BLOG DO MAURO Quinta-feira, 09 de Abril de 2026, 09:11 - A | A

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ALTERAÇÃO DE RISCO

Quando a máquina cala a urgência

Mauro Camargo

O Samu sob emergência: quem poderá salvá-lo?

A decisão do governo de Mato Grosso de demitir 56 servidores do SAMU em Cuiabá e Várzea Grande, ao mesmo tempo em que transfere parte da estrutura do atendimento de urgência para o Corpo de Bombeiros, impõe ao debate público uma questão que vai muito além de uma simples mudança administrativa. Trata-se de uma escolha que toca o coração do sistema de saúde e expõe os riscos de se tratar políticas de emergência médica como peças intercambiáveis de uma engrenagem burocrática.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência não é apenas uma frota de ambulâncias. O SAMU é um modelo assistencial estruturado sobre protocolos médicos específicos, regulação técnica especializada e equipes treinadas para atuar em ocorrências clínicas, traumáticas, psiquiátricas e obstétricas sob coordenação médica permanente. Seu papel é garantir resposta rápida e qualificada, integrando o atendimento pré-hospitalar à rede pública de saúde. Reduzir sua estrutura ou fragmentar sua operação significa mexer em uma engrenagem delicada, cuja eficiência depende precisamente da integração entre profissionais, centrais reguladoras e equipes móveis.

A justificativa oficial de que o Corpo de Bombeiros poderá absorver parte dessa função exige cautela. Bombeiros exercem papel essencial e insubstituível em salvamentos, resgates e emergências diversas. Mas sua missão institucional não é idêntica à do SAMU. São naturezas operacionais complementares, não equivalentes. A substituição parcial de uma estrutura pela outra, sem ampla transparência sobre protocolos, capacitação, financiamento e integração com a regulação médica, levanta dúvidas legítimas sobre a qualidade e a continuidade do atendimento à população.

A demissão de 56 servidores agrava ainda mais esse cenário. Não se trata apenas de números. Cada profissional desligado representa experiência acumulada, conhecimento prático e capacidade operacional perdida. Em serviços de urgência, onde minutos definem desfechos entre vida e morte, a descontinuidade de equipes pode gerar impacto imediato no tempo-resposta, na cobertura territorial e na segurança assistencial. O problema não é apenas trabalhista — é sanitário.

Também preocupa a ausência de debate público mais amplo sobre uma medida de tamanho alcance. Mudanças estruturais em políticas de urgência e emergência deveriam ser precedidas por estudos técnicos acessíveis à sociedade, audiências públicas, diálogo com conselhos de saúde, sindicatos, profissionais da área e gestores municipais. Quando decisões dessa magnitude são tomadas de forma vertical, sem transparência suficiente, instala-se a percepção de improviso — e improviso, em saúde pública, costuma cobrar preço alto.

Há ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. Cuiabá e Várzea Grande concentram a maior demanda populacional e hospitalar do estado. Qualquer enfraquecimento do SAMU nessas duas cidades repercute em toda a rede metropolitana, pressionando UPAs, hospitais regionais e prontos-socorros. Em vez de fortalecer a capacidade de resposta diante do crescimento urbano e da sobrecarga do sistema, o governo sinaliza uma reconfiguração que pode significar, na prática, redução de especialização.

Se há problemas de gestão, custos ou eficiência no modelo atual, a solução esperada seria reformar, qualificar, corrigir distorções e ampliar investimentos — não desmontar parcialmente uma estrutura consolidada sem garantias públicas claras de que o serviço substituto entregará padrão igual ou superior. O cidadão que liga para o 192 não quer saber qual órgão atende: quer rapidez, competência e segurança. E isso depende menos de discursos administrativos e mais de planejamento técnico responsável.

A saúde pública exige decisões ancoradas em evidências, não em atalhos gerenciais. O governo de Mato Grosso tem o dever de explicar, com clareza e dados, como pretende assegurar que essa mudança não comprometerá vidas. Em matéria de urgência médica, o teste final não está nos decretos nem nas planilhas: está na ambulância que chega a tempo — e na vida que ela consegue salvar.



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