em decisão de 22 de junho, no Inquérito 4.995, o ministro Alexandre de Moraes determinou que uma notícia-crime apresentada pelo deputado Lindbergh Farias fosse retirada daquele processo e encaminhada à Presidência do STF.
A decisão registrou três possibilidades para o destino da representação: conexão com o próprio inquérito, prevenção à Petição 15.612 ou livre redistribuição.
O documento é relevante porque estabelece oficialmente a existência, no STF, de procedimento relacionado ao caso antes da decisão de Mendonça que autorizou o aprofundamento da investigação policial.
A apuração que agora alcança formalmente Flávio Bolsonaro não decorre, porém, da notícia-crime apresentada por Lindbergh.
A Procuradoria-Geral da República manifestou-se pelo arquivamento do pedido do parlamentar. O procedimento autorizado por Mendonça teve origem em representação da própria Polícia Federal.
PF pediu e PGR concordou
O despacho de Mendonça tem duas páginas.
Segundo a íntegra da decisão examinada pela Reuters, o ministro registrou expressamente a representação da Polícia Federal e a concordância da Procuradoria-Geral da República antes de autorizar a investigação.
A PF pretende esclarecer o destino de recursos transferidos por Daniel Vorcaro sob a justificativa de financiar Dark Horse.
Flávio Bolsonaro reconheceu publicamente que procurou Vorcaro para obter recursos privados destinados à produção cinematográfica. Nega ter recebido dinheiro para benefício pessoal e sustenta que os valores foram destinados exclusivamente ao filme.
A investigação procura verificar essa versão por meio do rastreamento financeiro.
Milhões de dólares sob investigação
As apurações sobre Dark Horse alcançam uma negociação de aproximadamente US$ 24 milhões para financiamento da produção.
Pelo menos US$ 12,3 milhões teriam sido efetivamente transferidos.
Parte do circuito financeiro passa pelo Havengate Development Fund, fundo constituído nos Estados Unidos e utilizado na estrutura de financiamento da produção.
A Polícia Federal investiga a origem integral dos recursos, o caminho percorrido pelo dinheiro e seus beneficiários finais.
Uma das hipóteses investigadas é se parte dos valores transferidos aos Estados Unidos foi utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro naquele país ou outras atividades de aliados do ex-presidente.
Flávio Bolsonaro nega essa possibilidade e afirma que os aportes foram direcionados exclusivamente a um fundo específico da produção, submetido às regras norte-americanas.
Não há, até agora, conclusão da investigação demonstrando que dinheiro destinado ao filme tenha sido utilizado para custear Eduardo Bolsonaro.
Operador de Vorcaro fez acordo de colaboração
Outro elemento incorporado à investigação é a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro.
Apontado nas investigações como operador financeiro de Daniel Vorcaro, Freixo realizou repasses determinados pelo ex-banqueiro, inclusive para um fundo nos Estados Unidos utilizado no financiamento de Dark Horse.
André Mendonça homologou nesta semana o acordo de colaboração firmado entre Freixo e a Procuradoria-Geral da República.
A homologação reconhece a regularidade jurídica do acordo e permite sua utilização na investigação. Não significa que as declarações do colaborador tenham sido reconhecidas como verdadeiras.
Informações fornecidas em colaboração premiada precisam ser confrontadas com elementos independentes de prova.
Perícia foi contratada pela própria produtora
A Go Up Entertainment, responsável pela produção de Dark Horse, sustenta que o filme foi financiado exclusivamente com recursos privados.
A defesa da empresa contratou uma perícia particular que calculou em US$ 13,39 milhões, aproximadamente R$ 75,2 milhões, os gastos realizados com a produção até o período analisado.
O laudo afirma não ter encontrado recursos públicos, incentivos fiscais, recursos da Lei Rouanet ou dinheiro proveniente de contratos da Prefeitura de São Paulo entre os documentos examinados.
O alcance dessa conclusão, entretanto, é limitado pela própria origem e metodologia do trabalho.
A perícia foi encomendada pela defesa de Karina Gama, responsável pela Go Up, e realizada a partir de contratos, extratos, planilhas, demonstrativos e outros documentos fornecidos pela própria empresa investigada.
O trabalho não identifica todos os fornecedores que receberam recursos da produtora, não apresenta documentação fiscal que permita conferir integralmente a destinação dos valores e não esclarece a compatibilidade dos custos apresentados com os praticados pelo mercado cinematográfico.
A própria conclusão da perícia restringe seus resultados ao conjunto documental submetido à análise.
O laudo constitui, portanto, elemento apresentado pela defesa da produtora. Não substitui a análise de dados bancários, fiscais, contratos e demais documentos obtidos diretamente pelos órgãos responsáveis pela investigação.
Duas frentes investigam o filme
O financiamento de Dark Horse aparece atualmente em duas frentes distintas de investigação no Supremo.
A primeira, sob relatoria de André Mendonça, examina os recursos relacionados a Daniel Vorcaro e o circuito financeiro utilizado para financiar o filme.
É nesse procedimento que Flávio Bolsonaro passou a ser formalmente investigado.
Outra investigação, sob relatoria do ministro Flávio Dino, apura possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares, contratos públicos e organizações relacionadas a Karina Gama.
Nesta semana, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra o deputado federal Mario Frias (PL-SP), idealizador e produtor-executivo de Dark Horse, Karina Gama e outros investigados.
A investigação sob relatoria de Dino procura esclarecer possíveis desvios de recursos destinados a projetos executados pelo Instituto Conhecer Brasil e outras entidades e empresas relacionadas aos investigados.
As duas apurações possuem personagens e circunstâncias que se cruzam, mas são juridicamente distintas.
Até o momento, não há conclusão da Polícia Federal estabelecendo que recursos públicos financiaram Dark Horse.
Investigação alcança candidato à Presidência
A divulgação da decisão ocorre a pouco mais de três semanas do primeiro turno da eleição presidencial.
A investigação, entretanto, não foi aberta durante a atual fase da campanha nem em consequência da operação realizada nesta semana.
A Polícia Federal já havia solicitado o aprofundamento das apurações sobre os recursos destinados ao filme. A PGR concordou com a abertura do procedimento e Mendonça autorizou a investigação em julho.
A documentação agora tornada pública esclarece uma questão que permanecia incompleta no debate sobre Dark Horse: Flávio Bolsonaro não aparece apenas como intermediário que admitiu ter procurado Daniel Vorcaro para obter financiamento para o filme.
Ele é formalmente investigado pela Polícia Federal no procedimento autorizado pelo Supremo Tribunal Federal.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida com base em registros processuais oficiais do Supremo Tribunal Federal, incluindo decisão de 22 de junho de 2026 no Inquérito 4.995, que determinou o encaminhamento de notícia-crime à Presidência da Corte e mencionou expressamente a possibilidade de prevenção à Petição 15.612.
O conteúdo da decisão posterior do ministro André Mendonça que autorizou o procedimento investigatório foi confrontado com a íntegra examinada pela Reuters e com apurações independentes da Folha de S.Paulo. A decisão registra que a investigação foi solicitada pela Polícia Federal e recebeu concordância da Procuradoria-Geral da República.
Informações relativas à perícia apresentada pela Go Up Entertainment foram confrontadas com o conteúdo e as limitações metodológicas do trabalho divulgados pela Folha de S.Paulo. Trata-se de perícia privada contratada pela defesa da responsável pela produtora e baseada em documentação disponibilizada pela própria interessada.
A reportagem distingue documentos oficiais, fatos constatados, hipóteses sob investigação e versões apresentadas pelas defesas. A instauração de investigação não representa indiciamento, denúncia ou reconhecimento de responsabilidade criminal.






