O cenário que se desenha diante de nossos olhos é um espelho distorcido de uma realidade que teima em assombrar as relações internacionais: a imposição da força bruta sobre a lei, a arrogância unilateral que desdenha da soberania alheia e a covardia de um poder hegemônico que se julga acima de qualquer norma.
Uma operação militar ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, invadindo o território venezuelano para sequestrar seu presidente, Nicolás Maduro, não é apenas um ato de ficção distópica; é um alerta estridente sobre os abismos para os quais a política internacional pode ser empurrada quando a democracia, o multilateralismo e o respeito à autodeterminação dos povos são relegados a meras formalidades.
Este ato, em sua essência, é uma declaração de guerra contra os pilares do Direito Internacional moderno. Não se trata de uma intervenção humanitária, de uma ação de legítima defesa ou de uma operação sancionada por organismos multilaterais. É um sequestro, um rapto de um chefe de Estado soberano em seu próprio território, perpetrado por uma potência estrangeira. A ilegalidade é flagrante, inquestionável.
A Carta das Nações Unidas, o arcabouço legal que deveria guiar as relações entre os estados desde o fim da Segunda Guerra Mundial, é rasgada sem cerimônia. O princípio da não-intervenção nos assuntos internos de outros estados, a base da coexistência pacífica, é pulverizado. A soberania territorial, o direito inalienável de cada nação de governar-se sem interferência externa, é pisoteada com uma brutalidade chocante.
O perigo de tal precedente, caso permaneça impune, é catastrófico. Abre-se a caixa de Pandora para um mundo onde a lei do mais forte prevalece sem pudor. Se uma potência pode, a seu bel-prazer, invadir um país, depor ou sequestrar seu líder, sob qualquer pretexto, então nenhuma nação estará segura. O que impede que amanhã outro líder, considerado "indesejável" por Washington, seja alvo de uma ação similar?
A estabilidade global, construída a duras penas sobre o respeito mútuo e a observância de regras comuns, desmoronaria. O multilateralismo, a ideia de que os problemas globais exigem soluções conjuntas e negociadas, seria esvaziado de sentido. Estaríamos de volta a uma era de impérios e esferas de influência, onde a força militar é o único árbitro da justiça e da legitimidade.
A violação flagrante das regras do Direito Internacional, neste cenário, não é um mero detalhe técnico; é a imposição da força sobre a lei em sua forma mais crua e perigosa. O Direito Internacional não é perfeito, mas é a tentativa mais sofisticada da humanidade de regular a anarquia inerente às relações entre estados. Ele busca substituir a barbárie da guerra pela civilidade da negociação, a arbitrariedade do poder pela previsibilidade das normas.
Quando um país como os Estados Unidos, que se autoproclama defensor da ordem liberal internacional, age de forma tão descarada contra essa ordem, ele não apenas mina sua própria credibilidade, mas também legitima a desobediência e a agressão por parte de outros atores. A mensagem é clara: as regras valem apenas para os fracos, ou quando convêm aos poderosos.
Para os países da América do Sul, a insegurança gerada por tal ato seria palpável e aterrorizante. A região, historicamente marcada por intervenções externas e golpes de estado, veria ressurgir o fantasma do "quintal" dos Estados Unidos, onde a autonomia e a autodeterminação são meras ilusões. Nenhuma nação, por mais democrática ou estável que seja, estaria imune à possibilidade de ser o próximo alvo, caso suas políticas ou seus líderes não se alinhassem perfeitamente aos interesses de Washington. A soberania nacional se tornaria uma quimera, um conceito vazio. O medo de represálias, de sanções, de desestabilização ou, pior, de uma intervenção militar direta, pairaria sobre cada decisão política, econômica e social.
Essa insegurança se estenderia a qualquer nação militarmente mais frágil que não se submeta à vontade de uma potência hegemônica. O mundo se dividiria ainda mais entre os que podem impor sua vontade e os que devem se curvar. A busca por autonomia estratégica, por um caminho de desenvolvimento próprio, seria vista como um ato de desafio, passível de punição severa.
A corrida armamentista poderia se intensificar, à medida que países menores buscassem desesperadamente meios de dissuasão contra a agressão externa. A confiança nas instituições internacionais, já abalada, seria irremediavelmente comprometida.
As ações de Donald Trump, neste cenário, não podem ser caracterizadas de outra forma senão como autoritárias e covardes. Autoritárias porque ignoram completamente os mecanismos legais e diplomáticos, optando pela imposição unilateral da força. Covardes porque atacam um país militarmente muito inferior, sem qualquer tentativa de diálogo ou resolução pacífica, e sem o respaldo de qualquer legitimidade internacional.
É a manifestação de um poder que se sente tão absoluto que não precisa justificar seus atos, que não se importa com as consequências para a ordem global, desde que seus objetivos imediatos sejam alcançados. É a antítese da liderança responsável, um desrespeito abjeto às leis internacionais e aos princípios de soberania e autodeterminação que deveriam ser a base de um mundo civilizado.
Este ato de sequestro não surge do nada. Ele se insere em um cenário de horror pré-existente, onde a vida humana parece ter um valor secundário diante dos interesses geopolíticos. Lembremos do fato de que Trump já havia determinado o assassinato de cerca de 100 pessoas em barcos venezuelanos no Mar do Caribe, sob a alegação de serem narcotraficantes ligados a Maduro. Essa prática, estabelece um padrão de extermínio sem processo legal, uma licença para matar que ignora completamente os direitos humanos e a presunção de inocência. Não se trata de combater o crime, mas de eliminar "inimigos" por decreto, transformando o Caribe em um campo de execução extrajudicial. (Qualquer semelhança com as ações genocidas de Netanyahu na Faixa de Gaza não é mera coincidência).
Essa escalada de violência, que culmina no sequestro de um chefe de Estado, revela uma prática da violência sobre a lei que estabelece uma relação internacional criminosa. Não é mais uma questão de diplomacia, de negociação ou de sanções econômicas. É uma relação de gângsteres, onde a ameaça e a execução sumária são as ferramentas preferenciais. O objetivo é claro: subjugar a qualquer custo aqueles que contrariam a vontade do governo trumpista, especialmente se forem detentores de petróleo, materiais críticos, terras raras e outras riquezas de interesse norte-americano. A Venezuela, com suas vastas reservas de petróleo, torna-se um alvo óbvio, não por sua ideologia, mas por seus recursos. A "democracia" e os "direitos humanos" tornam-se meros pretextos para a pilhagem e o controle estratégico.
Essa lógica perversa transforma a política externa em uma extensão do crime organizado, onde a soberania é um obstáculo a ser removido e a vida humana, uma variável descartável. A busca por recursos naturais, a manutenção da hegemonia e a eliminação de regimes "incômodos" justificam qualquer atrocidade. O mundo assiste, atônito, a uma potência que se descola de qualquer ética ou moral, operando em uma zona cinzenta onde a força é a única lei.
A indagação central que ecoa em meio a este caos é perturbadora e urgente: "Quem vai parar Trump?" Se as instituições internacionais são ignoradas, se os aliados tradicionais se calam ou se mostram impotentes, se a opinião pública global é fragmentada e manipulada, quem terá a coragem e a capacidade de frear essa escalada de arbitrariedade? A questão não é apenas sobre um presidente ou um país, mas sobre o futuro da ordem mundial. Permitir que tais atos passem impunes é validar a barbárie, é aceitar que a lei da selva prevaleça sobre a civilidade.
A arrogância de se considerar acima de todas as leis, a covardia de atacar os mais fracos e o desrespeito à soberania alheia não são apenas falhas de caráter de um líder; são venenos que solapam a paz mundial. Eles corroem a confiança entre as nações, fomentam o ressentimento e a instabilidade, e abrem caminho para conflitos ainda maiores. Quando os Estados Unidos, uma nação que deveria ser um farol de democracia e justiça, se transformam em um inimigo da paz, agindo como um agressor unilateral e irresponsável, o mundo inteiro sofre as consequências.
É imperativo que a comunidade internacional, através de seus organismos multilaterais, de seus líderes e de sua sociedade civil, reaja com veemência e unidade. É preciso reafirmar o valor inegociável do direito internacional, da soberania dos estados e da autodeterminação dos povos. É preciso denunciar a hipocrisia de quem prega a democracia enquanto a destrói com atos de força. É preciso construir uma frente de resistência contra a tirania da força, em defesa de um mundo onde a lei, e não o poder bruto, seja o árbitro das relações entre as nações. O sequestro de um presidente, mesmo que hipotético, é um grito de alerta que não podemos ignorar. A paz mundial depende da nossa capacidade de dizer "não" à barbárie e "sim" à civilidade e ao respeito mútuo.





