NOTICIÁRIO Quinta-feira, 30 de Julho de 2026, 18:42 - A | A

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RACHA EXPOSTO

União Brasil abdica de candidatura, barra Jayme e escolhe Pivetta

Mauro Camargo e Michely Figueiredo

Edson Rodrigues

JAYME E JULIO DERROTA

A convenção estadual do União Brasil decidiu, por 30 votos a 19 e um voto nulo, abrir mão da candidatura própria ao Governo de Mato Grosso e apoiar a reeleição do governador Otaviano Pivetta, do Republicanos. Derrotado na disputa interna, o senador Jayme Campos classificou o processo como “desigual e desonesto”, denunciou a atuação de um “rolo compressor” político e econômico e avisou que não abandonará a luta. O deputado estadual Júlio Campos reconheceu o resultado, mas afirmou que seu grupo aguardará os ânimos esfriarem antes de definir o posicionamento nas eleições de 2026.

O placar encerrou a disputa formal dentro do União Brasil, mas abriu uma crise política cujas consequências ainda não estão definidas. Enquanto Jayme fez acusações contra a condução da convenção e chamou antigos aliados de “traidores”, Júlio adotou um tom mais moderado, agradeceu aos 19 convencionais que votaram pela candidatura própria e declarou que a decisão da maioria deve ser respeitada.

A fala de Júlio, entretanto, trouxe um aviso: o grupo não assumiu compromisso automático com a candidatura de Pivetta e ainda decidirá como se comportará na campanha eleitoral.

"Agora, cabe a nós, desta militância, aguardarmos, esfriar a cabeça e decidirmos um posicionamento político com relação às eleições de 2026",  afirmou o deputado.

Partido rejeita candidatura própria

A votação representou uma derrota política para Jayme e Júlio Campos, que defendiam o lançamento de uma candidatura própria do União Brasil ao Palácio Paiaguás. A proposta vencedora, articulada pelo grupo ligado à direção estadual da legenda, autorizou o partido a participar de uma aliança com o Republicanos em torno da candidatura de Pivetta.

Dos 50 votos computados, 30 foram favoráveis ao apoio ao governador, 19 respaldaram a candidatura de Jayme e um foi declarado nulo. Em sua manifestação, Júlio Campos referiu-se a esse último voto como uma abstenção, mas confirmou o placar de 30 a 19.

A diferença de 11 votos demonstrou que a tese defendida pelo ex-governador Mauro Mendes, presidente estadual do União Brasil, conquistou uma maioria mais ampla do que a projetada pelo grupo de Jayme antes da convenção.

Júlio reconheceu a derrota e afirmou que o partido, pela maioria de seus convencionais, decidiu não apresentar candidato próprio ao Governo.

"Democracia é isso. Ganha-se ou perde-se. A gente tem que saber perder e reconhecer que, lamentavelmente, quem não quer candidatura própria é a maioria dos convencionais do nosso partido. Essa decisão tem que ser soberanamente respeitada", declarou.

A decisão estadual ainda integra o processo de deliberação da Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, instância partidária responsável pela formalização das candidaturas e alianças eleitorais.

Jayme acusa “rolo compressor”

Embora tenha afirmado que respeitaria a decisão da maioria, Jayme fez um pronunciamento marcado por críticas à organização e à condução da convenção. Segundo o senador, nunca havia presenciado um processo interno semelhante ao longo de sua trajetória eleitoral.

"Eu nunca vi, na minha vida e na minha história política, ao longo dos seis mandatos que tive, uma convenção conduzida de forma tão draconiana, desigual e desonesta", afirmou.

Jayme disse que participou de um processo democrático e que aceitava a vontade dos convencionais, mas sustentou que o resultado teria sido construído por meio da pressão do poder político e econômico.

"Prevaleceu o famoso rolo compressor. Prevaleceu, muitas vezes, o poderio econômico, com o qual eu não tinha como competir", declarou.

O senador afirmou ainda que a disputa interna não teria sido “tranquila, transparente ou republicana”. Segundo ele, acordos foram realizados “na calada da noite” e pessoas politicamente mais vulneráveis teriam sido procuradas para mudar de posição.

O senador não informou se pretende formalizar as denúncias perante a direção nacional do União Brasil, aos órgãos da federação partidária ou a Justiça Eleitoral.

Acusações de traição

O discurso deixou evidente que a divisão interna ultrapassou a divergência sobre a escolha de um candidato. Jayme afirmou que mandatos e recursos teriam sido utilizados como instrumentos de negociação política e comparou determinadas práticas a um “balcão de negócios”.

"Jayme Campos jamais vai negociar. Jayme Campos jamais vende a sua dignidade", afirmou referindo-se a si próprio na terceira pessoa.

Sem identificar nominalmente os destinatários das críticas, o senador chamou antigos aliados de “traíras” e “traidores”. Também declarou que não se ajoelhará diante de qualquer liderança e que continuará participando da luta política.

"Enganam-se os meus adversários, os traíras, os traidores. Jayme Campos nunca vai baixar a cabeça para ninguém. Nunca ficará de joelhos. Não vou me furtar à luta", declarou.

As afirmações indicam que o senador não considera encerrada sua movimentação eleitoral, embora não tenha anunciado qual caminho pretende seguir depois da derrota.

Jayme poderá permanecer no União Brasil e participar da campanha conforme a decisão partidária, recorrer às instâncias nacionais da legenda e da federação ou adotar outra posição política. Nenhuma dessas alternativas foi confirmada em seu pronunciamento.

Júlio prega respeito, mas adia decisão

Júlio Campos adotou uma posição distinta da apresentada pelo irmão. Mesmo lamentando a rejeição da candidatura própria, reconheceu a legitimidade do resultado e agradeceu aos convencionais que permaneceram com o grupo.

"Queremos agradecer, de todo o coração, aos 19 companheiros leais e amigos que estiveram militando conosco nesta jornada eleitoral de 2026", disse.

O deputado afirmou que a maioria decidiu construir uma coligação com o Republicanos e que essa vontade deve ser respeitada. Ao mesmo tempo, evitou declarar apoio pessoal a Pivetta e anunciou que o grupo avaliará os próximos passos.

A manifestação revela que o resultado da convenção definiu a posição institucional do União Brasil, mas não assegurou, até o momento, a adesão política dos irmãos Campos e de seus aliados à campanha do governador.

Esse será um dos principais efeitos a serem observados nos próximos dias. Jayme e Júlio mantêm influência sobre lideranças municipais, prefeitos, vereadores, dirigentes partidários e militantes, especialmente em Várzea Grande e em municípios nos quais a família Campos construiu sua base política.

Uma eventual neutralidade ou afastamento do grupo poderá reduzir a capacidade de mobilização do União Brasil em favor de Pivetta. Uma ruptura mais profunda poderá alterar também as negociações para o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa.

Agradecimento aos aliados

Jayme dedicou parte significativa do discurso aos aliados que sustentaram sua pré-candidatura. Agradeceu nominalmente a Júlio Campos, aos familiares e aos convencionais que votaram pela candidatura própria.

O senador afirmou que não abandona companheiros “na estrada” e disse que permanecerá ao lado daqueles que demonstraram lealdade durante a disputa.

"Faço política com lealdade, com amizade e respeitando as pessoas deste Estado".

Em outro momento, dirigiu um agradecimento especial ao deputado Dilmar Dal’Bosco. Jayme classificou o apoiador como “valoroso, corajoso e sério” e afirmou que passaria a considerá-lo como um irmão.

As manifestações de gratidão tiveram também conteúdo político: delimitaram o grupo que permaneceu com os irmãos Campos e estabeleceram a lealdade como critério para as decisões futuras.

Resultado define partido, mas não pacifica grupo

A vitória da proposta de apoio a Pivetta fortalece Mauro Mendes e mantém o União Brasil no núcleo do projeto político que governa Mato Grosso. O resultado também elimina, no âmbito estadual da legenda, uma candidatura que poderia dividir a base governista e ampliar o número de concorrentes ao Palácio Paiaguás.

A convenção, porém, não pacificou o partido. O discurso de Jayme revelou ressentimentos acumulados durante o processo e transformou uma disputa interna em um conflito aberto entre antigas lideranças do mesmo campo político.

Júlio procurou preservar o reconhecimento institucional do resultado, mas deixou claro que a manifestação das urnas partidárias não resolve automaticamente a posição eleitoral de seu grupo.

O União Brasil saiu da convenção com uma decisão formal: apoiar Otaviano Pivetta. Saiu também com uma divisão política exposta e com 19 convencionais — além dos aliados mobilizados por Jayme — ainda sem compromisso declarado com a candidatura aprovada pela maioria.

O próximo capítulo será definido pela decisão de Jayme e Júlio Campos. Por enquanto, eles reconheceram a derrota, mas não anunciaram adesão ao vencedor.

Nota de Transparência

Esta matéria foi produzida a partir do resultado proclamado na convenção estadual do União Brasil e das transcrições integrais dos pronunciamentos do senador Jayme Campos e do deputado estadual Júlio Campos após a votação.



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