Passa batom! Vários vídeos repetiram essa frase como uma espécie de solução para os problemas enfrentados pelas mulheres todos os dias. Vejo como uma versão bem-humorada de tradições ancestrais em que os guerreiros pintavam o rosto e se ornamentavam para as batalhas, uma crença de que aquelas cores e formas marcadas na face e no corpo trazem força, poder e resistência para enfrentar o que quer que fosse. Na verdade, percebo essa prática como um ritual que marca a entrada em um estado específico, necessário a qualquer situação da vida. Ritualizar a vida, nesse sentido, é bem importante inclusive e passar batom pode mesmo ser um momento de se preparar para o que há de vir. Claro que passar o batom não necessariamente vá resolver os problemas ou fazer vencer o inimigo, mas pode simbolizar um preparo para o enfrentamento de situações desafiadoras, mascaramento de dores, expressão de autocuidado e mais uma série de outros aspectos simbólicos que pode envolver essa ação. Entenda, não é o batom, aliás muitas mulheres não usam e nem gostam de maquiagem. Esse ritual pode se realizar de muitas formas diferentes, uma para cada mulher.
Estou trazendo aqui uma reflexão um pouco mais profunda acerca de dilemas e enfrentamentos vivenciados pela mulher contemporânea. Não é nenhuma novidade que a mulheres lidam diariamente com questões tensas e intensas relacionadas ao próprio ser mulher nessa vida, desde sair de casa, aquela casa que só funciona com um milhão e meio de pensamentos e ações femininas como: as janelas estão fechadas? Será que recolhi a roupa? A janta das crianças está pronta? Tem uniforme limpo? Esqueci de colocar água nas plantas... até o sair na rua e se deparar com a insegurança de ser seguida, o ônibus lotado que favorece o assédio ou ter a validade de seu trabalho questionada simplesmente por ser mulher, como aconteceu com a árbitra que apitou o jogo de futebol e levou a culpa pelo time que perdeu. É uma sobrecarga que cerca a mulher por todos os lados e ela se sente na obrigação de dar conta.
Ser mulher às vezes (muitas) é osso mesmo! Não porque é da natureza feminina, mas porque vivemos em uma sociedade em que a nossa natureza é subestimada e distorcida. A mulher que expressa a sensibilidade ou exige respeito em situações de opressão é chamada de louca. A que vive suas experiências femininas a partir dos cuidados da família por escolha é tida como submissa, a outra que se dedica ao trabalho é chamada de negligente com os filhos, ou masculina por se impor. O dilema está aí, sem papéis claros, sem reconhecimento das potencialidades a vida vira um mar de instabilidade. Evidente que todos esses aspectos são recorrentes e estão na mídia e nas estatísticas.
Mas queria abrir espaço aqui para uma outra reflexão: será que as mulheres se sentem à vontade para viver as experiências femininas a partir das próprias concepções? Será que elas se dão ao direito de buscar em si mesmas o que é ser mulher e experimentar isso? Todos os dias convivo com mulheres que me impressionam. Não só pela força com a qual enfrentam seus problemas, mas com a leveza e com a verdade com que se encaram. É como se elas tivessem, eu acredito que de fato têm, a própria fonte da vida dentro de si. Ouço, no consultório e na vida fora dele, experiências de autoconhecimento, de coragem para seguir os percursos únicos que cada uma tem de passar. Testemunho histórias de superação que revelam um verdadeiro poder de criar, de acolher e de amar.
Fico impressionada como cada mulher, a partir de uma queda, ou de uma ficha que cai, se mostra capaz de se recompor e de se expressar em plenitude. É como se nitidamente tivessem coragem de segurar o leme de seus próprios barcos, limpar a poeira do rosto, secar as lágrimas dos olhos, passar um batom e dar o próximo passo. Existe o sofrimento sim, a angústia, a vulnerabilidade, a sobrecarga, mas há também um poder quase sobrenatural de superação, reconstrução, porque existe também uma disposição de ver o que vem depois da tempestade. Elas parecem não ter medo de adentrar as entranhas de suas dores, vasculhar os recônditos de suas almas para encontrar a si mesmas.
Como aquela expressão que ecoa do poema de Adélia Prado, “...aceito os subterfúgios que me cabem sem precisar mentir. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos -- dor não é amargura. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável.”



