A secretária municipal de Saúde de Várzea Grande, Deisi Bocalon, confirmou em entrevista ao Jornal da Cultura, da Cultura FM 90.7, que assume a Secretaria de Saúde de Cuiabá no dia 1º de abril. Em conversa com os jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, ela afirmou que a decisão representa um desafio profissional e político, já que conhece a estrutura da capital desde 2009, quando passou a atuar no sistema público cuiabano. Deisi disse que encontra uma pasta com problemas orçamentários, déficit de pessoal e necessidade de reorganização da gestão, mas evitou fazer diagnóstico mais profundo antes do início formal da transição.
Deisi afirmou que a mudança ocorre, entre outros motivos, porque é servidora de Cuiabá e sua progressão funcional ficaria interrompida permanecendo cedida a outro município. Mas destacou que a principal razão é o tamanho do desafio de comandar a saúde da capital do Estado, onde já trabalhou em diferentes áreas da rede. Segundo ela, sua trajetória na atenção primária, secundária, nas UPAs, no SAE, na gestão hospitalar e na regulação lhe dá familiaridade com o sistema, o que a deixa mais à vontade para assumir a nova missão. A secretária disse que ainda não é possível fazer um raio-x definitivo da pasta, porque o período de transição começará apenas agora, mas admitiu que há déficit orçamentário e de pessoal a serem enfrentados.
Ao comentar o trabalho realizado em Várzea Grande, Deisi fez um balanço positivo do período em que esteve à frente da Saúde do município. Disse que organizou serviços, destravou obras e inaugurou ou reestruturou equipamentos importantes, como a maternidade, o CER provisório, o SAE com sala lilás para atendimento a vítimas de violência sexual e unidades básicas de saúde em reforma. Citou também investimentos no pronto-socorro, com a recuperação do telhado, dos banheiros e da sala vermelha, além da necessidade de uma nova unidade hospitalar maior para a cidade.
A secretária ressaltou que Várzea Grande atende não apenas sua população própria, mas toda a Baixada Cuiabana, a Rota Oeste e casos de trauma encaminhados pelo Samu. Na avaliação dela, 200 leitos já não são suficientes para a demanda atual, sobretudo porque o hospital acaba recebendo muitos pacientes clínicos que não conseguem alta por falta de estrutura adequada. Deisi disse que pretende deixar encaminhada a necessidade de um novo pronto-socorro e de mais leitos, especialmente para pacientes de trauma.
Questionada sobre os mutirões e o programa Fila Zero, Deisi explicou que a prefeitura de Várzea Grande passou a realizar procedimentos de média e alta complexidade que antes dependiam da regulação de Cuiabá ou do Estado. Ela citou serviços como bariátrica, vídeo de vesícula, CPRE, angioplastia e cateterismo, realizados por prestadores conveniados e pagos pelo Governo do Estado, sem investimento direto do município. Segundo a secretária, essa estratégia ajudou a aumentar o faturamento hospitalar e a projetar um novo teto financeiro para a cidade.Deisi destacou ainda que a gestão conseguiu aumentar em 77% o número de cirurgias no pronto-socorro, sobretudo com o contrato de ortopedia avaliado em R$ 14,7 milhões por ano. Segundo ela, a empresa contratada passou a ter prazo de até 72 horas para operar os pacientes, o que permitiu acelerar o fluxo cirúrgico, reduzir a permanência em corredores e ampliar a rotatividade dos leitos.
Um dos principais pontos da entrevista foi o impasse em torno de recursos de emendas parlamentares e superávit financeiro que, segundo a secretária, estão disponíveis em conta, mas não conseguem ser executados por entraves orçamentários. Deisi afirmou que há R$ 6,9 milhões dependentes de aprovação da Câmara e outros R$ 7 milhões de superávit do ano anterior, totalizando cerca de R$ 14 milhões travados por limitações de remanejamento. Ela disse que o problema não está no mérito dos recursos, mas na relação entre Executivo e Legislativo e na forma como os pedidos foram encaminhados.
Ao comentar as críticas feitas pelo presidente da Câmara de Várzea Grande, Wanderlei Cerqueira, Deisi explicou que a Secretaria de Saúde faz a solicitação, mas o processo segue por planejamento, Procuradoria e Governo, e que não tem como saber se o texto enviado à Câmara foi alterado. Ela insistiu que o impasse poderia ser resolvido com diálogo e afirmou que o problema é a dificuldade de tramitação, não a existência do recurso.
Outro tema que gerou desgaste foi a qualificação de uma organização social para eventual contratação futura. Deisi disse que não houve contratação de OS, mas apenas a qualificação de uma entidade, como determina a legislação federal e municipal. Explicou que a qualificação é um procedimento legal que precede qualquer chamamento público, e que o município não fez estudo técnico para contratar OS nem tinha interesse imediato nisso. Segundo a secretária, o decreto foi interpretado de forma equivocada, o que alimentou a ideia de uma contratação já em curso. Ela afirmou que, para deixar isso mais claro, o município editou um segundo decreto explicitando que eventual contratação dependeria de chamamento público.
Deisi também rebateu críticas sobre o volume de pagamentos indenizatórios na Saúde de Várzea Grande. Disse que encontrou 289 processos sem licitação e que o objetivo da gestão foi reduzir esse número, já em queda para 156. Ela explicou que indenizatório é exceção e só deve ser usado em casos pontuais, como uma emergência real, e não como prática corrente da administração. Segundo a secretária, o caminho correto é sempre licitar, e a meta da gestão foi justamente substituir despesas improvisadas por contratos regulares, especialmente em áreas como laboratório, imagem e insumos hospitalares.
Ao citar o contrato de ortopedia, a secretária reforçou que a decisão deu resultado prático: pacientes deixaram de ficar semanas aguardando cirurgia, houve maior giro de leitos e a fila interna do pronto-socorro foi reduzida. Deisi relatou casos de pacientes que passaram mais de 30 dias esperando por procedimentos simples e disse que o novo modelo passou a devolver dignidade ao atendimento.
No encerramento da entrevista, Deisi confirmou que assume Cuiabá em 1º de abril, mas disse que ainda não há definição sobre quem ficará em seu lugar em Várzea Grande. Ela contou que a prefeita Flávia Moretti gostaria de mantê-la, mas afirmou que já deu sua palavra ao prefeito Abílio Brunini e que precisa cumprir o compromisso assumido. Disse ainda que vê como fundamental preparar sucessores, para evitar descontinuidade na gestão, e afirmou que sua equipe está treinada para continuar o trabalho.
A secretária encerrou a entrevista dizendo que sempre trabalhou com transparência e respeito institucional, inclusive nas relações com a Câmara Municipal. Para ela, os atritos políticos não podem impedir o funcionamento da Saúde. Deisi reconheceu que a área é marcada por conflitos e pressões diárias, mas afirmou que seu foco sempre foi a eficiência, a legalidade e o atendimento ao paciente.




