A manhã desta quinta‑feira (7) expôs, ao vivo, o grau de tensão que domina a política cuiabana. A vereadora Maysa Leão (Republicanos) foi direta, cirúrgica e contundente ao detalhar no Jornal da Cultura a interferência que, segundo ela, o prefeito Abílio Brunini exerce sobre a Câmara Municipal — uma influência que, na prática, estaria enfraquecendo aliados, travando CPIs, protegendo figuras-chave do Executivo e transformando disputas internas em um grande tabuleiro de conveniência.
Logo na abertura, Maysa desmontou o discurso de neutralidade do prefeito na eleição da Mesa Diretora. Para ela, Abílio interfere, escolhe, impõe e, pior: enfraquece aqueles que tenta defender. Seu exemplo mais emblemático é a insistência dele em apontar Paula Calil como “sua candidata”, ignorando o próprio líder do governo, Dilemário Alencar, que se colocou legitimamente na disputa.
Segundo a vereadora, essa interferência pública e reiterada “enterra” Paula ao invés de fortalecê‑la. Ela afirma que nunca viu, até agora, um movimento interno sólido da própria Paula pedindo recondução. A movimentação, diz, é toda do prefeito — o que faz parecer que a presidente não deseja o posto e que Abílio quer apenas demonstrar força sobre a Câmara.
Esse comportamento gerou um efeito reverso: a Mesa Diretora hoje apoia Ildo Taques, não por rejeição a Paula, mas pela forma como a interferência do Executivo contaminou o ambiente. Maysa lembra que Ildo sempre foi da base de Abílio, defendeu pautas difíceis e demonstrou lealdade — mas, ainda assim, foi descartado na disputa interna sem explicação plausível.
A vereadora afirma que o prefeito ocupa, de forma constante, o espaço que deveria ser de Paula:
“O holofote que deveria ser da presidente da Câmara foi tomado pelo prefeito. É ele quem fala, quem pauta, quem disputa narrativa, quem aparece em tudo.”
Ao mesmo tempo, a Câmara, segundo ela, sofre para comunicar seus próprios avanços, que vão de sessões mais transparentes ao funcionamento mais rigoroso do plenário. Enquanto isso, o prefeito domina redes sociais e mecanismos de comunicação institucional, deixando o Legislativo “sombreado” sob sua hiperexposição.
No tema mais sensível da entrevista — o escândalo envolvendo o ex-chefe de gabinete de Abílio, William Leite de Campos — Maysa foi categórica: há uma clara tentativa de evitar a investigação profunda. Ela disse que a comissão criada para tratar do caso não tem instrumentos de CPI e, portanto, não conseguiu ouvir William, nem quebrar sigilos, nem seguir o caminho que qualquer investigação séria exigiria. As denúncias incluem assédio sexual, desvio de dinheiro e relações suspeitas com a empresa MTPress.
A vereadora relatou que William, embora afastado oficialmente, voltou a circular pela Câmara e até apareceu em Brasília enquanto ela participava de um curso:
“Um dia estava na Câmara, no outro estava no mesmo hotel que eu em Brasília, recebendo pessoas, com o notebook aberto. Ninguém mais toca no assunto.”
Segundo Maysa, a CPI está pronta, protocolada, e será apresentada no momento oportuno, quando uma das outras CPIs abertas “cair” ou perder sustentação. A exigência, diz, é simples: investigar, sem revanchismo, sem blindagem e sem medo.
A entrevista também tratou do impacto da Operação Emenda Oculta, que atingiu o vereador Cesinha Nascimento, após ter afastado Chico 2000 no ano passado. Maysa rejeita generalizações:
“Eu não sou igual. Não posso responder pelo que outro CPF faz. E sem acesso ao inquérito, não podemos abrir processante. O Parlamento está de mãos amarradas.”
Eleições 2026
Na segunda metade da conversa, a pauta migrou para o cenário eleitoral. Maysa revelou detalhes do que chamou de “chapão da morte” dentro do Republicanos: uma chapa superpovoada por deputados e ex-secretários que praticamente inviabilizaria a candidatura de qualquer nome de menor estrutura. Ela conta que chegou a desanimar, mas decidiu seguir após perceber a receptividade de suas palestras sobre autismo em cidades do Norte.
Confirmou, então, sua pré‑candidatura a deputada estadual, destacando o esforço para manter coerência com seu projeto político. Também relatou que tentou migrar para o PSDB, com apoio inicial do governador Otaviano Pivetta, mas foi impedida pela direção nacional do Republicanos sob risco de perder o mandato.
Sobre o polêmico caso de agressão envolvendo Pivetta anos atrás, Maysa disse que acompanhou a denúncia e reafirmou que, juridicamente, o caso foi considerado agressão mútua, não violência doméstica:
“Se tivesse sido enquadrado na Maria da Penha, eu seria a primeira a exigir punição. Mas não é o caso.”
Lista de estupráveis
A vereadora também se manifestou sobre um tema que chocou o país nesta semana: a lista de “alunas estupráveis” na UFMT. Para Maysa, o afastamento do aluno é insuficiente:
“Isso é gravíssimo. É crime. Como alguém que faz uma lista assim pode ser operador do direito? Expulsão é o mínimo.”
Ela prometeu acompanhar o caso pela Procuradoria da Mulher e cobrar medidas exemplares da universidade.
A entrevista de Maysa Leão no Jornal da Cultura foi concedida aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo.




