Mato Grosso e a região da Amazônia Legal devem enfrentar um dos fenômenos climáticos mais severos deste século a partir do segundo semestre. O alerta foi dado pelo climatologista e professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rodrigo Marques, em entrevista ao Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7). O chamado "Super El Niño", caracterizado por um aquecimento das águas do Oceano Pacífico de até 3°C acima da média, promete desregular o regime de chuvas, elevar as temperaturas a patamares críticos e colocar em risco a produtividade do agronegócio regional.
O fenômeno El Niño é um evento natural registrado desde o final do século XIX, mas a intensidade prevista para o ciclo atual preocupa a comunidade científica. Segundo o professor Rodrigo Marques, o aquecimento das águas do Pacífico, que normalmente configura o fenômeno com apenas 0,5°C acima da média, pode atingir entre 2°C e 3°C neste ano. Essa anomalia térmica altera a circulação de ventos em escala global, invertendo o fluxo que tradicionalmente leva umidade para o continente sul-americano.
Na prática, a inversão térmica impede a formação de nuvens na região amazônica. "Na Amazônia, em vez de o ar quente subir, ele desce. O ar em altitudes maiores é seco, e ao descer, ele se comprime e aquece, inibindo o sistema de formação de chuvas", explica o climatologista. O resultado direto é uma seca severa na Amazônia, enquanto a região Sul do Brasil deve registrar agravamento de enchentes. Para o Centro-Oeste, a previsão é de ondas de calor frequentes e chuvas extremamente irregulares.
O setor produtivo de Mato Grosso, responsável por mais de 70% da economia estadual, é o que mais deve sentir os impactos. A irregularidade hídrica coincide com a janela de plantio da safra, período em que a germinação da semente depende de temperaturas amenas e umidade inicial. Marques recorda que em episódios anteriores, como em 2016, produtores perderam áreas inteiras por falta de monitoramento climático adequado. "Picos de calor de dois graus acima da média já dificultam a germinação. Se não houver cuidado, o pessoal pode ter que replantar tudo", adverte.
A pecuária também entra em zona de risco. Com a possibilidade de a seca se estender e emendar com a próxima estação, a qualidade do pasto tende a cair drasticamente, elevando os custos com ração e suplementação. Além disso, o estresse térmico em rebanhos criados em regime aberto pode afetar o ganho de peso dos animais.
Outro ponto crítico destacado pelo especialista é o risco de incêndios florestais. Com a matéria-prima combustível seca e a ausência de frentes frias a partir de julho, o controle de focos de calor torna-se quase impossível. O professor ressalta que, embora o Estado tenha melhorado o aparato de combate após os desastres de 2020 no Pantanal, a prevenção continua sendo a única ferramenta eficaz, especialmente diante da escassez de brigadistas em nível federal.
No ambiente urbano, a preocupação recai sobre a saúde pública. Em Cuiabá, a topografia favorece a inversão térmica, criando uma camada de ar denso que aprisiona a fumaça das queimadas próximas ao solo. "É como se você colocasse uma tampa sobre Cuiabá", compara o professor. Esse cenário agrava doenças cardiorrespiratórias, atingindo principalmente crianças e idosos. Marques reforça que a queimada urbana é crime e um dos principais fatores de poluição do ar na capital durante a estiagem.
A crise climática também deve chegar ao bolso do consumidor através das contas de energia e alimentos. A redução do nível dos reservatórios das hidrelétricas no Centro-Oeste e Norte impacta diretamente a geração de energia, pressionando a inflação. Mesmo fontes alternativas, como a solar, podem ter a eficiência reduzida devido à suspensão de partículas de fumaça na atmosfera, que bloqueiam a radiação.
Diante de uma probabilidade superior a 90% de confirmação do fenômeno, a preparação institucional e individual torna-se urgente. A tecnologia atual permite antever os riscos com precisão, restando aos setores econômicos e governamentais a adoção de estratégias de mitigação para evitar um colapso produtivo e sanitário em Mato Grosso.




