NOTICIÁRIO Terça-feira, 31 de Março de 2026, 09:49 - A | A

Terça-feira, 31 de Março de 2026, 09h:49 - A | A

JORNADA MENOR, VIDA MELHOR

Redução da jornada de trabalho é viável e necessária, diz economista da Unicamp

Da Redação

A redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e o fim da escala seis por um não só são viáveis como necessários para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros, segundo a economista e pesquisadora Marilane Teixeira, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp. Em entrevista ao Jornal da Cultura, na Cultura FM 90.7, na manhã desta terça-feira (31), Teixeira rebateu argumentos empresariais que associam mais horas de trabalho a maior produtividade, destacando que o Brasil já está pronto para essa mudança, com base em dados históricos e experiências internacionais.

Teixeira, que coordena estudos técnicos sobre o tema, enfatizou que a baixa produtividade no país não resulta de jornadas curtas, mas de problemas estruturais como falta de qualificação e bem-estar. “Uma jornada já de quarenta e quatro horas, se a produtividade é baixa, significa que não deu certo uma extensão, uma jornada longa”, afirmou. Para ela, os ganhos de produtividade nas últimas quatro décadas beneficiaram principalmente os empresários, sem reflexos salariais ou em tempo livre para os trabalhadores. “Quem mais se beneficiou disso foram os empresários, porque os produtos, as mercadorias, os serviços, os bens não reduziram seus preços nas prateleiras”, disse, argumentando que a redução da jornada impulsionaria o consumo e a economia.

Cerca de 34% a 35% dos trabalhadores brasileiros já operam em escalas de cinco por dois, segundo a pesquisadora, o que demonstra viabilidade prática. Ela citou o exemplo da década de 1980, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas semanais sem gerar desemprego ou queda no PIB. “Não mostrou nenhuma evidência de que tivesse gerado desemprego, queda no PIB ou ampliado a informalidade”, explicou. Projeções recentes indicam que uma redução para 40 horas poderia criar até 600 mil empregos diretos, especialmente em setores como cultura, lazer e entretenimento, onde o tempo livre das pessoas geraria demanda adicional.

A economista criticou a visão patronal de que a mudança elevaria custos e reduziria competitividade. “Mesmo que esse custo vá ser incorporado a médio e longo prazo nos custos da empresa, ele se dilui quando a economia reage positivamente com a geração de empregos”, argumentou. Setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços, absorveriam o impacto por meio de negociações coletivas, garantindo direitos e revezamento de folgas. Teixeira alertou para os efeitos negativos da jornada atual: em 2024, mais de 500 mil afastamentos por doenças psicossociais, como burnout, foram registrados, muitos ligados a sobrecarga e metas excessivas. “Reduzir as jornadas de trabalho significa melhorar a qualidade de vida, as pessoas vão trabalhar com mais disposição, com mais criatividade”, defendeu.

O debate sobre a escala seis por um, comum em comércio e serviços, foi central na conversa. Teixeira destacou que ela não garante folgas consistentes, com trabalhadores descansando em dias aleatórios da semana, o que prejudica a convivência familiar e a sociabilidade. “O seis por um hoje não é trabalhar de segunda a sábado e folgar no domingo, é folgar em qualquer dia da semana”, observou. Para setores 24/7, como saúde e transporte, a redução poderia ser regulada por acordos coletivos, usando modalidades como o contrato intermitente, aprovado na Reforma Trabalhista de 2017, mas subutilizado.

A pesquisadora também abordou o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho, tema recorrente no debate sobre automação e empregos. Embora reconheça controvérsias, Teixeira vê potencial positivo se usada com responsabilidade. “A inteligência artificial pode ser usada positivamente, desde que seja usada com parcimônia”, disse, alertando para riscos de precarização, como nos aplicativos de delivery, onde a tecnologia rompe vínculos trabalhistas. Estudos globais divergem: alguns preveem a perda de um terço dos postos de trabalho, enquanto outros enfatizam que a IA não substitui interações humanas em áreas como educação e saúde. No Brasil, o foco deve ser evitar desigualdades, garantindo que a tecnologia gere empregos qualificados em vez de informalidade.

Teixeira defendeu uma abordagem progressiva: consolidar as 40 horas semanais antes de mirar em quatro dias de trabalho por três de folga. “Se nós tivéssemos feito a lição de casa no início dos anos 2000, hoje a gente já estaria falando da quatro por três”, lamentou, referindo-se ao compromisso não cumprido no primeiro governo Lula. Países desenvolvidos já adotam jornadas de 33 a 36 horas, e o Brasil, com sua alta informalidade e evasão escolar ligada a sobrecarga, precisa priorizar o bem-estar para impulsionar o desenvolvimento sustentável.

A entrevista, conduzida pelos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, destacou a urgência do tema em um país onde a jornada média semanal ultrapassa 50 horas, incluindo extras. Teixeira criticou a especulação sobre a IA, afirmando que o capitalismo depende da força de trabalho humana para criar valor e consumo. “O capitalismo não pode prescindir do trabalho; ele não pode substituir por máquinas o trabalho que é realizado pelas pessoas”, concluiu, enfatizando que a redução da jornada equilibra lucros empresariais com direitos sociais.

O debate reforça a necessidade de políticas que priorizem o trabalhador, em um cenário onde a produtividade estagnada não justifica jornadas exaustivas. Com argumentos embasados em dados e história, Teixeira posiciona a redução como ferramenta para uma sociedade mais saudável e inclusiva, desafiando narrativas que associam preguiça a mais tempo livre.



Comente esta notícia

Nossa República é editado pela Newspaper Reporter Comunicação Eireli Ltda, com sede fiscal
na Av. F, 344, Sala 301, Jardim Aclimação, Cuiabá. Distribuição de Conteúdo: Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Campo Verde, Nova Brasilândia e Primavera do Leste, CEP 78050-242

Redação: Avenida Rio da Casca, 525, Bom Clima, Chapada dos Guimarães (MT) Comercial: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

[email protected]/[email protected]

icon-facebook-red.png icon-youtube-red.png icon-instagram-red.png icon-twitter-white.png