A fervura política em Mato Grosso atingiu o ponto de racha definitivo dentro do União Brasil. Em uma dura entrevista concedida ao programa Jornal da Cultura, da rádio Cultura FM (90.7), o deputado estadual Júlio Campos (União Brasil) subiu o tom contra o governador Mauro Mendes, acusando-o de praticar "cartorialismo" e de tentar isolar as lideranças históricas do partido no estado. O estopim da crise foi a nomeação da comissão provisória da nova federação "União Progressista" — que une o União Brasil e o Progressistas (PP) —, costurada pelas direções nacionais sem a participação do grupo liderado por Júlio e seu irmão, o senador Jayme Campos
O decano da política mato-grossense, cuja família atua no cenário partidário desde 1966, não escondeu a surpresa e a contrariedade com a composição anunciada pelo presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, e pelo senador Ciro Nogueira, presidente do PP. Segundo Júlio Campos, a indicação de uma comissão provisória sem representantes de seu grupo político foi uma quebra de acordos prévios e uma tentativa deliberada de asfixiar a pré-candidatura de Jayme Campos ao governo do estado em 2026.
O "erro grave" e a tese do cartorialismo
Durante a entrevista conduzida pelos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, Júlio Campos classificou a entrada de Mauro Mendes no antigo Democratas (DEM) — partido que se fundiu ao PSL para criar o União Brasil — como um "erro grave" consentido pelas lideranças tradicionais da legenda. Na visão do deputado, o governador utiliza a estrutura partidária de forma meramente instrumental, sem compromisso ideológico ou orgânico.
"O governador Mauro Mendes trata o partido como um cartório, uma ferramenta administrativa para seus projetos pessoais de poder. Ele não tem identidade com as bases que construíram essa legenda desde a época do PFL e do DEM", disparou o parlamentar.
Júlio Campos acusou Mendes de articular um projeto de poder de longo prazo, desenhado para manter seu grupo político no comando do Palácio Paiaguás por até duas décadas, barrando a renovação e o espaço de aliados históricos. O deputado criticou a obsessão do governador em controlar a presidência do diretório estadual e em impor o nome do vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) como o candidato natural da base governista em 2026, ignorando a força eleitoral do União Brasil, que detém a maior bancada de prefeitos e deputados no estado.
A estratégia da convenção contra a federação provisória
Apesar do revés na composição da comissão provisória da federação "União Progressista", o grupo dos irmãos Campos já desenha uma contraofensiva jurídica e política para garantir a candidatura de Jayme Campos ao governo estadual. Júlio explicou que, pelas regras eleitorais vigentes, a comissão provisória da federação tem o papel de homologar as decisões, mas a escolha dos candidatos ainda passa obrigatoriamente pelas convenções partidárias de cada sigla.
A estratégia consiste em mobilizar a base de delegados do União Brasil em Mato Grosso para aprovar o nome de Jayme Campos na convenção estadual. Segundo os cálculos apresentados pelo deputado, o grupo dissidente conta com ampla maioria no diretório estadual.
"Nós temos entre 33 e 35 votos garantidos dentro do diretório do União Brasil, contra cerca de 20 votos alinhados ao governador Mauro Mendes. Se formos para o voto na convenção, o nome de Jayme Campos será o escolhido pelo partido", assegurou Júlio Campos.
O parlamentar argumentou que a direção nacional da federação não poderá ignorar a decisão soberana de uma convenção estadual que apresente um candidato viável e competitivo, sob o risco de provocar uma debandada em massa de prefeitos, vereadores e deputados que dão sustentação ao partido no interior de Mato Grosso.
Crise institucional e denúncias em Várzea Grande
A entrevista também avançou sobre a crise política que assola Várzea Grande, segundo maior colégio eleitoral do estado e reduto histórico da família Campos. Júlio Campos comentou o grave desentendimento entre a prefeita Flávia Morelin e o presidente da Câmara Municipal, vereador Vanderlei, que envolve a divulgação de áudios com denúncias de suposta compra de apoio político no parlamento municipal.
O deputado estadual defendeu que o governador Otaviano Pivetta adote uma postura de mediador no conflito para evitar a paralisia administrativa da cidade, mas ressaltou que as denúncias de corrupção e uso indevido de recursos públicos precisam ser rigorosamente apuradas pelas instâncias competentes.
Para o parlamentar, a instabilidade no município vizinho à capital reflete o tensionamento generalizado das forças políticas no estado, que tendem a se acirrar à medida que o calendário eleitoral de 2026 se aproxima.
O futuro da federação e o cenário de racha
A criação da federação "União Progressista" com o PP, longe de pacificar a base, tornou-se o novo campo de batalha. A ausência de diálogo e a imposição de nomes pela cúpula nacional abriram feridas difíceis de cicatrizar em um partido que, embora gigante em números, demonstra extrema fragilidade em sua coesão interna.




