NOTICIÁRIO Segunda-feira, 30 de Março de 2026, 10:08 - A | A

Segunda-feira, 30 de Março de 2026, 10h:08 - A | A

RENÚNCIA E POSSE

O Dia do Fico de Pivetta e a Travessia de Mendes: a transmissão que redesenha o poder em Mato Grosso

Da Redação

O calendário político de Mato Grosso marca, para esta terça-feira (31 de março de 2026), um divisor de águas que vai muito além do protocolo institucional. A transmissão do cargo de governador, de Mauro Mendes (União) para Otaviano Pivetta (Republicanos), não é apenas uma formalidade burocrática exigida pela legislação eleitoral; é o início oficial de um novo ciclo de poder e a validação de uma estratégia de sucessão desenhada a quatro mãos nos últimos sete anos. Enquanto Mendes se desincompatibiliza para buscar uma das duas cadeiras em disputa no Senado da República, Pivetta assume a caneta com a missão de manter a coesão de uma base aliada gigantesca e, ao mesmo tempo, imprimir sua marca pessoal para a tentativa de reeleição em outubro.

O cronograma oficial começa às 14h30, na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). Lá, o rito é jurídico e legislativo: Mauro Mendes apresenta sua renúncia e Otaviano Pivetta presta o compromisso constitucional para ser empossado como o novo governador titular. É o momento em que o "vice eterno" — como alguns adversários tentaram rotulá-lo — deixa a sombra para assumir o protagonismo total. Na sequência, às 16 horas, o cenário muda para o Allure Hall (Buffet Leila Malouf), no Ribeirão do Lipa. É onde o simbolismo político ganha cores vivas com a transmissão da faixa governamental e, ato contínuo, a posse dos novos secretários de Estado. O evento, que será transmitido ao vivo pelo YouTube do Governo, deve reunir o "PIB político" do estado, em uma demonstração de força que visa desestimular qualquer tentativa de racha precoce na coalizão.

Rearranjo da base e o peso da caneta

A grande interrogação que paira sobre os corredores do Palácio Alencastro e da Assembleia não é sobre a competência de Pivetta, mas sobre a sua capacidade de articulação política em um ambiente de "caneta cheia". Otaviano Pivetta é conhecido pelo perfil técnico, austero e, por vezes, centralizador. Natural de Caiçara (RS), ele construiu sua reputação em Lucas do Rio Verde, onde foi prefeito por três mandatos, saindo em 2016 com mais de 80% de aprovação. Sua trajetória é pautada pelo que ele chama de "lucro social" — a ideia de que a gestão pública deve ser tão eficiente quanto a privada, mas com o dividendo voltado para o cidadão.

No entanto, governar o Estado é um jogo de xadrez mais complexo que administrar um município, por mais próspero que ele seja. O rearranjo da base aliada é o primeiro grande teste. Com a saída de Mendes, partidos que compõem o arco de aliança começam a cobrar faturas e espaços. A posse dos novos secretários nesta terça-feira já dará o tom desse equilíbrio. Pivetta precisa acomodar os interesses do União Brasil (partido de Mendes), do seu próprio Republicanos e de siglas satélites que são essenciais para a governabilidade na ALMT. O desafio é manter o ritmo de investimentos em infraestrutura e educação — áreas onde Pivetta teve atuação destacada como vice — sem permitir que a máquina pública se torne refém de interesses paroquiais em ano eleitoral.

A travessia para o Senado

Do outro lado da moeda, Mauro Mendes sai do governo no auge de sua aprovação popular. Reeleito em 2022 com expressivos 68% dos votos válidos, Mendes entrega um estado com as contas saneadas — um contraste brutal com o cenário de caos financeiro que encontrou em 2019. Sua candidatura ao Senado é tida como favorita, mas não isenta de riscos. Em 2026, Mato Grosso elegerá dois senadores, o que abre espaço para composições complexas. Mendes precisará de Pivetta fortalecido no governo para garantir o suporte da máquina estadual e dos prefeitos do interior, que são os grandes cabos eleitorais em uma disputa majoritária.

A parceria entre Mendes e Pivetta foi, até aqui, uma das mais estáveis da história política de Mato Grosso. Diferente de outros governadores que romperam com seus vices, Mauro e Otaviano mantiveram uma relação de complementaridade. Enquanto Mendes cuidava da macroeconomia e da interlocução política mais ampla, Pivetta mergulhava na gestão direta de pastas estratégicas. Agora, a relação muda de patamar: Pivetta é o governador que dará as cartas e Mendes é o candidato que precisará do apoio do sucessor. É uma inversão de papéis que testará a lealdade e o pragmatismo de ambos.

O cenário para Pivetta

Para Otaviano Pivetta, os próximos meses serão uma vitrine contínua. Ele assume com o apoio explícito de Mauro Mendes, o que lhe confere o selo de continuidade. Mas a política, como se sabe, não aceita vácuo. A oposição, embora fragmentada, tentará explorar a mudança de comando para buscar fissuras na base governista. O perfil de Pivetta, mais focado em resultados do que em afagos políticos, pode ser um trunfo na gestão, mas um obstáculo na construção de alianças mais amplas se não houver um "choque de diálogo" com a classe política.

As possibilidades eleitorais de Pivetta passam obrigatoriamente pela manutenção do crescimento econômico de Mato Grosso e pela entrega de resultados rápidos na saúde e segurança, áreas que sempre geram desgaste. Se conseguir manter a máquina girando com a mesma eficiência de Mendes, Pivetta chega em outubro como o nome a ser batido. Se houver ruído na transição ou se a base aliada se sentir escanteada, o cenário de "céu de brigadeiro" pode mudar rapidamente.

A transmissão da faixa no Allure Hall encerra um capítulo vitorioso de Mauro Mendes e abre o livro de Otaviano Pivetta como o 57º governador de Mato Grosso. Para o cidadão comum, o que importa é se as obras continuarão e se a escola do filho manterá a qualidade. Para o mundo político, o que conta é quem terá a última palavra a partir de quarta-feira.



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