Durante décadas, conquistar um emprego com carteira assinada foi considerado um dos principais objetivos de quem ingressava no mercado de trabalho. O vínculo formal representava estabilidade, perspectiva de crescimento e acesso a direitos trabalhistas. Para uma parcela crescente da Geração Z, entretanto, essa lógica vem mudando.
Cada vez mais jovens preferem empreender, atuar de forma autônoma ou transformar habilidades pessoais em fonte de renda. Ao mesmo tempo, empresas relatam dificuldades para preencher vagas e manter profissionais, mesmo diante de um mercado aquecido.
A mudança não ocorre apenas por uma escolha individual. Ela reflete transformações econômicas, tecnológicas e culturais que vêm alterando a forma como o trabalho é percebido pelas novas gerações.
Levantamento do Sebrae, baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua/IBGE), mostra que o Brasil reúne aproximadamente 4,9 milhões de empreendedores com até 29 anos, evidenciando que abrir o próprio negócio deixou de ser apenas uma alternativa ao desemprego e passou a integrar os projetos de carreira de muitos jovens.
Para o economista Jonil Vital de Souza, entrevistado no programa Papo com Ela, essa transformação não significa necessariamente um abandono da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas revela que o modelo tradicional já não atende plenamente às expectativas das novas gerações.
"O mundo mudou bastante, mas as relações trabalhistas evoluíram muito pouco. A CLT foi criada em 1943. A tecnologia mudou, a forma de produzir mudou e a maneira como as pessoas enxergam o trabalho também mudou", afirma.
Segundo ele, o avanço das plataformas digitais, do trabalho remoto e da economia baseada em serviços ampliou as possibilidades de geração de renda e reduziu a dependência do emprego tradicional.
A busca por autonomia substitui a ideia de estabilidade
Se para gerações anteriores estabilidade financeira significava permanecer muitos anos na mesma empresa, hoje boa parte dos jovens valoriza outros aspectos antes de escolher onde trabalhar.
Flexibilidade de horários, autonomia, possibilidade de crescimento, identificação com os valores da empresa e qualidade de vida passaram a pesar tanto quanto, ou até mais, que o salário.
Para Jonil, esse comportamento ganhou força principalmente após a pandemia de Covid-19. "Hoje o trabalho deixou de ser o centro da vida. As pessoas querem trabalhar, mas também querem ter tempo para lazer, para a família e para cuidar da própria saúde."
A percepção encontra respaldo em estudos sobre comportamento profissional. Pesquisas do Sebrae mostram que autonomia, independência financeira e realização pessoal aparecem entre as principais motivações dos jovens que decidem empreender.
Embora muitos iniciem um negócio por necessidade, cresce o número daqueles que enxergam no empreendedorismo uma escolha de carreira e não apenas uma alternativa diante do desemprego.
Empresas também precisam mudar
Ao analisar esse cenário, Jonil chama atenção para um aspecto que costuma ficar em segundo plano no debate: a responsabilidade das empresas.
De acordo com ele, parte das organizações ainda oferece estruturas rígidas, pouca perspectiva de crescimento e modelos de gestão que não dialogam com as expectativas dos novos profissionais. "Não é apenas o jovem que mudou. As empresas também precisam entender que oferecer apenas um salário já não é suficiente para atrair talentos."
O economista observa que muitos trabalhadores desejam visualizar um projeto de carreira dentro da organização. "Em diversas pesquisas, o salário continua sendo importante, mas aparece atrás da perspectiva de desenvolvimento profissional. O jovem quer sentir que está construindo alguma coisa."
Nesse contexto, modalidades como home office, jornadas híbridas, programas de capacitação e maior autonomia vêm se consolidando como diferenciais competitivos para retenção de profissionais.
Mato Grosso acompanha tendência nacional
O movimento também é observado em Mato Grosso. Levantamento do Sebrae/MT aponta que aproximadamente 32% dos empresários mato-grossenses têm entre 18 e 34 anos, o equivalente a mais de 160 mil jovens empreendedores.
O dado demonstra que o empreendedorismo ganhou espaço entre a juventude do estado, impulsionado tanto pelas oportunidades criadas pela economia digital quanto pela busca por maior independência profissional.
Esse crescimento ocorre paralelamente às dificuldades enfrentadas por diversos setores para contratar trabalhadores, especialmente em atividades que exigem presença física e jornadas tradicionais.
Na avaliação do economista, trata-se de uma mudança estrutural. "As empresas precisam criar atrativos. Quando isso não acontece, o jovem compara as possibilidades que o mercado oferece e muitas vezes prefere construir o próprio caminho."
Confira a entrevista na íntegra:







