Por Mauro Camargo Há uma enorme e justificada expectativa da população cuiabana em torno das obras da Copa de 2014, sobretudo o que diz respeito às de mobilidade urbana e às de implantação do VLT. Ninguém tem dúvida de que os viadutos, as trincheiras e o novo modal de transporte público darão a Cuiabá um novo formato, uma cara nova e moderna, com trânsito mais eficiente e um visual de metrópole mais próxima às mais desenvolvidas capitais brasileiras. Neste processo de transformação, que já é fortemente sentido, surgem outras preocupações quase sempre esquecidas pelos gestores. Está claro que a Cuiabá moderna com a qual todos sonhamos não pode se limitar à mobilidade urbana. É preciso avançar mais em muitos outros setores para que Cuiabá ofereça a seus habitantes uma qualidade de vida compatível com os anseios de sua população. Um artigo publicado pelo jornalista Onofre Ribeiro, neste domingo, abordou a questão dos parques urbanos. Ele comparou o Parque das Águas Claras, no Distrito Federal, com o nosso Mãe Bonifácia. A comparação, segundo Onofre, é de envergonhar os cuiabanos. E é mesmo. O clima quente e a escassez de opções de lazer deveriam levar nossos gestores a transformarem as áreas públicas da cidade em grandes espaços de convivência social. Cuiabá tem apenas três áreas dessa natureza minimamente estruturadas: Mãe Bonifácia, Massaro Okamura e o Parque da Saúde. Curitiba, uma capital marcada pelo clima frio e chuvoso, possui dezenas de áreas verdes estruturadas para o convívio social espalhadas por todos os cantos da cidade, inclusive nos bairros periféricos. Por aqui, os poucos que temos, estão às moscas, abandonados em sua manutenção. O prefeito eleito Mauro Mendes (PSB) dá sinais de que pretende investir em estruturas públicas que possam valorizar a cidade e melhorar a qualidade de vida da população. Ele tem dito, por exemplo, que Cuiabá está de costas para o rio. É fato. O Rio Cuiabá deveria ser um cartão postal da cidade, mas toda a região ribeirinha, o bairro do Porto, em particular, é marginalizado e esquecido. Isso precisa mudar. Em Porto Alegre as gestões municipais há décadas vem transformando as margens do Rio Guaíba em um dos mais belos e generosos espaços de convivência social. O que era uma zona decadente e marginalizada, hoje é uma das regiões mais valorizadas da Capital gaúcha e referencia no turismo local. O Guaíba se transformou num emblemático cartão postal, não apenas pela beleza, mas principalmente pelo caráter utilitário e de convivência dado por investimentos públicos às suas margens. Investir na modernização da cidade não pode se resumir às obras de mobilidade, que são de importância indiscutível – é bom que se diga –, mas não são suficientes para assegurar um padrão adequado de qualidade de vida. É fundamental que Cuiabá se volte para seu rio, que aproveite as dezenas de córregos canalizados transformando-os em áreas de lazer e convívio, que amplie o número de parques (o Parque Dante de Oliveira, uma área belíssima na região do Santa Rosa ainda não saiu do papel), que revitalize suas praças, que dê função social e ambiental às suas áreas verdes. É preciso mais: que se equacione definitivamente a questão dos resíduos sólidos, acabando com os lixões e estruturando a coleta seletiva do lixo. Que se regulamente e se imponha um padrão civilizado para as calçadas. Hoje, caminhar em Cuiabá é um risco permanente de acidentes. É preciso cuidar da iluminação pública, da sinalização vertical e horizontal das ruas e avenidas, disciplinar a utilização dos próprios públicos, pôr fim ao comércio informal que se instala sem qualquer critério nas calçadas, ruas e praças públicas. Uma boa política de incentivos pode contribuir muito para a recuperação de bairros centrais que hoje estão decadentes, caso do Baú, Dom Aquino, Porto, Lixeira e outros. Estimular investimentos privados nesses bairros, principalmente do setor imobiliário, poderia dar um novo perfil à cidade. Mas é preciso, principalmente, investir na estruturação dos bairros periféricos, muitos deles verdadeiras cidades dentro da cidade, caso do CPA e do Pedra 90. E é preciso alcançar um mínimo de qualidade nos serviços essenciais. A Prefeitura, nestes tempos de grandes obras de mobilidade, precisa direcionar seus investimentos com foco na qualidade de vida. É isso que fará de Cuiabá uma capital verdadeiramente moderna.