BLOG DO MAURO Quarta-feira, 11 de Março de 2026, 11:43 - A | A

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O APITO DA HISTÓRIA

O triunfo do sonho de Vuolo e a redenção de Cuiabá

Mauro Camargo

O som do metal sobre o metal, que hoje ecoa nos canteiros de obras da Ferrovia Estadual Senador Vuolo, é a trilha sonora de uma promessa de meio século. Para quem observa a velocidade das máquinas da Rumo, pode parecer um projeto puramente comercial, mas para Mato Grosso, o trilho é a espinha dorsal de uma identidade política forjada na persistência. No centro dessa epopeia, um nome se agiganta: Vicente Emílio Vuolo.

Falar da ferrovia em Cuiabá sem citar o saudoso senador é como contar a história da aviação ignorando Santos Dumont. Vuolo não apenas idealizou a ligação da capital com os portos do Atlântico; ele a transformou em lei em 1976 (Lei 6.343), enfrentando o ceticismo de uma época em que o Centro-Oeste era visto como um "vazio demográfico". Sua luta, na época, foi solitária, estratégica e, acima de tudo, visionária.

A fundamentação histórica desse artigo exige o reconhecimento de que a ferrovia nunca foi uma obra de um governo só, mas de uma articulação política magistral desenvolvida pelos Vuolo. O marco físico mais emblemático dessa jornada é a Ponte Rodoferroviária Rollemberg-Vuolo, sobre o rio Paraná,  inaugurada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, Dante e Vuolo em 29 de maio de 1998. O senador Vicente Vuolo faleceu três anos depois, em 20 de maio de 2001.

Ele teve a honra de presenciar a entrega daquela que foi a maior vitória física de sua luta política, vendo os trilhos finalmente atravessarem o Rio  Paraná em direção ao solo mato-grossense.

Essa articulação atravessou décadas, passando pelo entusiasmo desenvolvimentista de Dante de Oliveira, governador tucano que viu os trilhos tocarem o solo mato-grossense em Alto Taquari.

Vicente Vuolo não viveu para ver o trem chegar ao Trevo de Santo Antônio (onde será instalado o terminal da Rumo), mas deixou o mapa traçado e o espírito de luta impregnado em seus sucessores.

O "xeque-mate" da estadualização

A história reservou para o presente o movimento que finalmente destravou o imbróglio federal. É preciso fazer justiça ao papel do governador Mauro Mendes, que teve a coragem política de realizar a estadualização da ferrovia. Ao perceber que o modelo de concessão federal estava estagnado em Brasília, Mendes buscou a alternativa da autorização estadual — um fator determinante para que o contrato com a Rumo Logística saísse do papel.

Essa manobra estratégica de Mauro Mendes foi o "combustível" que faltava para a locomotiva. Sem essa decisão de assumir a responsabilidade para o Estado, os trilhos dificilmente estariam avançando hoje rumo a Cuiabá e ao Nortão de Mato Grosso. Foi o encontro da visão histórica com a eficiência.

É preciso reconhecer, por uma questão de justiça, que foi uma decisão tomada em 2021, sob a gestão de Jair Bolsonaro e a articulação de Tarcísio de Freitas, que permitiu que Mauro Mendes tirasse do papel a primeira ferrovia estadual do Brasil; modelo de "autorização" foi a chave para destravar o investimento da Rumo.

E isso ocorreu por conta do Novo Marco Legal das Ferrovias, instituída por Medida Provisória (1.065/2021), que depois virou a Lei 14.273/2021. O novo regime jurídico permitiu que a iniciativa privada construísse e operasse trilhos por meio de autorização, sem a necessidade de uma concessão clássica e demorada.

Embora o governo federal tenha aberto a porta jurídica, foi a proatividade de Mauro Mendes que fez Mato Grosso passar por ela primeiro. O governador não esperou a tramitação completa em Brasília; ele articulou na Assembleia Legislativa a aprovação de uma Emenda Constitucional Estadual e da Lei Complementar 689/2021, criando o próprio marco regulatório de Mato Grosso. Foi o que permitiu que a Ferrovia Estadual Senador Vuolo deixasse de ser um projeto "travado" na burocracia federal para se tornar uma obra estadualizada.

A participação de tantos políticos e gestores na transformação do “sonho de Vuolo” em realidade tem inspiração não apenas na visão óbvia da importância de Mato Grosso ter um transporte multimodal eficiente, mas também na luta herdada pelos filhos de Vuolo. O que torna essa história ainda mais singular é a transferência dessa responsabilidade. Os filhos do senador, Francisco e Gleyde, não herdaram apenas um nome, mas uma missão de vida. Atuar no Fórum Pró-Ferrovia ou na articulação técnica não é, para eles , um cargo político — é o cumprimento de um dever moral com o pai e com o Estado.

Com a ferrovia, Cuiabá deixará de ser o fim da linha para se tornar um hub logístico estratégico. A chegada dos trilhos trará consigo o contêiner, a carga de retorno e a industrialização que a capital tanto persegue. O sonho de 50 anos atrás era sobre grãos, mas o triunfo de hoje é sobre competitividade. E a sociedade mato-grossense é a herdeira de um legado que, finalmente, apita na nossa porta.



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