Preciso falar sobre a danada insatisfação antes que ela tome conta de mim. Foi o que pensei há algumas semanas atrás, quando caía sem parar uma chuva fina e sem graça sob minha cabeça por onde quer que eu andasse. Te juro! Sabe aquela chuva que cai bem quando a gente sai sem guarda-chuva? Que não avisa e não molha a ponto de nos fazer voltar ou parar até que melhore... Então continuei andando meio molhada, meio seca, num calor abafado e úmido que ela trazia. O sol até apareceu tímido, mas a nuvem mesmo não saía de cima de mim.
Já havia tentado umas posições invertidas da yoga pra ver se ela desgrudava, tentei ligar o ventilador na intenção de que ela voasse para longe, tentei suco verde, meditação, tentei inclusive escrever sobre o tema - com esse mesmo texto que agora reescrevo - e é claro que não fiquei satisfeita. Por onde eu fosse deixava molhado, esquecia, escorregava, molhava o jornal, o pão mofava, já tinha feito stories, xingado no twitter, mas nada...
A insatisfação começou a parecer uma doença mais forte e contagiante que a gripezinha… Sim, porque eu não comecei isso sozinha, estou certa que peguei em algum momento de descuido. Algum comentário machista, uma notícia sobre o maior desastre ambiental (e governamental) em décadas, um anúncio, outro anúncio, um meme sarcástico, um filme sobre o perigo das redes… não sei o que foi… mas algo me diz que em alguma das muitas horas em que andei distraída e cansada ela me pegou.
Sei que a insatisfação pode ser força motriz de muitas ações: tem quem a use para mover ‘textões’, atos, manifestos, discussões - que de fato transformam situações. E por isso às vezes chego mesmo a confundir e acho que sem ela seria incapaz de agir. Algo me fez acreditar que sem esse incômodo rondando meu estômago, me distanciarei da realidade e deixarei de me importar com as coisas do mundo. Há tantos momentos em que acredito nisso cegamente... a ponto de simplesmente viver com a nuvem pingando na cabeça, os maxilares cerrados, o peito quase sem ar, e tensão por todo o corpo - como se fosse normal. Apenas para confirmar a mim mesma (e supostamente ao mundo) de que me importo, e de que preciso dessa armadura para realizar mudanças no meu entorno.
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Por alguma sorte, temos momentos de lucidez que mostram outros pontos de vista possíveis… Então me lembro de que esse tipo de incômodo nos adoece muito mais do que nos mobiliza. Aliado à outra danada que é a sensação de impotência, minam qualquer possibilidade de chegar a soluções criativas para os velhos problemas.
Sabe quando chega uma notícia de embrulhar o estômago? Daquelas coisas que estão mais para um raio que cai em cima da gente e nos parte em várias? Eletrizados, vibra em nosso corpo: “O mundo é um horror”; “O mundo é uma bosta” “Só existe violência”; “Estamos muito longe de alcançar qualquer mudança”; “As pessoas são más”; “Tudo está perdido... até quando, Brasil?”; “Até quando humanidade?”; E por aí vai a lista quase infinita de sensações destrutivas.
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Por observação arrisco dizer que a maior parte de nós apenas se afunda na lama do incômodo. Não é de se estranhar que ao tentar escapar usemos todas as forças para apenas continuar de pé. Depois de todo esse ciclo exaustivo de chuva, raios, lama e marasmo, o mais comum é continuarmos sem ação alguma, ainda mais frustrados e pessimistas.
Agora, para chacoalhar um pouco nosso corpo com água fria, massagear o rosto, o pescoço e permitir que as tensões se desfaçam um pouco, proponho um exercício de imaginação.
Imagine só, se em vez de tudo isso que acabei de narrar nós pudéssemos viver esse processo diferente... Se em vez de sermos contaminados pelo medo, pelo ódio e pela impotência ao nos depararmos com os problemas, a gente primeiro respirasse fundo. Mas respirasse mesmo - além do clichê ou da metáfora - até encontrar a raiz da dor que aquilo nos causa. Então respirando uma vez e outra mais, além da ansiedade, amansando os nervos e humores... se aquilo fosse aliviando até se tornar um fato. Um problema com nome, tamanho, cheiro, que aparecesse à nossa vista tão nítido quanto possível. Olhamos para a dor e para insatisfação sem negá-las.
E imagine só se pudéssemos refletir: Eu causei esse problema? Será que de alguma forma eu contribuo para que ele se repita? A gente vai respirando, dançando, tropeçando... Vai do jeito que dá, o mais importante é observar a nuvem chegando e lembrar imediatamente: Eu sou um ser humano, portanto, incapaz de resolver todo o problema de uma só vez e sozinha. O que posso fazer efetivamente, criativamente para colaborar numa possível solução? O que pode ser feito agora?
De repente, eu vejo que tem muitas coisas que posso fazer e que parecem mais simples do que antes. Posso secar o chão por onde choveu, posso andar com os pés mais atentos e aterrados, posso cobrir o pão para que ele não molhe e até chamar alguém para pensar junto comigo. Depois, antes mesmo que a ansiedade da decisão me alcance, posso respirar fundo, fundo mesmo e perguntar: “De todas essas ações, qual delas me cabe melhor agora? Qual eu faço bem e com prazer? O que já faço com simplicidade?” E, finalmente, ouvir as respostas e agir.
Ufa, pareceu um longo percurso por aqui… Me custou mais de uma semana escrevendo e ‘desescrevendo’, refletindo sobre como driblar esses sentimentos de impotência e insatisfação. Talvez porque seja mesmo trabalhoso romper esse ciclo quando estamos imersas nele, ainda mais se pensamos estruturalmente em nossa sociedade. Mas no fundo escrevo para acreditar que pode mesmo ser mais simples. Para acreditar que podemos agir, agir mesmo que seja no pequeno, agir com prazer, não só por obrigação. Agir através daquilo que já fazemos facilmente. Gosto muito de um ditado que diz: Antes tarde, que mais tarde! Quem sabe nessa dança a gente até chegue cedo uma vez ou outra e acabe fazendo muito mais do que nos achávamos capazes.
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Como qualquer um, também me perco em meio à lama que a Samarco despejou em nós, em meio às escolhas questionáveis dos Governos, e tudo que despedaça a capacidade de nos vermos enquanto coletivo. Mas escrevo por insistência em resistir sorrindo. Porque ouvi dizer que tanto o medo quanto o amor são afetos que podem ser cultivados. Escrevo porque ouvi dizer que existem políticas do medo e políticas do amor e é nessa última que quero estar.
Sempre que consigo, experimento usufruir do amor: que me permite ser mais simples; mais generosa com as limitações; me permite imaginar e até crer em tudo isso. Por mais ridículo que possam achar.




