A Operação Heritage produziu nesta terça-feira seu primeiro grande terremoto político. Em poucas horas, o grupo que governa Mato Grosso trocou o candidato a vice-governador, perdeu o chefe da Casa Civil, reorganizou a campanha de Fábio Garcia e viu Otaviano Pivetta assumir pessoalmente a tarefa de conter uma crise que, até aqui, parecia essencialmente jurídica.
Não parece mais.
A primeira decisão importante foi a saída de Fábio Garcia da vice. Politicamente, era provavelmente a situação mais difícil de sustentar. Fábio confirmou que as restrições impostas pelo STF, especialmente a proibição de contato entre investigados, pesaram na decisão.
Ele estava diante de um paradoxo político: disputar o governo sem poder manter contato com Mauro Mendes, uma das principais lideranças do grupo político ao qual pertence e personagem central da campanha governista.
Sua retirada reduz esse constrangimento, mas cobra um preço. Demonstra que a Heritage já conseguiu alterar objetivamente uma composição eleitoral construída depois de meses de negociações.
Fábio tenta agora retornar à disputa pela Câmara dos Deputados. É uma saída politicamente compreensível. Em vez de enfrentar uma campanha majoritária submetida diariamente à repercussão da investigação, retorna ao terreno eleitoral que conhece e no qual dispõe de mandato, estrutura e relacionamento com prefeitos.
Isso não significa que a operação deixou de representar um problema eleitoral para ele.
Significa apenas que mudou o tamanho do campo de batalha.
O segundo movimento foi de Otaviano Pivetta.
O governador afirmou que a oposição “tirou proveito” da Operação Heritage, mas teve o cuidado de não dizer que a ação da Polícia Federal tenha sido produzida por seus adversários. Também sustentou que ninguém pode ser considerado culpado antes da comprovação das acusações e afirmou que o Governo de Mato Grosso cumprirá as determinações judiciais.
É uma diferença importante.
Pivetta tenta construir uma linha de defesa que preserve seus aliados sem entrar em confronto aberto com a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal. Reconhece a exploração eleitoral do episódio — algo absolutamente previsível numa campanha —, mas evita transformar a investigação numa teoria de perseguição política.
Pivetta procura ocupar o papel de administrador da crise. Precisa defender o grupo ao qual pertence sem assumir como suas as explicações que cada investigado terá de apresentar à Justiça. Quanto maior a duração da Heritage, mais importante será essa separação.
O terceiro movimento aconteceu dentro do Palácio Paiaguás.
Mauro Carvalho deixou a Casa Civil.
Foi uma decisão institucionalmente relevante. A Casa Civil não é uma secretaria qualquer. É o centro da articulação política do governo e uma das estruturas mais próximas do governador. Manter seu titular simultaneamente dedicado à administração de uma crise dessa dimensão e à própria defesa produziria desgaste permanente para o Executivo.
Carvalho afirmou que sai para cuidar da família, de suas empresas e de sua defesa. Também reafirmou sua inocência e destacou que é investigado, não condenado.
A distinção é indispensável.
A substituição por Adjaime Ramos de Souza, que já integrava a estrutura da Casa Civil e atuava na relação com os municípios, indica uma escolha de continuidade, não de ruptura.
Pivetta evita importar alguém de fora no meio da turbulência. Coloca no comando um nome que conhece a máquina estadual, mantém interlocução com prefeitos e reduz o período de adaptação justamente quando o governo precisa demonstrar que continua funcionando.
Mas a decisão politicamente mais sofisticada do dia foi a escolha de Gisela Simona para vice.
Gisela era uma solução capaz de recompor a imagem da chapa: mulher, negra, cuiabana, advogada, com experiência parlamentar e uma trajetória pública fortemente vinculada à defesa do consumidor e da causa das mulheres.
Sua escolha também resolve simultaneamente dois problemas.
O primeiro é eleitoral. Pivetta precisava preencher rapidamente o vazio deixado por Fábio Garcia.
O segundo é partidário. Ao manter a candidatura a vice com o União Brasil, evita transformar a substituição numa nova guerra entre os aliados.
Isso não é pouco.
O União Brasil saiu de uma convenção traumática, marcada pela derrota da candidatura própria de Jayme Campos e por profundas divisões internas. Retirar agora do partido também a vice poderia produzir outra frente de insatisfação dentro de uma coligação que, neste momento, precisa exatamente do contrário: estabilidade.
Gisela oferece ainda outra vantagem política.
Sua presença altera a fotografia de uma chapa até então fortemente identificada com lideranças masculinas e amplia sua representação social e territorial, especialmente na Baixada Cuiabana.
Pivetta encontrou uma solução que preserva o equilíbrio original da coligação, mantém o União Brasil no espaço majoritário e acrescenta à chapa atributos políticos diferentes daqueles oferecidos por Fábio Garcia.
Não significa que a crise esteja resolvida.
Significa que o problema da vice foi resolvido rapidamente.
Há diferença.
Existe ainda um quarto movimento, menos eleitoral, mas simbolicamente importante.
Ulisses Rabaneda entregou seu passaporte à Polícia Federal, cumprindo determinação do ministro Flávio Dino no âmbito da Operação Heritage.
Aqui é necessário separar definitivamente política de processo.
A entrega do documento não representa confissão, denúncia ou condenação. Representa o cumprimento de uma medida cautelar determinada judicialmente.
Da mesma forma, todos os atingidos pela operação permanecem protegidos pela presunção de inocência.
Esse princípio não pode ser relativizado porque estamos a menos de dois meses das eleições.
O saldo político desta terça-feira, entretanto, é inequívoco em um aspecto: a Heritage deixou de produzir apenas manchetes policiais.
Mudou a chapa de Pivetta. Retirou Fábio Garcia da disputa majoritária. Levou Mauro Carvalho a deixar a Casa Civil. Produziu a ascensão de Adjaime Ramos. Transformou Gisela Simona em candidata a vice. E obrigou o governador a redesenhar publicamente sua estratégia diante da investigação.
Pivetta conseguiu terminar o dia com o governo funcionando e a chapa novamente completa.
É uma vitória na administração da crise.
Não significa, entretanto, o encerramento dela.
A partir de agora existem duas campanhas acontecendo simultaneamente.
Uma é aquela planejada pelos partidos, construída durante meses de negociações e finalmente homologada nas convenções.
A outra começou no dia 6 de agosto.
É uma campanha determinada pela capacidade do grupo governista de administrar os efeitos políticos de uma investigação federal ainda em andamento.
A primeira estava no calendário.
A segunda não estava nos planos de ninguém.
Nota de Transparência — NR/SEI-NR
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