O União Brasil em Mato Grosso entrou de vez numa disputa que já não cabe mais no bastidor discreto. O conflito entre Mauro Mendes e Jayme Campos deixou de ser apenas uma divergência interna e passou a expor algo maior: a briga pelo comando da direita moderada em Mato Grosso na sucessão estadual de 2026.
De um lado, o governador Mauro Mendes trabalha para viabilizar o vice-governador Otaviano Pivetta como nome ao Palácio Paiaguás. De outro, o senador Jayme Campos não aceita o papel de coadjuvante e se movimenta para sustentar o próprio projeto de disputar o governo. No centro da crise, está uma pergunta que o meio político já faz sem rodeios: quem vai mandar no pós-Mauro Mendes?
Esse é o ponto real da disputa. Mauro quer conduzir a sucessão e preservar influência sobre o próximo ciclo. Jayme quer impedir que o processo seja tratado como uma escolha unilateral dentro do grupo. É uma queda de braço por candidatura, mas também por liderança política, por controle de narrativa e por espaço dentro do campo conservador que tenta se diferenciar da extrema direita mais barulhenta.
Há ainda um dado prático que complica o desenho do Palácio Paiaguás. Otaviano Pivetta é do Republicanos e não integra a federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. Isso impõe uma necessidade objetiva: ou há uma coligação que sustente esse arranjo, ou Pivetta precisará migrar para uma das legendas da federação. Mas esse movimento, por si só, resolve apenas a mecânica partidária. Não resolve o impasse com Jayme Campos.
Hoje, o mercado político trabalha com uma leitura bastante clara: Mauro Mendes quer fazer o sucessor; Jayme Campos quer ser o sucessor. E, quando essas duas vontades ocupam o mesmo espaço, o partido deixa de funcionar como aliança estável e passa a operar como terreno de tensão permanente.
Jayme, além disso, não demonstra qualquer apetite para disputar a reeleição ao Senado. E essa recusa faz sentido político. A corrida ao Senado em Mato Grosso já aparece congestionada por nomes fortes ou fortemente colocados nos bastidores, como Mauro Mendes, Janaína Riva, Carlos Fávaro, José Medeiros, Margareth Buzzetti, além de nomes sem partido definido, como Antonio Galvan e Euclides Ribeiro. À exceção de Fávaro, trata-se de um campo majoritariamente ocupado por candidaturas de direita ou extrema direita. Jayme olha para esse cenário e conclui que seu espaço natural não está ali. Está na disputa pelo governo.
É por isso que a insistência no nome de Pivetta não é recebida por Jayme como simples gesto administrativo de continuidade. Nos bastidores, ela soa como tentativa de enquadrar um líder com trajetória, voto e sobrenome eleitoral num papel menor do que ele considera compatível com sua estatura política.
Se a acomodação não vier dentro do União Brasil, ganha força um cenário que interessa diretamente a outros personagens do jogo: Max Russi e Janaína Riva.
A hipótese de uma aproximação entre Jayme Campos, Max Russi e Janaína Riva é especialmente positiva para Janaína. O MDB em Mato Grosso perdeu força política e eleitoral e tende a perder ainda mais com a provável saída dos deputados federais Emanuelzinho e Juarez Costa. Janaína continua sendo um nome competitivo, com recall, densidade e presença. Mas hoje é, na prática, uma pré-candidata ao Senado sem cabeça de chapa definida e com sustentação partidária aquém da ambição do projeto.
Nesse contexto, Jayme oferece o que falta ao MDB: âncora majoritária. E Max Russi, no Podemos, oferece estrutura, mobilidade e capacidade de costura. Uma composição entre os três mudaria de patamar o jogo da sucessão e poderia transformar uma candidatura que hoje parece isolada em um projeto com musculatura eleitoral real.
Essa aproximação também pode representar mais um passo na trajetória de Max Russi rumo seu projeto de ser governador. Um bom acordo com Jayme e Janaína pode levar Russi para mais perto dessa realização, com condições de disputar o cargo daqui a quatro anos com apoio de ambos
Por outro lado, em que pese resistências do chamado núcleo extremista do bolsonarismo, também existe uma variável chamada PL. Janaína pode ganhar competitividade se conseguir construir uma composição entre MDB e PL. Mas esse caminho enfrenta obstáculos políticos evidentes. Wellington Fagundes, sogro de Janaína, é o nome mais associado ao bolsonarismo na corrida ao governo. Isso cria uma conexão óbvia no plano pessoal, mas uma equação bem mais difícil no plano partidário. A aliança não está descartada, mas hoje parece mais complexa do que automática.
Enquanto isso, a União Progressista convive com um problema constrangedor. Se o comando do União Brasil em Mato Grosso insiste em empurrar um nome que está fora da própria federação, a base passa a fazer uma pergunta inevitável: o projeto é da federação ou é apenas do governador? Essa dúvida desgasta o discurso de unidade, pressiona o PP e amplia o desconforto interno.
Nesse ponto, as falas de Júlio Campos ajudam a traduzir o tamanho do ruído. Ao vocalizar o incômodo com a defesa de um nome de fora da federação, ele expõe o que muitos aliados pensam e poucos dizem com tanta nitidez. O mal-estar não é apenas pessoal. É estrutural. E atinge o coração da montagem eleitoral.
Do lado do PP, Nilson Leitão certamente também acompanha a crise com atenção. Federação não sobrevive de formalidade. Precisa de coerência política, palanque funcional e candidatura que faça sentido para a base. Se a cabeça de chapa não nasce de dentro e ainda produz rebelião interna, o risco de contaminação sobre a proporcional aumenta.
No fim, os cenários seguem relativamente claros.
O primeiro é o da acomodação interna: Jayme recua, Pivetta encontra um caminho formal para viabilizar sua candidatura ao lado da União Progressista e Mauro preserva o controle da sucessão. É o cenário mais limpo institucionalmente, mas o mais difícil politicamente.
O segundo é o da ruptura com aparência civilizada. Jayme mantém seu projeto, busca outro abrigo partidário e passa a organizar uma alternativa com Podemos e MDB, talvez até atraindo novos atores. Nesse caso, o que hoje é crise interna vira reorganização de blocos.
O terceiro é o mais desgastante para o grupo governista: arrastar o impasse por tempo demais, deixar a base em suspensão, embaralhar a proporcional e estimular conversas paralelas até que a ruptura deixe de ser hipótese e vire destino.
No fundo, a questão é simples. Mauro Mendes quer escolher o futuro. Jayme Campos quer disputar o futuro. E Otaviano Pivetta, mesmo sendo um nome competitivo, virou a peça que escancara a contradição de uma sucessão ainda sem forma partidária estável dentro da União Progressista.
Em Mato Grosso, a eleição de 2026 começa a ser desenhada não apenas por nomes, mas por encaixes. E, nesse tipo de tabuleiro, quem não resolve a própria casa corre o risco de fortalecer a casa alheia.




