A reta final das eleições em Mato Grosso transformou divergências acumuladas durante a campanha em confrontos abertos, rompeu alianças informais e elevou a temperatura política a poucos dias da votação. Para o jornalista Mauro Camargo, o processo chegou a uma espécie de “vale-tudo eleitoral”, no qual a disputa pelo voto começa a se sobrepor à coerência política e partidária.
A avaliação foi feita na manhã desta quarta-feira (30), durante participação no Jornal da Cultura, apresentado pela jornalista Michely Figueiredo na Rádio Cultura FM 90.7.
Ao longo do comentário, Camargo analisou a suspensão da propaganda eleitoral de Natasha Slhessarenko (PSD), os confrontos na disputa pelas duas vagas ao Senado, os áudios envolvendo José Medeiros (PL), a proliferação de pesquisas na reta final e a crise aberta no Tribunal de Contas do Estado.
A Justiça Eleitoral determinou na terça-feira (29) a suspensão da propaganda gratuita de Natasha no rádio e na televisão até quinta-feira, 1º de outubro, último dia do horário eleitoral do primeiro turno.
A decisão foi tomada pelo corregedor regional eleitoral, desembargador Marcos Machado, depois de considerar que a campanha descumpriu determinação anterior relacionada à divulgação de conteúdo sobre o governador Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato à reeleição.
A controvérsia começou com peças que faziam referência a uma reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, sobre uma acusação de violência doméstica envolvendo Pivetta. Os procedimentos relativos ao episódio foram arquivados por ausência de justa causa.
A determinação da Justiça Eleitoral estabeleceu que a associação de Pivetta à acusação não poderia ser feita sem informar simultaneamente o arquivamento.
Depois da primeira decisão, a campanha de Natasha veiculou novas peças nas quais dizia ter sido impedida pela Justiça de mostrar a reportagem e utilizava QR Code e indicação de termos de busca para permitir ao eleitor localizar o conteúdo.
Marcos Machado considerou que houve reiteração da conduta anteriormente proibida. A propaganda foi suspensa até o encerramento do horário eleitoral e a multa por eventual novo descumprimento foi elevada para R$ 100 mil.
Para Camargo, a punição produz um efeito político contraditório. De um lado, retira da única mulher candidata ao Governo uma importante ferramenta de comunicação justamente nos últimos dias da campanha. De outro, segundo ele, oferece à candidata a possibilidade de apresentar-se politicamente como alvo de uma decisão excessiva. “Da mesma forma que foi negativo para ela perder o espaço, existe a possibilidade de as pessoas se identificarem com Natasha”, afirmou.
Camargo ponderou que o episódio envolve assunto que já havia sido objeto de cobertura jornalística nacional e permanece disponível publicamente. Na avaliação do jornalista, a consequência eleitoral da decisão não necessariamente beneficiará quem pediu a retirada da propaganda. O eventual efeito sobre o eleitorado, porém, somente poderá ser aferido nas urnas.
A disputa pelas duas vagas ao Senado foi outro ponto central da análise. Camargo considera que o confronto entre José Medeiros (PL) e Janaina Riva (MDB) expõe uma característica da reta final: a necessidade de conquistar uma das duas vagas tornou secundários compromissos existentes dentro dos próprios agrupamentos políticos.
Áudios de uma conversa de Medeiros com o prefeito de Diamantino, Chico Mendes, irmão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, passaram a ser utilizados politicamente contra o candidato.
Em uma das gravações, Medeiros fala sobre sua estratégia em relação ao STF. Em outra, ao explicar características de seu eleitorado, afirma que seu eleitor “ora para alienígena e bebe detergente”. Medeiros posteriormente sustentou que a frase foi uma brincadeira. Camargo rejeitou essa interpretação depois de ouvir o contexto mais amplo da conversa. “Não é uma piada. Ele estava falando seriamente”, afirmou o jornalista.
Para o comentarista, a expressão tem caráter depreciativo em relação aos próprios apoiadores de Medeiros. Outro trecho da conversa ganhou relevância porque Medeiros confirmou ter procurado Gilmar Mendes depois de receber informações de que poderia ser alvo de uma operação policial. O contato foi intermediado por Chico Mendes.
Camargo fez uma crítica contundente à iniciativa e questionou publicamente a preocupação manifestada pelo candidato. “Por que Medeiros tem medo da Polícia Federal?”, perguntou.
A pergunta constitui um juízo político do comentarista, e não significa que exista comprovação de irregularidade atribuível ao candidato. A existência da conversa tampouco demonstra interferência de Gilmar Mendes em investigação policial. Medeiros afirmou que o ministro lhe disse desconhecer qualquer operação contra ele.
Há, entretanto, um antecedente político: em agosto, Medeiros anunciou a intenção de propor a proibição de operações policiais contra candidatos durante os seis meses anteriores às eleições. Posteriormente, recuou da proposta.
Janaina decidiu reagir politicamente. Em uma peça divulgada nesta semana, apareceu com uma melancia nas mãos e ironizou políticos que criticam publicamente o Supremo, mas procuram ministros reservadamente.
A provocação devolveu a Medeiros um símbolo que ele próprio já havia utilizado na campanha. Na linguagem adotada por setores da direita, “melancia” é uma expressão depreciativa aplicada a quem seria verde por fora e vermelho por dentro, isto é, alguém que se apresenta como conservador, mas teria posições identificadas com a esquerda.
Camargo classificou como tardia a reação de Janaina e disse que o confronto demonstra uma “disputa fratricida” entre candidaturas que deveriam, em tese, compartilhar interesses eleitorais. O jornalista estendeu a crítica às movimentações envolvendo Margareth Buzetti.
Durante o programa, Michely Figueiredo lembrou que Buzetti havia recuado anteriormente de sua própria pretensão eleitoral em meio às negociações internas do grupo. Camargo afirmou que a senadora demonstrou comportamento de grupo e criticou aliados que, na reta final, passaram a pedir votos para outros candidatos ao Senado. Na avaliação do comentarista, essas movimentações revelam “oportunismo eleitoral”.
O comentário é fundamentado na postura adotada pela candidata a vice-governadora, Gisela Simona (União), que mesmo tendo Buzetti como candidata ao Senado dentro do seu grupo, resolveu pedir votos para Antonio Galvan (Avante), que não integra a coligação. A conduta contraria o discurso de defesa de maior participação feminina em espaços de poder e também a luta pelo fim da violência contra as mulheres, uma vez que Simona já reconheceu que a extrema direita dificulta esse processo e Galvan se rotula como o maior representante deste movimento, falando inclusive contra a legislação proposta por Buzetti que classificou o feminicídio como crime autônomo.
A fragmentação das alianças também encontra explicação no sistema de votação para o Senado. Neste ano, cada eleitor poderá escolher dois candidatos. Serão eleitos os dois nomes com maior número total de votos, independentemente da ordem em que forem digitados na urna.
A característica torna mais complexa a leitura das pesquisas. Eleitores podem combinar candidatos pertencentes a diferentes partidos e campos políticos, enquanto parte do eleitorado ainda não definiu os dois votos.
Camargo também chamou atenção para a concentração de pesquisas nos últimos dias da campanha. Nove levantamentos têm divulgação prevista entre esta quarta-feira e sábado. Para o jornalista, os números precisam ser examinados com cuidado. “Vamos ver uma guerra de pesquisas, uma guerra de números”, afirmou.
O alerta não significa que diferenças entre institutos representem necessariamente irregularidades. Métodos de coleta, composição amostral e ponderações podem produzir resultados diferentes. Divergências expressivas, entretanto, justificam a análise da metodologia, período de campo, distribuição territorial, contratante e registro de cada levantamento antes de conclusões sobre tendências eleitorais.
Na disputa pelo Governo, a Quaest divulgada na semana passada registrou Otaviano Pivetta com 29% das intenções de voto e Wellington Fagundes (PL) com 27%, diferença dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Natasha apareceu com 11%. O levantamento ouviu 804 eleitores entre os dias 21 e 24 de setembro e foi registrado sob o número MT-08098/2026.
Camargo considera que a proximidade entre os principais candidatos ajuda a explicar o acirramento da campanha. Ressalvou, entretanto, que pesquisas não determinam o resultado das urnas. Há ainda a possibilidade de um fato eleitoral inédito no período contemporâneo da política estadual.
Desde 1994, todas as eleições para governador de Mato Grosso foram decididas no primeiro turno. Caso nenhum candidato alcance mais da metade dos votos válidos no domingo, o Estado terá pela primeira vez nesse período uma disputa estadual decidida em segundo turno. “Segundo turno é outra eleição”, resumiu Camargo.
Segundo ele, alianças são reorganizadas, campanhas reformulam estratégias e candidatos precisam administrar com ainda mais cuidado declarações, entrevistas e debates.
A parte final do comentário foi dedicada à crise no Tribunal de Contas de Mato Grosso.
O conflito começou depois que o presidente Sérgio Ricardo retirou Waldir Teis da função de supervisor da Escola Superior de Contas.
Antônio Joaquim, Guilherme Maluf e Alisson Alencar divulgaram nota em solidariedade a Teis e manifestaram “firme discordância” com a decisão. Posteriormente, os quatro conselheiros não compareceram a uma sessão do Pleno, impedindo a formação de quórum.
Na terça-feira (29), o conflito chegou diretamente ao plenário. Sérgio Ricardo criticou publicamente a ausência dos quatro conselheiros. Antônio Joaquim reagiu e chegou a pedir que fosse descontado de sua remuneração o dia em que não compareceu. A discussão evoluiu para uma troca pública de acusações.
Antônio Joaquim também apresentou proposta para modificar o Regimento Interno. Pela mudança, a escolha do supervisor da Escola Superior de Contas e do ouvidor-geral deixaria de ser atribuição exclusiva da Presidência e passaria a ser realizada por eleição entre os próprios conselheiros.
Para Camargo, o episódio ultrapassou uma divergência administrativa e passou a atingir institucionalmente a Corte. “O tribunal, com esse episódio, está abalado”, afirmou.
O jornalista considera particularmente preocupante que divergências internas possam contaminar a percepção pública sobre decisões de uma instituição responsável pela fiscalização de recursos públicos e pelo julgamento das contas de administradores estaduais e municipais. “Tribunal de Contas é uma Corte. A gente tem que imaginar que a Corte de Contas seja uma corte técnica”, disse.
Camargo ressaltou que divergências entre conselheiros são legítimas. O problema, em sua avaliação, começa quando o conflito político ou administrativo interfere no funcionamento institucional. A crise já provocou uma sessão sem quórum, chegou ao plenário, produziu confrontos públicos e agora alcança uma discussão formal sobre a distribuição de atribuições dentro do Tribunal.
“Lamentavelmente, esse episódio eu espero que se resolva logo, mas que o Tribunal continue avançando e não regrida para tempos que a lembrança não gostaria de carregar”, concluiu.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida a partir da íntegra dos comentários de Mauro Camargo no Jornal da Cultura, apresentado por Michely Figueiredo na Rádio Cultura FM 90.7, nesta quarta-feira (30). As informações factuais mencionadas durante a transmissão foram confrontadas com registros da Justiça Eleitoral, dados eleitorais, manifestações públicas e informações sobre os episódios abordados. Opiniões e juízos críticos foram preservados quando relevantes para a compreensão da análise e estão expressamente atribuídos ao comentarista.






