O último sábado (20) entrou para a história de Mato Grosso como o dia em que os trilhos da Ferrovia Estadual Senador Vicente Emílio Vuolo chegaram a Dom Aquino, a 170 quilômetros de Cuiabá. A inauguração do terminal ferroviário — o segundo do traçado, depois de Rondonópolis — representa a materialização de um projeto que atravessou cinco décadas de luta, ridicularização e persistência. Mas já acendeu um novo debate: quando os trilhos chegarão a Cuiabá? As informações são da entrevista concedida pelo presidente do Fórum Pró-Ferrovia, Francesco Vuolo, aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7).
O contrato firmado entre o Governo de Mato Grosso e a Rumo Logística, concessionária da ferrovia, estabelece que a prioridade é o ramal para Cuiabá. Mas, nos bastidores, cresce o temor de que o avanço dos trilhos para o norte — em direção a Lucas do Rio Verde, cidade natal do governador — possa desviar o foco do compromisso com a capital.
O terminal que desafoga Rondonópolis
O terminal de Dom Aquino não é apenas mais uma estação de embarque. Com capacidade para incrementar entre cinco e oito milhões de toneladas de carga ao sistema ferroviário, ele desafoga o terminal de Rondonópolis, que hoje movimenta cerca de 25 milhões de toneladas por ano para o Porto de Santos. A região beneficiada inclui Primavera do Leste, Campo Verde, Juscimeira, Jaciara e outras cidades do polo produtor de grãos do Sudeste mato-grossense.
"Toda essa região recebe o modal ferroviário, que vai incrementar a movimentação de carga e desafogar Rondonópolis. É um sonho, uma realização muito importante para o estado", afirmou Francesco Vuolo.
A ferrovia hoje já movimenta, a partir de Rondonópolis, cerca de 25 milhões de toneladas de carga. Com a extensão dos trilhos, a projeção é de que Rondonópolis se consolide como o segundo município economicamente mais relevante de Mato Grosso — e que outras regiões sigam o mesmo caminho de desenvolvimento.
O nó do ramal para Cuiabá
O traçado original da Ferrovia Vicente Vuolo prevê quatro terminais: Dom Aquino (já inaugurado), Cuiabá, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde. O contrato com a Rumo estabelece que a prioridade é a capital. Mas o presidente do Fórum Pró-Ferrovia reconhece que será preciso vigilância constante.
"Existe um contrato assinado cuja prioridade é Cuiabá. O próximo terminal precisa ser o de Cuiabá. O dinheiro que entrar e que viabilizar a retomada das obras precisa ser aplicado primeiro na capital. Isso está contido no contrato", afirmou Vuolo.
Vuolo reforçou que a ferrovia é viável economicamente em todos os seus trechos. Ao contrário do que muitos pensam, Cuiabá não é apenas um ponto de chegada de grãos — é um enorme mercado consumidor que dará retorno ao investimento da concessionária.
"A ferrovia não leva só, ela traz. O que é o maior mercado consumidor? Cuiabá. Onde chega a carga de retorno? Cuiabá. 80% daquilo que chega a Rondonópolis por containers desce para Cuiabá. A bebida que você toma, material de construção, produtos de consumo — tudo vem em grande parte por ferrovia até Rondonópolis, e de lá de caminhão até a capital", explicou.
Ele também listou as cargas que podem ser movimentadas a partir de Cuiabá: algodão do oeste do estado (Tangará da Serra), madeira, fertilizantes e produtos industrializados. "Praticamente 80% da carga que vem do oeste passa por Cuiabá. Aqui vai poder ser potencializada para parar e movimentar."
Vuolo acrescentou um argumento estratégico: Cuiabá já dispõe de gasoduto, porto seco, estação aduaneira para importação e exportação, termelétrica e abundância de energia — além de universidades que formam mão de obra para o setor. "A ferrovia vai atrair indústrias, empresas, e promover o desenvolvimento que nós queremos para a cidade."
A fiscalização do contrato: quem cobra?
FrancIsco Vuolo foi categórico ao responder quem deve fiscalizar o cumprimento do contrato. O primeiro agente é o Governo do Estado, independentemente de quem seja o governador. Em seguida, a Assembleia Legislativa — que, segundo ele, tem papel central, pois foi a Casa que apresentou a proposta de lei estadual de concessão ferroviária em 2021, a primeira do Brasil.
"Os primeiros agentes que vão trabalhar para garantir que a ferrovia cumpra o contrato são os deputados estaduais. Esse é o primeiro elemento que tem que ser analisado. O segundo é o Tribunal de Contas, a AGER, as agências de controle, que vão exigir técnica e politicamente que a Rumo avance primeiro para Cuiabá e depois para os outros pontos."
Vuolo disse ter ficado satisfeito com a posição pública do governador, que em entrevista afirmou que o contrato prevê primeiro Cuiabá, depois Lucas do Rio Verde. "Mas a voz dele não pode ser a única. Tem que ser uma pauta necessária durante o processo eleitoral, junto com os deputados estaduais, para garantir que a Rumo não faça aquilo que seja exclusivamente vontade dela."
Ele lembrou que a concessão é pública: "Em que pese ser a iniciativa privada a executar, é alicerçada por contratos e obrigações que as empresas deverão cumprir."
50 anos de uma luta que virou piada — e virou realidade
A entrevista reservou um momento de emoção quando Vuolo relembrou a trajetória do pai, o senador Vicente Vuolo, que dedicou a vida à causa ferroviária e foi durante décadas ridicularizado.
"Meu pai foi chacotado. Eu, quando namorava minha esposa, tinha um amigo que falava para o meu sogro: 'O Vuolo vai casar com a Cassira quando a ferrovia do Vuolo chegar'. Tudo que era impossível de acontecer era remetido à ferrovia do Vuolo. E hoje, ela é uma realidade. Todos — os que chacotaram e os que acreditaram — vão lá e falam: 'A ferrovia tem o nome dele, a ferrovia é uma realidade e eu quero ter um pedacinho disso no meu currículo'."
O presidente do Fórum Pró-Ferrovia afirmou que vê com naturalidade a disputa política em torno da obra, especialmente em ano eleitoral. "É natural que cada um queira tirar uma lasquinha. O que eu vejo de forma negativa é que essas manifestações se tornem elementos eleitoreiros. Isso não é a política com P maiúsculo."
Ele destacou o papel de cada ator: o governo federal, ao sensibilizar o BNDES para o financiamento e autorizar a ferrovia estadual — o que não aconteceu na gestão anterior; os senadores Jayme Campos, Wellington Fagundes e Carlos Fávaro, que atuaram para permitir a lei estadual; a Assembleia Legislativa, que montou o arcabouço jurídico; o Governo do Estado, que acolheu e executou a concessão; a sociedade organizada e o setor produtivo, que deram sustentação política.
"A Rumo é uma empresa consolidada, que opera muito melhor do que as concessionárias anteriores. Essa união entre classe política, sociedade, setor produtivo e iniciativa privada permitiu que a obra se tornasse realidade com segurança jurídica. Agora, o próximo passo é Cuiabá. É isso que vamos trabalhar."






