Mato Grosso encerra neste domingo, 6 de setembro, o vazio sanitário da soja. Mas, ao contrário do que pode sugerir o calendário, a nova safra não começa automaticamente quando termina a proibição fitossanitária.
A semeadura estará legalmente autorizada a partir desta segunda-feira, 7 de setembro, e seguirá permitida até 7 de janeiro de 2027. A Portaria 1.579/2026 do Ministério da Agricultura estabelece para Mato Grosso vazio sanitário entre 8 de junho e 6 de setembro e calendário de semeadura de 7 de setembro a 7 de janeiro. A regulamentação estadual repete exatamente essas datas.
A autorização, entretanto, é apenas a primeira condição.
A segunda vem do céu.
Para colocar as plantadeiras no campo com segurança, os produtores precisam de umidade adequada no solo e de alguma confiança de que as primeiras chuvas terão continuidade. Sem isso, antecipar o plantio pode significar germinação irregular, perda de sementes e necessidade de replantio.
É justamente neste ponto que a safra 2026/27 começa diferente.
O Instituto Nacional de Meteorologia, em boletim divulgado na última terça-feira, informa que há mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Mato Grosso aparece entre as áreas do Brasil Central com maior probabilidade de receber chuva abaixo da média, enquanto as temperaturas devem permanecer acima do normal. (Inmet)
A incerteza não diz respeito apenas à soja.
Em Mato Grosso, o calendário da oleaginosa organiza uma cadeia muito maior. O momento em que a soja entra no solo ajuda a determinar quando será colhida; a colheita define quando o milho de segunda safra poderá ser plantado; e o milho alimenta hoje usinas de etanol, confinamentos, granjas de aves e suínos, pecuária leiteira e diferentes segmentos da indústria.
Um atraso de chuva em setembro pode, portanto, começar na lavoura de soja e terminar meses depois no custo e na oferta de etanol, ração e proteína animal.
A safra começa com uma projeção menor
O Imea mantém para Mato Grosso uma estimativa de 13,05 milhões de hectares de soja na temporada 2026/27, crescimento de apenas 0,25% sobre o ciclo anterior. A produtividade esperada é de 62,44 sacas por hectare e a produção, de 48,88 milhões de toneladas.
O número é expressivo, mas representa queda de aproximadamente 5,2% sobre a safra 2025/26, estimada em 51,56 milhões de toneladas. A redução decorre principalmente de uma expectativa mais conservadora para a produtividade, diante dos riscos climáticos, dos custos elevados e da restrição de crédito.
O assessor técnico de agricultura do núcleo técnico da Famato, Alex Rosa, explicou que o produtor chega ao início do plantio justamente diante da dúvida sobre a regularidade das primeiras chuvas.
Segundo ele, antes de semear é necessário observar a umidade do solo e a formação efetiva do período chuvoso. A preocupação cresce porque um eventual atraso agora reduz posteriormente o espaço disponível para a segunda safra.
Esse encadeamento é central para compreender a economia agrícola de Mato Grosso.
A soja determina o relógio do milho
O milho de segunda safra não tem um calendário independente da soja.
Ele normalmente é plantado logo após a colheita da oleaginosa. Quanto mais cedo a soja entra no solo, maior a possibilidade de que seja retirada em dezembro, janeiro ou início de fevereiro e dê lugar ao milho dentro de uma janela climática mais segura.
Alex Rosa considera fevereiro até a primeira semana de março a janela mais favorável para o plantio do milho. Depois disso, o risco aumenta porque fases importantes da cultura podem coincidir com a redução das chuvas, especialmente na floração e no enchimento dos grãos.
É uma espécie de efeito dominó agrícola.
Se a chuva demora em setembro, o produtor posterga a soja.
Se posterga a soja, adia a colheita.
Se adia a colheita, o milho entra mais tarde.
E cada semana adicional pode aumentar o risco de o cereal atravessar fases decisivas já no final da estação chuvosa.
Não significa que todo atraso resultará em quebra de safra. Tampouco significa que um El Niño forte produzirá necessariamente perdas proporcionais à sua intensidade. O próprio Inmet ressalta que eventos mais intensos não geram automaticamente impactos mais severos e que a distribuição regional das chuvas precisa ser acompanhada continuamente.
Mas o risco é suficientemente relevante para já estar incorporado às projeções do setor.
O milho nunca valeu tanto para Mato Grosso
A preocupação ocorre justamente depois da maior safra de milho já registrada no Estado.
Mato Grosso encerrou o ciclo 2025/26 com 58,04 milhões de toneladas, alta de 4,69% sobre os 55,43 milhões da temporada anterior. A área chegou a 7,43 milhões de hectares e a produtividade média alcançou 130,11 sacas por hectare.
Para a próxima temporada, o Imea já projeta aproximadamente 7,48 milhões de hectares, novo recorde de área, com crescimento inicial de 0,59%.
O milho, entretanto, mudou de papel na economia mato-grossense.
Durante décadas, boa parte da discussão se concentrou no tamanho da safra e na capacidade de exportar o excedente.
Hoje existe uma demanda interna industrial cada vez maior.
As usinas de etanol transformaram milho em combustível, DDG, óleo e outros subprodutos. A pecuária utiliza milho, farelo de soja, DDG e caroço de algodão nas formulações de ração. Avicultura, suinocultura, confinamento bovino e produção leiteira também dependem diretamente dessa oferta.
Alex Rosa resume essa integração dizendo que uma quebra do milho não termina na fazenda. Menor produção alcança a indústria de etanol, óleo de milho e, em seguida, outros setores da economia estadual.
Na proteína animal, o encadeamento é igualmente direto. O farelo de soja e o DDG resultante da industrialização do milho entram na alimentação animal; o próprio milho é utilizado nas rações para aves, suínos, bovinos e leite.
A transformação industrial do milho ganhou outra escala.
A Conab estima que o Brasil produzirá 11,91 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2026/27, aumento de 17% sobre a temporada anterior. A companhia projeta produção total de 41,88 bilhões de litros de etanol, somando milho e cana.
A demanda ganha impulso adicional com a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de E30 para E32, vigente desde o fim de julho. A própria Conab considera que a nova composição tende a aumentar a procura pelo biocombustível.
Em Mato Grosso, essa mudança altera a natureza do risco agrícola.
Uma quebra ou redução significativa da oferta de milho já não significa apenas menos cereal disponível para exportação.
Pode significar matéria-prima mais disputada entre exportadores, usinas de etanol e cadeias de proteína animal.
Por isso o calendário de setembro passou a interessar também à indústria.
El Niño coloca Mato Grosso no mapa de maior risco
O boletim climático divulgado pelo Inmet, em conjunto com INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam, é particularmente relevante para o início da safra.
O documento aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro. Para Mato Grosso, a previsão sazonal indica maior probabilidade de chuvas abaixo da normalidade. O Censipam projeta condição especialmente seca no norte do Estado e possibilidade de atraso da transição entre estação seca e chuvosa.
Isso não significa que todo Mato Grosso terá o mesmo comportamento.
O Estado possui enorme extensão territorial e diferentes regimes de chuva.
Na entrevista à Cultura 90.7, Alex Rosa destacou essa heterogeneidade. Áreas como Nova Xavantina podem sofrer mais com estiagem, enquanto municípios mais ao norte, como Sinop, Lucas do Rio Verde, Novo Ubiratã, Cláudia e Colíder, podem enfrentar outra dificuldade: excesso de chuva justamente na fase de colheita.
O problema, portanto, não é somente quanto chove ao longo da safra.
É quando chove e onde chove.
Esse detalhe pode decidir produtividade.
A irrigação oferece uma alternativa para antecipar a implantação das lavouras onde houver disponibilidade de água e infraestrutura.
Alex Rosa estima que Mato Grosso tenha atualmente entre 400 mil e 500 mil hectares irrigados, ressalvando que se trata de número aproximado. Ele avalia que o investimento vem crescendo porque permite ao produtor maior previsibilidade no estabelecimento da lavoura e, consequentemente, melhor posicionamento da segunda safra.
O número representa, entretanto, apenas uma fração dos 13,05 milhões de hectares projetados para a soja.
A irrigação, portanto, pode ser uma ferramenta importante de gestão de risco, mas ainda não é capaz de neutralizar em escala estadual a dependência do regime natural de chuvas.
Segundo Rosa, há ainda estudos em andamento sobre disponibilidade hídrica nas diferentes bacias do Estado, enquanto produtores e sindicatos participam de comitês para acompanhar a discussão sobre uso da água.
Em algumas propriedades irrigadas, o aproveitamento intensivo permite inclusive uma terceira safra. A estimativa mencionada pelo técnico é de aproximadamente 100 mil hectares, embora ele ressalve que não há levantamento definitivo.
A preocupação com o El Niño não é abstrata.
Alex Rosa cita a safra 2023/24 como referência de um período em que irregularidades climáticas produziram perdas relevantes em diferentes regiões de Mato Grosso. Segundo ele, houve áreas com perdas estimadas entre 20% e 40%, variando conforme localização e intensidade do problema.
Esse dado deve ser lido como relato técnico da Famato sobre experiências regionais, e não como projeção da perda que ocorrerá em 2026/27.
A safra atual ainda nem começou efetivamente.
Não há base para afirmar que repetirá 2023/24.
O que existe é um fator climático semelhante suficientemente forte para justificar cautela.
Clima encontra um produtor mais pressionado
O risco desta temporada não é apenas meteorológico.
O Imea vem alertando para margens mais estreitas, insumos caros e crédito mais restrito. Esse ambiente reduz a capacidade de o produtor absorver perdas ou fazer novo investimento rapidamente caso precise replantar.
A Famato também relata preocupação com produtores que acumulam dificuldades financeiras de safras anteriores.
Rosa afirma que parte do setor busca renegociação de dívidas e alerta que uma nova quebra climática poderia aprofundar o endividamento. Segundo ele, embora existam medidas de prorrogação e renegociação, produtores ainda relatam dificuldade para operacionalizá-las junto às instituições financeiras.
Isso significa que o custo de errar o momento do plantio pode ser maior este ano.
Sem chuva consolidada, plantar cedo pode signific replantar.
Esperar demais, por outro lado, reduz a janela do milho.
É justamente entre esses dois riscos que produtores começam a fazer suas escolhas a partir desta segunda-feira.
Os 90 dias sem plantas vivas de soja não são uma pausa administrativa.
São uma medida sanitária destinada a quebrar o ciclo da ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. O Ministério da Agricultura utiliza o vazio e o calendário de semeadura como instrumentos para reduzir a presença do patógeno e também a pressão pelo uso repetido de fungicidas, fator relacionado ao desenvolvimento de resistência.
Rosa recorda que a ferrugem já provocou perdas severas em Mato Grosso e explica que o período sem soja reduz a quantidade de inóculo disponível para contaminar a próxima lavoura.
Portanto, o fim do vazio não significa o fim do risco sanitário.
A partir de agora, ele apenas muda de natureza: começa a fase de monitoramento da nova cultura.
O relógio começa nesta segunda
A safra 2026/27 começa com um paradoxo.
Mato Grosso nunca dispôs de uma cadeia tão integrada entre produção de grãos e indústria.
Mas essa integração também significa que os efeitos de uma eventual adversidade se espalham mais rapidamente.
A soja determina a entrada do milho.
O milho abastece etanol e alimentação animal.
A proteína animal depende de milho, farelo e coprodutos industriais.
As usinas ampliam a demanda doméstica.
E tudo começa com uma variável que a tecnologia ainda não controla em milhões de hectares: a chuva certa, no lugar certo e no momento certo.
Nesta segunda-feira, o plantio estará liberado.
A largada efetiva, entretanto, será dada pelo clima.
Nota de Transparência
Esta reportagem utiliza como fontes primárias a Portaria SDA/Mapa nº 1.579/2026, a regulamentação estadual do calendário fitossanitário e o boletim climático divulgado por Inmet e instituições federais. Foram utilizados ainda dados do Imea e da Conab e entrevista concedida por Alex Rosa, assessor técnico de agricultura da Famato, à jornalista Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura. Algumas estimativas apresentadas por Rosa, como área irrigada e perdas regionais em safras anteriores, foram mantidas como informações atribuídas ao entrevistado por não constituírem números oficiais consolidados. A reportagem corrige ainda uma imprecisão da entrevista: embora o vazio sanitário termine em 6 de setembro, a semeadura somente é autorizada a partir de 7 de setembro, conforme a norma federal e estadual.






