NOTICIÁRIO Domingo, 13 de Setembro de 2026, 08:29 - A | A

Domingo, 13 de Setembro de 2026, 08h:29 - A | A

PESQUISAS ELEITORAIS

Por que os institutos mostram eleições diferentes em MT

Mauro Camargo

Ilustração produzida com IA

Pesquisas eleitorais

 

Durante três dias da semana passada, dois institutos estavam simultaneamente em campo tentando responder à mesma pergunta: em quem o eleitor de Mato Grosso pretende votar para governador?

Chegaram a respostas muito diferentes.

A AtlasIntel entrevistou eleitores entre 4 e 9 de setembro e encontrou Wellington Fagundes com 34,4%, Otaviano Pivetta com 30,8% e Natasha Slhessarenko com 23,2%.

O Paraná Pesquisas realizou seu levantamento entre 6 e 8 de setembro. Pivetta apareceu com 40,8%, Wellington com 30% e Natasha com 12%.

Nos três dias em que os períodos de coleta coincidiram, portanto, os dois institutos estavam medindo essencialmente o mesmo momento da campanha.

Na Atlas, Wellington aparece 3,6 pontos à frente de Pivetta, em situação de empate técnico.

No Paraná, Pivetta está 10,8 pontos à frente de Wellington.

A posição relativa dos dois candidatos varia 14,4 pontos percentuais entre uma pesquisa e outra.

E a discrepância não se limita à liderança.

Pivetta tem dez pontos a mais no Paraná do que na Atlas. Wellington varia 4,4 pontos. Natasha apresenta a maior diferença proporcional: 23,2% na Atlas e 12% no Paraná, diferença de 11,2 pontos.

Não são, portanto, apenas duas pesquisas discordando sobre quem está na frente.

São duas representações bastante diferentes do eleitorado mato-grossense.

Três pesquisas apontam Wellington

A comparação com os levantamentos anteriores amplia a questão.

A Quaest entrevistou 804 eleitores entre 21 e 24 de agosto. Wellington apareceu com 27%, Pivetta com 23% e Natasha com 8%. Wellington e Pivetta estavam tecnicamente empatados.

O Real Time Big Data ouviu 1.600 eleitores entre 29 de agosto e 2 de setembro. Wellington chegou a 34%, Pivetta marcou 27% e Natasha, 13%. A vantagem do senador foi de sete pontos.

Agora, a Atlas encontra Wellington com 34,4% e Pivetta com 30,8%.

A sequência dos levantamentos produz quatro resultados:

Quaest: Wellington +4, empate técnico.

Real Time: Wellington +7.

Atlas: Wellington +3,6, empate técnico.

Paraná: Pivetta +10,8.

O Paraná é, portanto, o único dos quatro levantamentos recentes que coloca Pivetta numericamente na liderança.

Isso não significa que esteja errado.

Pesquisa eleitoral não é censo. Cada instituto seleciona uma parcela do eleitorado e utiliza procedimentos estatísticos para fazer com que aquele grupo represente milhões de eleitores.

É justamente aí que começam as diferenças.

Dois caminhos para encontrar o eleitor

A primeira diferença objetiva entre Atlas e Paraná está na forma de chegar ao entrevistado.

O Paraná utilizou metodologia quantitativa com entrevistas pessoais, domiciliares e presenciais. Foram ouvidos 1.352 eleitores em 52 municípios.

A Atlas entrevistou 1.209 pessoas utilizando recrutamento digital aleatório, metodologia própria denominada Atlas RDR.

Não existe entrevistador diante do eleitor.

O sistema recruta participantes durante sua navegação normal pela internet, utilizando dispositivos localizados geograficamente dentro do território pesquisado. Depois da coleta, a Atlas utiliza procedimentos de pós-estratificação para ajustar a amostra às características da população que pretende representar.

Entre as variáveis que o instituto declara utilizar nesse processo estão sexo, idade, escolaridade, renda, região e comportamento eleitoral anterior.

São duas maneiras profundamente diferentes de construir uma amostra.

O Paraná procura fisicamente o eleitor em municípios e domicílios selecionados.

A Atlas encontra digitalmente o entrevistado e posteriormente utiliza ponderação estatística para aproximar o conjunto obtido do perfil da população.

Nenhum desses métodos é, isoladamente, evidência de maior ou menor qualidade.

Mas eles podem alcançar eleitores diferentes.

Quem ficou maior em cada amostra?

Os resultados por segmentos oferecem pistas importantes.

No Paraná, Pivetta apresenta vantagem particularmente elevada entre eleitores de meia-idade. Na faixa de 45 a 59 anos, por exemplo, chega a 46,2%, contra 27,6% de Wellington.

Wellington melhora seu desempenho entre os mais jovens e também entre os eleitores com 60 anos ou mais em determinadas simulações.

Natasha, por sua vez, apresenta desempenho proporcionalmente maior entre mulheres, eleitores com ensino superior e pessoas fora da população economicamente ativa.

Esses cruzamentos são importantes porque mostram como alterações na participação ou na ponderação de determinados grupos podem deslocar o resultado agregado.

Se uma metodologia atribui peso relativamente maior a um segmento no qual Pivetta é muito forte, seu resultado final tende a crescer.

Se outra produz representação maior de grupos nos quais Natasha ou Wellington apresentam desempenho superior, ocorre o movimento inverso.

Isso é uma explicação estatisticamente possível para parte das diferenças.

Os documentos públicos examinados, entretanto, não permitem afirmar que determinada variável isolada tenha produzido os 14,4 pontos de diferença entre Atlas e Paraná.

Para isso seriam necessários dados mais detalhados sobre composição efetivamente obtida, ponderações aplicadas a cada entrevistado e, idealmente, os microdados das pesquisas.

Natasha é a maior pista

A candidatura de Natasha talvez ofereça a evidência mais interessante de que a divergência vai além da disputa pela primeira colocação.

Ela aparece com:

8% na Quaest;

13% no Real Time;

12% no Paraná;

23,2% na Atlas.

A Atlas praticamente dobra o percentual encontrado pelo Paraná, embora os dois levantamentos tenham sido realizados simultaneamente durante três dias.

Uma movimentação eleitoral dessa magnitude ocorrida justamente no intervalo entre os levantamentos seria uma hipótese possível se as pesquisas fossem realizadas em momentos diferentes.

Não é o caso.

A coincidência temporal reduz substancialmente essa explicação.

Resta investigar principalmente diferenças de amostra, coleta, ponderação e questionário.

Nem os indecisos são iguais

Outro sinal de que as pesquisas não estão necessariamente medindo o eleitor da mesma maneira aparece entre aqueles que ainda não escolheram candidato.

Na Quaest de agosto, 29% declararam voto branco, nulo ou em nenhum candidato e outros 8% estavam indecisos.

No Real Time, brancos e nulos representavam 10% e os que não sabiam ou não responderam, 11%.

No Paraná, a pesquisa espontânea ainda encontrou 50% dos eleitores sem candidato definido. Quando os nomes foram apresentados, porém, o percentual caiu acentuadamente.

Essas diferenças exigem cuidado.

“Não sabe”, “não respondeu”, “nenhum”, “branco”, “nulo” e ausência de escolha espontânea não são necessariamente categorias equivalentes.

Além disso, a apresentação dos nomes dos candidatos pode estimular uma escolha que não existia anteriormente.

Por isso, comparar mecanicamente percentuais de indecisão entre institutos pode produzir conclusões erradas.

Mas a dimensão das diferenças mostra outra coisa: o instrumento utilizado para perguntar também participa da construção do resultado que chega ao público.

O tamanho da amostra não resolve sozinho

Outro equívoco seria imaginar que a pesquisa com mais entrevistados necessariamente representa melhor o eleitorado.

O Real Time possui a maior amostra dos quatro levantamentos, com 1.600 entrevistas.

O Paraná ouviu 1.352 pessoas.

A Atlas, 1.209.

A Quaest, 804.

O tamanho da amostra influencia a precisão estatística e a margem de erro, mas não resolve eventuais diferenças na seleção dos entrevistados.

Uma amostra menor corretamente distribuída pode representar melhor determinada população que uma amostra maior sujeita a algum viés de seleção.

Por isso, a pergunta relevante não é apenas quantas pessoas foram entrevistadas, mas quem foi entrevistado e quanto cada pessoa passou a representar no cálculo final.

A margem de erro não explica tudo

Também seria incorreto atribuir a divergência simplesmente às margens de erro.

A margem declarada é de três pontos na Atlas e 2,7 pontos no Paraná.

Esses valores descrevem a incerteza amostral de cada levantamento dentro das condições estatísticas assumidas por seus métodos.

Não significam que seja possível somar mecanicamente as duas margens e considerar explicada qualquer diferença entre pesquisas.

Atlas e Paraná apresentam uma variação de 14,4 pontos na posição relativa entre Wellington e Pivetta.

Há ainda dez pontos de diferença na intenção atribuída a Pivetta e 11,2 pontos na atribuída a Natasha.

A dimensão dessas discrepâncias exige procurar outras explicações além da margem de erro.

Quaest também foi questionada na Justiça

A própria possibilidade de auditar pesquisas já chegou ao Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso nesta eleição.

A coligação Mato Grosso Para Todos pediu acesso ao sistema interno de controle da pesquisa Quaest MT-04846/2026 e ao relatório completo do levantamento.

A Justiça Eleitoral autorizou parcialmente o acesso aos mecanismos de controle e fiscalização da coleta, incluindo informações auditáveis, identificação dos entrevistadores, modelo de questionário e relatório entregue ao contratante, quando existente.

O acesso antecipado aos resultados completos, entretanto, não foi concedido.

Em outro procedimento, foram levantadas alegações sobre inconsistências no plano amostral e na distribuição territorial da pesquisa.

A existência da contestação não significa que a Justiça tenha reconhecido manipulação ou irregularidade na pesquisa. Ao analisar o pedido de acesso, o próprio TRE registrou que não havia sido apresentada, naquele momento, deficiência técnica objetiva, divergência comprovada entre dados registrados e divulgados ou indício demonstrado de manipulação.

O episódio evidencia, porém, uma limitação importante para qualquer análise externa: os registros públicos permitem examinar parte relevante da metodologia, mas não necessariamente oferecem todos os elementos necessários para reproduzir integralmente os cálculos de um instituto.

A pesquisa também disputa a eleição

A divergência deixou de ser uma discussão exclusivamente estatística porque os levantamentos passaram a integrar a própria campanha eleitoral.

Pivetta pode apresentar ao eleitor uma pesquisa registrada na Justiça Eleitoral que lhe concede vantagem superior a dez pontos.

Wellington pode apresentar três levantamentos recentes em que aparece numericamente à frente.

Ambas as afirmações são factualmente verdadeiras.

O problema surge quando qualquer desses números é apresentado como se representasse uma medição definitiva da vontade dos eleitores.

Não representa.

Cada percentual é resultado de uma cadeia de decisões: onde procurar o entrevistado, como selecioná-lo, como formular as perguntas, como corrigir a composição da amostra e quanto peso atribuir estatisticamente a cada resposta.

Em Mato Grosso, essas decisões estão produzindo fotografias suficientemente diferentes para que o método passe a ser tão importante quanto o número.

O que é possível concluir

Os documentos examinados não permitem determinar qual dos quatro institutos está mais próximo da intenção real do eleitorado mato-grossense.

Também não fornecem evidência para afirmar que qualquer levantamento tenha sido manipulado.

Permitem, entretanto, estabelecer três fatos.

Atlas e Paraná realizaram pesquisas praticamente simultâneas e chegaram a resultados incompatíveis com uma explicação baseada apenas na passagem do tempo.

Os institutos utilizam métodos substancialmente diferentes de recrutamento, coleta e tratamento estatístico das entrevistas.

E as discrepâncias aparecem não apenas na disputa Wellington-Pivetta, mas também — e de forma particularmente acentuada — no tamanho atribuído à candidatura de Natasha.

A eleição será decidida na urna.

Até lá, cada pesquisa continuará sendo uma estimativa.

Para entender o que ela realmente diz sobre Mato Grosso, olhar apenas para quem aparece em primeiro lugar já não é suficiente.

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Nota de Transparência

O Nossa República comparou informações públicas referentes aos levantamentos AtlasIntel MT-02766/2026, Paraná Pesquisas MT-01505/2026, Real Time Big Data MT-07156/2026 e Quaest MT-04846/2026. Foram examinados registros e informações metodológicas disponíveis, resultados divulgados pelos institutos e veículos de imprensa e decisões da Justiça Eleitoral relacionadas à fiscalização da pesquisa Quaest.

A AtlasIntel ouviu 1.209 eleitores entre 4 e 9 de setembro, com margem declarada de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O instituto utiliza recrutamento digital aleatório e procedimentos de pós-estratificação. A ficha inicialmente registrada previa 1.200 entrevistas e o relatório divulgado registra 1.209 respondentes.

O Paraná Pesquisas entrevistou pessoalmente e em domicílio 1.352 eleitores entre 6 e 8 de setembro, distribuídos por 52 municípios. A margem declarada é de 2,7 pontos e o nível de confiança, 95%.

O Real Time Big Data ouviu 1.600 eleitores entre 29 de agosto e 2 de setembro. A margem declarada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

A Quaest entrevistou presencialmente 804 eleitores entre 21 e 24 de agosto. A margem máxima divulgada é de aproximadamente três pontos percentuais e o nível de confiança, 95%.

A análise não teve acesso aos microdados individuais dos quatro levantamentos. Por essa razão, diferenças observadas entre métodos, composição amostral e resultados são apresentadas como elementos capazes de contribuir para a discrepância, e não como demonstração causal de que uma variável específica tenha produzido determinado percentual.

Fontes: sistema PesqEle/TSE e registros MT-02766/2026, MT-01505/2026, MT-07156/2026 e MT-04846/2026; documentação metodológica da AtlasIntel; Paraná Pesquisas; decisões e procedimentos do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso relacionados à pesquisa MT-04846/2026; resultados publicados pelos institutos e documentação jornalística utilizada para conferência.



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Redação: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

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