OPINIÃO Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2026, 07:07 - A | A

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ROSANA LEITE

Marjorie Main

Rosana Leite Antunes de Barros

Defensora pública estadual

Nascida Mary Tomlinson, em 24 de fevereiro de 1890 na zona rural do Condado de Marion nos EUA, ficou conhecida como Marjorie Main. A artista se desenvolveu como atriz e cantora da “Era do Ouro de Hollywood”.

Todavia, quando se pensa nas estrelas femininas da Hollywood, a memória coletiva costuma evocar rostos delicados, e corpos moldados. No entanto, entre as décadas de 1930 e 1950, ela rompeu esse enquadramento com a potência de uma enxada cravada na terra. Seu corpo, sua voz rouca, sua presença física expansiva e sua recusa em performar a feminilidade dócil tornaram-se, ainda que sob o rótulo da comicidade, um gesto político de resistência. 

Main fazia questão de não se enquadrar no padrão de beleza hollywoodiano. E é justamente aí que reside a sua força simbólica. Em uma indústria que consolidou a mulher como objeto de contemplação, ela ocupava o lugar de outra forma. Ela não era filmada para ser desejada; era filmada para agir, falar alto, confrontar.

Sua personagem mais conhecida, “Ma Kettle”, da série iniciada com The Egg and I (1947), representava a mulher rural, trabalhadora, mãe de muitos filhos, dona de uma energia indomável. À primeira vista, poderia parecer uma caricatura. Mas, sob a lente feminista, essa figura revela outra camada: a afirmação de uma mulher que não pede licença para existir, que não suaviza sua voz, que não encolhe o corpo para caber no quadro social. A personagem não era objeto passivo do marido, pois era ela quem conduzia o caos familiar com liderança e sagacidade.

A artista encarnava a feminilidade subversiva. Em um tempo em que o ideal feminino estava associado à domesticidade elegante e silenciosa, ela apresentava uma mulher barulhenta, irônica, dona do próprio espaço. Sua comicidade não era submissão; era estratégia. 

O humor, historicamente, foi um dos poucos espaços em que mulheres puderam tensionar estruturas sem sofrer censura direta. Ao fazer rir, desloca-se a crítica. Main dominava essa arte. Seu jeito brusco desmontava a expectativa da mulher recatada; sua postura corporal contrariava a ideia de fragilidade feminina.

A filósofa Judith Butler sustenta que o gênero é performativo, isto é, um conjunto de atos reiterados que produzem a ilusão de uma identidade estável. Marjorie Main, em cena, desmontava essa repetição normativa. Sua performance evidenciava que o feminino não é essência, mas construção.

Ela se destacou em outro aspecto: a idade. Em uma indústria obcecada pela juventude feminina, ela construiu a sua carreira com um pouco mais de idade. Isso, por si só, constitui um ato de insurgência. Mulheres envelhecem, e continuam existindo, desejando, trabalhando, rindo.

Marjorie recusou o manual normativo da feminilidade. Ela mostrou que há múltiplas formas de ser mulher, inclusive aquelas que não buscam agradar.  Main ocupava espaço, e não apenas na tela. Seu legado pode não ser lembrado nos manuais tradicionais de história do cinema com a mesma reverência dedicada às divas glamourosas. Mas é precisamente aí que reside a importância de revisitá-la.

A atriz abriu uma fresta demonstrando que a mulher pode ser engraçada sem ser ornamental; pode ser rude sem ser desumanizada; pode ser mãe sem ser idealizada. Ao fazer do riso uma arma, transformou a marginalidade estética em presença incontornável. 

Resgatar Marjorie Main é reconhecer que a história das mulheres no cinema não se limita às musas, admitindo que há força na mulher que suja as mãos, que ergue a voz, que ri de si mesma e do mundo.



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