E eu, que já comprei tantas brigas, entrei em tantas batalhas, gastei tanto do meu tempo e energia à toa, aprendi a deixar ir. Soltar, esperar e confiar.
Porque a vida é impermanente e certeira. Da noite pro dia tudo pode mudar, e muda. E eis que aquilo ou alguém que você já desejou tanto passa a não fazer o menor sentido. Aqueles amigos “pra sempre” tornam-se desconhecidos. Aquele você já é outra pessoa.
Assim também acontece com as dores, as feridas, que tratam de cicatrizar, ainda que machuquemos o mesmo local repetidas vezes. E aqueles que as causaram encontrarão, receberão, cedo ou ainda mais cedo, as suas próprias.
Quem hoje machuca, oprime e comemora, amanhã estará sofrendo o retorno do mal feito, machucado, oprimido. Porque é assim. Não é uma questão de vingança, é ação e reação. São ciclos. As pessoas podem até se esquecer, mas o destino tem memória admirável.
Prefiro manter no foco, no radar, o que há de positivo. Continuar fazendo minha melhor parte, entregar as mágoas ao tempo, entender que não posso parar a roda, mas que nunca perco nada, só aprendo. Ainda que tudo que hoje vivo com satisfação termine, terei comigo as lições e lembranças.
E a gente vai se aperfeiçoando, melhorando nisso. À medida que exercita esse desapego confiante, vai adquirindo a consciência de que não vale mesmo a pena se consumir. Não há nada, seja um bem, tesouro ou recompensa, que seja mais valioso e capaz de durar do que o equilíbrio interior, a tão falada paz de espírito.
Por isso, não me economizo ao mundo. Não fujo das experiências, mesmo as que me assustam. Vivo e aceito o que vem a mim, pois não vem ao acaso.
Se é algo bom, aproveito, pois vai acabar. Se é algo ruim, agradeço, pois vai acabar.




