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DIREITOS DAS MULHERES

Cenira Evangelista diz que 8 de março é dia de luta e cobra “mulher no poder” para frear violência

Mauro Camargo

As manifestações do 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, levaram centenas às ruas em Cuiabá e em outras cidades com uma pergunta que, segundo o movimento, não cabe mais adiar: como celebrar se mulheres seguem morrendo? Em entrevista ao Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7), a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Mato Grosso, Cenira Evangelista, avaliou que a data deve ser tratada como dia de luta e defendeu mais políticas públicas, mudança cultural e, sobretudo, mais mulheres em espaços de decisão.

Segundo Cenira, o movimento visto nas ruas é positivo porque reforça o caráter histórico do 8 de março. “Mais do que comemorar, ganhar flores, ser homenageada, parabéns, tal, tal, tal… realmente nós temos esse dia como um dia de luta. Ele surgiu assim e deve continuar assim”, disse.

Ela afirmou que os índices de violência contra a mulher, em Mato Grosso e no Brasil, mostram que a sociedade ainda está longe de uma virada efetiva. De acordo com a presidente do Conselho, apesar de avanços estruturais e institucionais, ainda é necessário “avançar no sentido da legislação” e “no sentido de políticas públicas” para que a rede de proteção funcione de forma mais robusta.

Provocada pelo tema do empoderamento e da presença de mulheres na política, Cenira disse concordar que o voto é central para mudar prioridades do Estado. Segundo ela, não é aceitável que “vocês homens decidindo por nós” continue sendo regra.

A presidente do Conselho defendeu que mulheres não sejam candidatas apenas para cumprir cota, mas para serem eleitas e ocuparem posições reais de poder — nas câmaras municipais, no Legislativo, no Senado e em outras instâncias. “Só nós vamos entender que precisamos de mais creche, precisamos de salários justos, de jornada justa”, afirmou, ao relacionar as desigualdades do cotidiano com a falta de representação feminina em espaços decisórios.

Ao mesmo tempo, a entrevista também registrou uma ponderação trazida por ouvintes e pelos apresentadores: não basta ser mulher para defender pautas das mulheres. Cenira concordou que há “homem feminista” e que o eleitorado precisa avaliar quem, de fato, atua em defesa de direitos. Segundo ela, quando mulheres eleitas recuam em temas como combate ao assédio e à violência, isso frustra expectativas e exige correção na urna.

Cenira explicou que o Conselho é um órgão deliberativo e consultivo, composto por representantes da sociedade e do governo, e que acompanha ações e indicadores. Segundo ela, o Conselho participa, inclusive, da Câmara de Segurança Pública do Estado, onde observa dados, tipos de violência e recortes como faixa etária.

De acordo com a presidente, existe uma rede de enfrentamento em Cuiabá e no Estado, e o esforço atual é institucionalizar essa rede para torná-la mais forte. Ela citou ações como blitz noturnas, mas ponderou que o processo de mudança é lento e ainda está “em construção”.

Cenira disse avaliar como positivo o fato de o governo ter criado estruturas voltadas às políticas para mulheres, citando a secretaria adjunta, superintendência e coordenadoria. Na entrevista, ela também mencionou a criação recente de um gabinete de políticas para mulheres, aprovado, segundo ela, na Assembleia Legislativa.

Questionada sobre críticas de que a criação do gabinete poderia ter viés eleitoral, Cenira sustentou que a estrutura seria resultado de reivindicações das conferências de políticas para as mulheres, apontando que o pedido teria vindo “da base do movimento” e de debates realizados no ano conferencial.

Um dos pontos mais duros da entrevista foi a avaliação sobre casos de violência política de gênero contra prefeitas em Mato Grosso.

Cenira citou o episódio envolvendo a prefeita de Pedra Preta, Iraci Ferreira, alvo de ofensas misóginas por parte de um vereador, então presidente da Câmara. Segundo a presidente do Conselho, a situação provocou indignação na cidade, mobilizou manifestações e teve repercussão nacional. “Olha que desrespeito”, afirmou.

Ela também mencionou um caso semelhante em Araputanga, envolvendo a prefeita Celoir, que teria procurado apoio institucional, “pedindo, entre aspas, socorro”, segundo as palavras de Cenira. Para ela, episódios assim envergonham quando partem de agentes públicos e mostram que o ataque político às mulheres também é um mecanismo de silenciamento.

Cenira ainda relatou que a prefeita de Araputanga teria dito sentir necessidade de adaptar vestimenta e postura para se sentir mais segura em determinados ambientes — algo que, segundo a presidente do Conselho, evidencia cerceamento e perda de liberdade.

Além dos casos explícitos, Cenira destacou uma forma de violência que, segundo ela, muitas vezes não é percebida: o silenciamento de gênero.

Ela descreveu situações em que mulheres são ignoradas em reuniões de trabalho, têm opiniões desconsideradas e veem a interlocução ser direcionada apenas a homens. Relatou um episódio em que ela e uma colega circularam por um espaço de poder e foram “invisibilizadas” diante de um homem com representação institucional, sem que ele percebesse de imediato o que estava acontecendo.

Segundo Cenira, o caráter “sutil” desse silenciamento faz com que a sociedade normalize humilhações pequenas e frequentes, que se acumulam e ajudam a sustentar desigualdades maiores.

Na avaliação de Cenira, o enfrentamento precisa apostar na prevenção. Ela citou a Lei Maria da Penha e afirmou que as escolas devem trabalhar o tema de forma preventiva, nas comunidades e nas famílias. Segundo ela, atuar com crianças e adolescentes — meninos e meninas — é o caminho para gerar outra realidade nas próximas gerações.

“Homens de Respeito, Respeitam”: campanha do Laço Branco

Cenira também falou sobre a campanha “Homens de Respeito, Respeitam”, inspirada no movimento do Laço Branco, que surgiu, segundo ela, no Canadá após um caso de violência contra mulheres.

De acordo com a presidente do Conselho, Mato Grosso avançou ao institucionalizar a pauta, com a criação da Lei do Laço Branco, com data em 10 de dezembro, e uma resolução do Conselho que dá respaldo para ações ao longo do ano, buscando envolver homens no enfrentamento da violência.

 



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