Em entrevista ao Jornal da Cultura, na Cultura FM 90,7, o senador Jayme Campos (União Brasil) fez uma radiografia dura de Mato Grosso e transformou a conversa, originalmente marcada pela disputa política de 2026, em um diagnóstico amplo sobre problemas estruturais do estado. Entre ataques ao que classificou como “propaganda” do governo, críticas à saúde, à segurança pública, à situação dos jovens e à violência contra a mulher, o parlamentar afirmou que pretende disputar o governo com uma agenda de “visão de estadista” e foco em políticas públicas concretas.
A entrevista, concedida aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, começou pelo clima quente da sucessão estadual e rapidamente avançou para um dos pontos mais sensíveis do debate político: as acusações de cobrança de “30%” sobre emendas e a leitura de que os ataques tinham endereço certo. Jayme reagiu de forma direta. “Nenhum, nem outro serve. Carapuça não serve para mim”, afirmou, ao negar envolvimento com irregularidades e exigir responsabilização de quem faz acusações sem citar nomes.
O senador cobrou apuração rigorosa das denúncias. “Se você fala uma coisa com isso, que o senador daqui pega dinheiro, trinta por cento, é seríssimo”, disse, sustentando que o Ministério Público deve tratar o caso com a mesma seriedade que dedica a outras notícias de fato. Em tom de desafio, foi além: “Se um cidadão desse estado, seja prefeito, vereador, deu uma rapadura pra Jaime Campos, eu renuncio o mandato”. Para ele, acusações desse tipo não podem circular sem a devida identificação de autores e de supostos beneficiários.
Ao comentar o cenário eleitoral, Jayme disse estar distante de acomodações de bastidor e afirmou fazer uma “campanha independente”. “Estou conversando com o povo do Mato Grosso”, declarou, numa tentativa de se diferenciar de articulações baseadas em grupos empresariais e em estruturas partidárias fechadas. Segundo ele, a disputa de 2026 já começou a endurecer cedo demais, mas o debate deveria ser outro: “o que que você pretende fazer, eleito ou for, para Mato Grosso”.
A entrevista, porém, ganhou dimensão mais ampla quando o senador passou a enumerar o que considera fracassos do Estado. Jayme citou dados sobre sofrimento mental entre os jovens e disse que Mato Grosso vive um quadro alarmante. “Vinte e um vírgula cinco por cento dos jovens em Mato Grosso não têm vontade mais de viver”, disse, referindo-se ao dado mencionado ao vivo pelo programa. Para ele, o número exige resposta imediata de especialistas, instituições públicas e das próprias autoridades de saúde e educação.
Na mesma linha, o senador apontou o aumento da demanda por leitos de UTI e criticou o tempo de espera até a liberação judicial. “Quando essa vaga de UTI chega, o cidadão já morreu”, lamentou. Jayme afirmou receber pedidos constantes de ajuda para pacientes que aguardam vagas e disse que o quadro revela uma rede de saúde insuficiente, apesar da propaganda oficial de inaugurações e obras. “Não estou vendo nenhum resultado”, resumiu, ao questionar a efetividade dos investimentos anunciados pelo governo.
O ataque à área da saúde foi um dos trechos mais duros da entrevista. Jayme disse que não há atendimento à altura da estrutura prometida pelo Estado. Citou hospitais regionais, o Hospital Central e o Hospital Metropolitano como exemplos de obras caras que, segundo ele, não se convertem em atendimento real. “Abre-se o Hospital Central, gastando parece que quatrocentos milhões... e porta fechada”, criticou. Para o senador, o problema não é apenas de obra física, mas de funcionamento, regulação e acesso.
Na segurança pública, Jayme afirmou que Mato Grosso vive uma situação grave de feminicídios e crime organizado. Ele disse que os números de mortes de mulheres colocam o estado em posição vergonhosa e insistiu que a resposta do governo tem sido insuficiente. “Não adianta o Estado ficar só fazendo essa papagaiada toda aí, lançando obra”, afirmou, ao defender uma mudança de foco nas prioridades. Segundo ele, não basta inaugurar equipamentos e divulgar ações; é preciso enfrentar os problemas que afetam diretamente a população.
A entrevista também avançou sobre o sistema prisional e a reincidência. Jayme defendeu melhor estrutura penitenciária, ampliação de políticas para o semiaberto e uso de tecnologia no combate ao crime organizado. Criticou a superlotação das unidades e disse que o discurso de “prende e solta” precisa ser enfrentado com organização institucional. “O que precisamos fazer aqui é melhorar a estrutura da área penitenciária do Estado”, afirmou. Para ele, a segurança não se resolve apenas com policiamento ostensivo, mas com integração entre polícias, Ministério Público e Tribunal de Justiça.
Outro ponto de forte repercussão foi a crítica à política de obras de grande porte. Jayme atacou diretamente o Parque Novo Mato Grosso, que classificou como símbolo de prioridade invertida. “Eu resolvo todas essas situações com três bilhões de reais”, disse, ao afirmar que o dinheiro aplicado em grandes empreendimentos poderia ser usado em habitação, infraestrutura urbana e políticas sociais. Ele citou o déficit habitacional em Cuiabá, o abandono de idosos e a precariedade de áreas periféricas como exemplos de demandas que, segundo ele, deveriam estar no topo da agenda.
No campo partidário, Jayme tratou das tensões internas do União Brasil e da federação com o PP. Ele contestou a ideia de que o partido esteja naturalmente fechado em torno de uma única candidatura ao governo e disse que a lógica da legenda deveria privilegiar disputa e representatividade. “Se ele não tiver a candidatura própria, pode imaginar aqui que o pessoal... vai querer eleger mais gente do Republicanos”, provocou, ao demonstrar preocupação com a distribuição de votos e espaços na chapa proporcional.
Ao final, o senador reforçou seu tom de pré-candidato e prometeu campanha em cima de temas concretos, não de propaganda. “Eu não recuo nem um centímetro”, disse, em uma das frases mais fortes da entrevista. E completou: “Meu carro quebrou a marcha ré, é só pra frente”. Para Jayme, Mato Grosso precisa de “um novo governo, uma nova forma de fazer gestão pública”, com atenção real à população da ponta, especialmente quem sofre com saúde precária, abandono social e violência.




