OPINIÃO Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2026, 07:17 - A | A

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MARIANA RAMOS

Canetas emagrecedoras e pancreatite: o que a ciência já sabe

Mariana Ramos

É médica endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá (MT)

Nos últimos anos, as chamadas canetas emagrecedoras passaram a fazer parte da rotina de muitos brasileiros. Medicamentos originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 ganharam protagonismo também no manejo da obesidade, trazendo resultados expressivos na perda de peso e no controle metabólico. No entanto, junto com a popularização dessas medicações, surgiram dúvidas e preocupações, entre elas a possível relação com casos de pancreatite.

As canetas emagrecedoras mais conhecidas pertencem à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida e a tirzepatida, um agonista dual dos receptores de GIP e GLP-1. Esses medicamentos atuam mimetizando a ação de um hormônio intestinal que aumenta a saciedade, retarda o esvaziamento gástrico e estimula a secreção de insulina de forma dependente da glicose. No caso da tirzepatida, há também a ativação do receptor de GIP, o que potencializa os efeitos metabólicos. O resultado é a redução do apetite, melhora do controle glicêmico e perda de peso significativa.

A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode se manifestar de forma aguda ou crônica. Entre as causas mais comuns estão o consumo excessivo de álcool, cálculos biliares, níveis elevados de triglicerídeos e algumas condições metabólicas. Em pacientes que apresentam perda de peso rápida e significativa, especialmente no contexto de tratamento da obesidade, a formação de cálculos biliares é considerada um dos principais fatores associados ao risco de desenvolvimento de pancreatite. Os sintomas costumam incluir dor abdominal intensa, náuseas, vômitos e mal-estar geral, sendo uma condição que exige avaliação médica imediata.

Desde o início do uso dos agonistas de GLP-1 e dos agonistas duais de incretinas, estudos clínicos e relatos de farmacovigilância passaram a investigar uma possível associação entre esses medicamentos e o risco de pancreatite. Em pesquisas iniciais, observou-se um pequeno número de casos relatados durante o tratamento. Isso gerou alerta e levou à inclusão de advertências em bula.

No entanto, análises mais amplas e revisões sistemáticas posteriores não demonstraram aumento significativo do risco de pancreatite na população geral que utiliza essas medicações quando comparada a outros grupos com características semelhantes. É importante lembrar que pacientes com obesidade e diabetes já apresentam risco aumentado para doenças pancreáticas independentemente do uso dessas drogas. Além disso, a própria perda ponderal acelerada pode aumentar o risco de litíase biliar, atuando como fator confundidor na associação entre essas terapias e a pancreatite.

Ainda assim, a recomendação médica é clara. Pacientes com histórico prévio de pancreatite devem ter avaliação criteriosa antes de iniciar o tratamento. Durante o uso, qualquer sintoma sugestivo de inflamação pancreática deve ser prontamente investigado. A suspensão da medicação pode ser necessária até que o diagnóstico seja esclarecido.

Outro ponto relevante é o uso indiscriminado e sem acompanhamento profissional. A automedicação, a aquisição irregular e a falta de avaliação clínica adequada aumentam riscos e dificultam o monitoramento de possíveis efeitos adversos. Essas medicações são seguras quando bem indicadas, na dose correta e com acompanhamento regular.

É fundamental compreender que nenhum medicamento é isento de efeitos colaterais. O papel do endocrinologista é avaliar riscos e benefícios de forma individualizada, considerando histórico clínico, exames laboratoriais e perfil metabólico de cada paciente. Quando bem prescritas, as canetas emagrecedoras representam um avanço importante no tratamento da obesidade, condição crônica que está associada a diversas complicações cardiovasculares e metabólicas.

A relação entre agonistas de GLP-1 e agonistas duais de incretinas e pancreatite continua sendo monitorada pela comunidade científica. Até o momento, as evidências apontam que o risco é baixo e que os benefícios superam os potenciais efeitos adversos na maioria dos pacientes adequadamente selecionados.

Informação de qualidade é a melhor ferramenta para combater o medo e a desinformação. O uso responsável, baseado em evidências científicas e com acompanhamento médico, é o caminho mais seguro para quem busca tratamento para obesidade e melhora da saúde metabólica.



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