NOTICIÁRIO Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026, 10:16 - A | A

Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026, 10h:16 - A | A

ELEIÇÕES 2026

Duas largadas, dois projetos de poder

Mauro Camargo

Ricardo Stuckert

Lula lança campanha de 2026

 

A campanha presidencial começou no domingo com Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro escolhendo mais do que dois lugares para realizar seus primeiros atos eleitorais. Escolheram territórios políticos.

Lula voltou a São Bernardo do Campo, ao estádio da Vila Euclides, onde sua liderança sindical começou a se transformar em trajetória política há quase cinco décadas. Flávio Bolsonaro ocupou Copacabana, no Rio de Janeiro, palco recorrente das grandes manifestações que consolidaram o bolsonarismo como movimento político de massas.

A geografia antecipou os discursos.

Lula começou a campanha procurando transformar sua história e os resultados de seu governo em argumentos para mais um mandato. Falou de mulheres, emprego, educação, indústria, soberania nacional e segurança pública. Flávio apresentou-se como candidato de enfrentamento ao crime, ao sistema político que critica e à esquerda, enquanto reivindicou explicitamente o legado do pai, Jair Bolsonaro.

Foram duas largadas construídas sobre memórias políticas diferentes — e dois projetos tentando convencer o eleitor de que representam o futuro.

A primeira pesquisa divulgada depois da abertura oficial da campanha mostra o tamanho do confronto. O levantamento BTG/Nexus desta segunda-feira (17) registra Lula com 41% das intenções de voto e Flávio com 36% no principal cenário estimulado de primeiro turno. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula aparece com 47% e Flávio com 44%, diferença dentro da margem de erro.

A eleição começa, portanto, competitiva.

Lula volta ao lugar onde tudo começou

A escolha de São Bernardo dificilmente poderia ser mais simbólica.

Foi na região industrial do ABC paulista e nas grandes greves metalúrgicas do final dos anos 1970 que Lula construiu a liderança que posteriormente ajudaria a criar o PT e o levaria à Presidência da República.

Ao retornar à Vila Euclides, o candidato procurou ligar aquele passado à eleição de 2026.

A mensagem contém uma dificuldade contemporânea. O Brasil industrial que produziu politicamente Lula mudou. A sindicalização perdeu espaço, o mercado de trabalho se fragmentou e milhões de brasileiros passaram a viver de atividades informais, pequenos negócios e plataformas digitais.

Lula, portanto, volta às próprias origens para tentar falar com um trabalhador diferente daquele que o projetou nacionalmente.

A campanha procura responder a essa transformação recuperando a agenda trabalhista, mas associando-a a novos temas: regulamentação do trabalho por aplicativos, proteção social, redução da jornada e geração de emprego.

O candidato também utilizou o lançamento para defender realizações dos governos petistas e estimular uma comparação entre sua administração e a de Jair Bolsonaro.

É uma estratégia compreensível para quem ocupa o Palácio do Planalto: transformar a eleição num julgamento comparativo de governos.

Mulheres ocupam centro da largada petista

Outro movimento foi particularmente visível.

As mulheres ganharam protagonismo no evento de Lula. A primeira-dama Janja participou ativamente do lançamento e a campanha procurou apresentar políticas destinadas ao eleitorado feminino, com atenção especial à violência contra a mulher e à igualdade.

Não se trata apenas de composição de palco.

As mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro e constituem um segmento estratégico numa eleição polarizada. A campanha petista identifica aí uma oportunidade de ampliar vantagem sobre o bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, Lula levou para o discurso um tema no qual a direita vem pressionando o governo: segurança pública.

Prometeu recriar um Ministério da Segurança Pública e defendeu maior participação federal no enfrentamento ao crime organizado.

É um movimento eleitoral importante.

Lula não pretende deixar segurança como território exclusivo de Flávio Bolsonaro.

Vittor Sales

Flávio lança campanha de 2026

 

Flávio escolhe território do pai

No Rio, a lógica foi outra.

Copacabana tornou-se nos últimos anos um dos principais palcos públicos do bolsonarismo. Foi ali que Jair Bolsonaro reuniu multidões, enfrentou adversários e mobilizou apoiadores.

Ao escolher o mesmo cenário, Flávio não tentou esconder sua origem política.

Fez dela um ativo.

O lançamento teve forte presença da identidade construída em torno de Jair Bolsonaro, com participação de Michelle Bolsonaro e referências ao ex-presidente. O slogan “O Brasil vai vencer” também recupera elementos da comunicação eleitoral utilizada pelo campo bolsonarista.

Há uma razão estratégica evidente.

Flávio começa a eleição dispondo de um patrimônio político que nenhum outro candidato de oposição possui: o sobrenome Bolsonaro.

Mas esse patrimônio contém também seu principal desafio.

Para chegar à Presidência, não basta herdar os eleitores do pai. Será necessário convencer parte do eleitorado de que existe uma candidatura Flávio Bolsonaro para além de Jair Bolsonaro.

Essa transição ainda está em construção.

Segurança como porta de entrada

Se Lula distribuiu sua mensagem por diferentes áreas, Flávio concentrou parte importante de sua largada em segurança pública.

Prometeu endurecimento no combate às organizações criminosas e anunciou que pretende classificar milícias como organizações terroristas.

A escolha não é casual.

Segurança é uma das áreas nas quais candidatos de direita tradicionalmente encontram terreno eleitoral favorável e representa uma oportunidade para Flávio estabelecer contraste com o governo federal.

O candidato também utilizou linguagem nacionalista, criticou a esquerda e procurou apresentar sua candidatura como reação a um sistema político e institucional que o bolsonarismo acusa de perseguir Jair Bolsonaro e seus aliados.

Surge aí uma diferença fundamental entre as duas campanhas.

Lula fala a partir do governo.

Flávio fala contra o sistema.

Um precisa convencer o eleitor de que o país deve continuar no caminho atual. O outro precisa convencê-lo de que esse caminho deve ser interrompido

A soberania aparece dos dois lados

Curiosamente, existe uma palavra compartilhada pelas duas campanhas: soberania.

O significado político atribuído a ela, porém, não é necessariamente o mesmo.

Lula relacionou soberania à defesa dos interesses brasileiros, à exploração de minerais estratégicos e à capacidade nacional de tomar decisões sem submissão externa.

Flávio também utiliza linguagem nacionalista, mas inserida numa tradição política associada ao bolsonarismo: valores conservadores, segurança, identidade nacional e oposição ideológica à esquerda.

Essa disputa pelo conceito de soberania poderá se tornar relevante.

O ambiente internacional, as relações com os Estados Unidos, a exploração de minerais críticos e a posição brasileira diante das grandes potências transformaram política externa e recursos naturais em temas potencialmente eleitorais.

Nenhum dos dois candidatos parece disposto a entregar a bandeira nacional ao adversário.

Dois candidatos presos ao passado - por razões diferentes

Talvez o ponto mais interessante das duas largadas esteja justamente no passado.

Lula precisa dele.

Flávio também.

Lula recorre à própria biografia para lembrar ao eleitor quem foi, o que realizou e de onde veio. São Bernardo é a representação física dessa narrativa.

Flávio precisa do passado político de outra pessoa.

Seu principal capital eleitoral foi construído por Jair Bolsonaro.

A diferença produz desafios quase simétricos.

Lula precisa demonstrar que sua história ainda oferece respostas para um Brasil muito diferente daquele das greves do ABC.

Flávio precisa demonstrar que a história do pai pode produzir um novo presidente sem que sua própria candidatura seja apenas uma extensão dela.

Um precisa renovar a própria biografia.

O outro precisa construir a sua.

A pesquisa mostra uma eleição aberta

Os números divulgados nesta segunda-feira ajudam a dimensionar o ponto de partida.

Segundo a BTG/Nexus, Lula tem 41% e Flávio Bolsonaro 36% no primeiro turno. Ronaldo Caiado aparece com 5%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema registram 4% cada.

No segundo turno entre os dois principais candidatos, Lula marca 47% e Flávio, 44%.

Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o resultado configura empate técnico.

Foram entrevistados 2.003 eleitores por telefone entre 14 e 16 de agosto. O levantamento tem nível de confiança de 95% e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03317/2026.

Mais importante que uma fotografia isolada será acompanhar a tendência.

A campanha oficial começou agora. A propaganda eleitoral, os debates, as viagens, as alianças estaduais e eventuais acontecimentos externos ainda poderão interferir no comportamento do eleitor.

Os números atuais, entretanto, permitem uma conclusão: ninguém começa a campanha com a eleição resolvida.

A disputa será também pelo assunto da eleição

A largada de domingo revelou ainda uma batalha menos visível.

Lula e Flávio não disputam apenas votos. Disputam qual será o assunto da eleição.

Para Lula, interessa uma campanha baseada em comparação de governos, emprego, renda, políticas sociais, educação, indústria e defesa da soberania. Segurança aparece como tentativa de reduzir uma vulnerabilidade.

Para Flávio, interessa colocar no centro segurança pública, criminalidade, conservadorismo, críticas à esquerda e defesa do legado de Jair Bolsonaro.

Cada candidatura tentará conduzir o eleitor para o terreno no qual se considera mais forte.

É justamente aí que as duas largadas se encontram.

São Bernardo e Copacabana foram escolhidas para mobilizar os convertidos antes de conquistar os indecisos. Lula retornou ao lugar onde nasceu sua identidade política. Flávio ocupou um dos lugares onde a identidade política de seu pai ganhou as ruas.

Nenhum deles, porém, chegará ao Palácio do Planalto falando apenas para quem já está convencido.

A partir de agora começa outra eleição: a busca pelo eleitor que não estava na Vila Euclides nem na Avenida Atlântica.

E provavelmente será esse eleitor que decidirá qual dos dois projetos de poder terá maioria em outubro.

 

NOTA DE TRANSPARÊNCIA

Esta reportagem foi produzida pelo Nossa República a partir do cruzamento de informações públicas sobre os atos de abertura das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, realizados em 16 de agosto de 2026. Foram consultados materiais e declarações públicas das campanhas, informações divulgadas pelo Partido dos Trabalhadores sobre o ato de São Bernardo do Campo e cobertura jornalística de veículos nacionais e agências de notícias. Dados sobre os discursos, participantes e estratégias foram confrontados entre diferentes registros antes de sua incorporação ao texto.

Os números eleitorais são da pesquisa BTG/Nexus divulgada em 17 de agosto de 2026, realizada por telefone com 2.003 eleitores entre 14 e 16 de agosto, margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03317/2026.

A comparação entre os discursos, a interpretação sobre os significados políticos de São Bernardo do Campo e Copacabana e as avaliações sobre os desafios estratégicos das candidaturas constituem análise editorial do Nossa República, elaborada a partir dos fatos e dados descritos na reportagem. Informações jornalísticas de terceiros foram utilizadas como elementos de apuração e cruzamento, e não como reprodução de suas análises ou conclusões.



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Redação: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

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