Pertencer é uma necessidade humana. O problema começa quando a sensação de ser aceito, reconhecido ou valorizado passa a depender de curtidas, seguidores, produtos, padrões de consumo ou da aprovação de grupos virtuais. Para a psicóloga Hélia Parente, a dinâmica das redes sociais pode explorar justamente o lado mais emocional e impulsivo das pessoas, favorecendo decisões que vão do consumo desnecessário ao endividamento e, em situações mais graves, à adesão a grupos violentos.
A avaliação foi feita durante entrevista ao Papo com Ela, ao discutir a relação entre pertencimento, redes sociais, consumo e saúde mental. O alerta ganha dimensão ainda maior diante da realidade financeira das famílias de Mato Grosso. Em Cuiabá, 83,3% das famílias estavam endividadas em julho de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada pela Fecomércio-MT. São aproximadamente 208,9 mil famílias nessa condição. No mesmo período, a inadimplência subiu de 15,6% para 16,3%.
Os números não permitem atribuir o endividamento ao consumo motivado por redes sociais. Mas ajudam a dimensionar o contexto em que a psicóloga faz o alerta: o desejo de acompanhar padrões de consumo e demonstrar pertencimento pode se transformar em uma pressão adicional sobre o orçamento.
A compra que começa antes mesmo da necessidade
Segundo Hélia, o pertencimento faz parte da própria condição humana. As pessoas procuram grupos com os quais possam compartilhar valores, gostos, pensamentos e comportamentos. O problema, explica, surge quando a lógica das redes sociais transforma essa necessidade em oportunidade permanente de consumo.
“Será que eu preciso daquilo?”, questiona a psicóloga.
Na avaliação dela, o ambiente digital consegue atingir rapidamente o lado emocional e impulsivo do indivíduo. É nesse momento que a decisão racional, isto é, avaliar se determinado produto é necessário, se cabe no orçamento e se atende a uma necessidade real, pode ser deixada de lado.
A comparação também pesa. A pessoa vê o que o vizinho, o amigo ou o influenciador possui e passa a interpretar aquele padrão como algo que também precisa ter para se sentir incluída.
É uma dinâmica particularmente poderosa porque as plataformas digitais oferecem estímulos contínuos. A publicidade aparece misturada ao entretenimento, à opinião de amigos e aos conteúdos produzidos por influenciadores.
Para Hélia, desenvolver autoconhecimento e consciência sobre os próprios impulsos é uma das formas de interromper esse ciclo.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas “eu quero isso?”, mas também “de onde vem esse desejo?”
“Estamos conectados, mas pouco vinculados”
Para Hélia, entretanto, a questão vai muito além do dinheiro. A psicóloga estabelece uma diferença entre conexão e vínculo. As redes sociais proporcionam conexão instantânea. É possível acompanhar centenas ou milhares de pessoas, receber curtidas e participar de comunidades digitais. Mas isso não significa, necessariamente, construir relações profundas. “Nós estamos muito conectados, mas poucos vinculados”, resume.
O vínculo, segundo ela, exige presença, afeto, diálogo e investimento emocional. Ele é construído dentro da família, da escola, de grupos esportivos, comunidades religiosas e outros espaços de convivência. Quando essas estruturas ficam fragilizadas, a rede social pode ocupar o espaço deixado pela ausência de vínculos.
E ali a recompensa é imediata. Uma curtida representa reconhecimento; uma nova postagem oferece estímulo; um comentário pode produzir a sensação de que alguém está olhando para aquela pessoa. A própria estrutura das plataformas contribui para essa dinâmica. O usuário pode continuar deslizando o conteúdo indefinidamente, recebendo novos estímulos sem precisar interromper a experiência.
As três “fomes” que podem ser exploradas
Na entrevista, Hélia apresenta três necessidades humanas que ajudam a explicar o comportamento:
Fome de estímulo: busca por novidades, experiências e movimento;
Fome de reconhecimento: necessidade de ser valorizado, visto e considerado importante;
Necessidade de ocupar o tempo: busca por atividades e experiências que deem sentido à rotina.
Segundo a psicóloga, família, escola, comunidade e outros ambientes de convivência deveriam ajudar a atender essas necessidades de maneira saudável. Quando isso não acontece, as redes sociais podem oferecer uma resposta rápida. O problema é que essa satisfação pode ser superficial e temporária.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) também chama atenção para esse equilíbrio. Especialistas ouvidos pela organização destacam que as redes sociais podem oferecer conexão e oportunidades de relacionamento, mas também podem se tornar prejudiciais quando substituem atividades importantes para o desenvolvimento, como sono adequado, atividade física, estudos e convivência presencial.
A comparação com uma vida que não existe inteira
Um dos exemplos apresentados por Hélia durante a entrevista veio de sua experiência clínica. Ela relata ter atendido uma mulher que sofria ao comparar a própria vida com a de uma vizinha de um condomínio de alto padrão. A paciente via nas redes sociais viagens frequentes da vizinha, inclusive para Paris, e se perguntava por que precisava trabalhar tanto enquanto a outra aparentemente desfrutava de uma vida muito mais confortável.
O processo terapêutico, segundo a psicóloga, passou por uma pergunta simples: Que vínculo aquela mulher realmente tinha com a vizinha para conhecer a realidade dela? A reflexão revela um dos problemas centrais das redes. O usuário não acompanha uma vida inteira. Acompanha recortes.
Uma viagem. Uma festa. Um restaurante. Uma compra. Uma conquista. O fracasso, a dívida, a solidão, os conflitos familiares ou as dificuldades emocionais normalmente ficam fora do enquadramento.
O UNICEF recomenda justamente que adolescentes sejam estimulados a refletir sobre o motivo pelo qual recorrem às redes e sobre como se sentem durante e depois desse uso. A organização também alerta para a influência dos algoritmos na seleção do conteúdo apresentado aos usuários.
Quando o pertencimento negativo entra em cena
A necessidade de pertencer, porém, não se limita ao consumo. Na entrevista, Hélia chama atenção para um fenômeno ainda mais grave. A possibilidade de jovens encontrarem reconhecimento em grupos que adotam comportamentos violentos.
Na adolescência, a identidade ainda está em construção. A busca por novidade, desafio e reconhecimento pode ser combinada com a necessidade de ser aceito por determinado grupo. É nesse contexto que a psicóloga relaciona a busca por pertencimento à adesão a desafios perigosos, atos de violência e até à aproximação de facções criminosas.
Segundo a especialista, quando organizações criminosas passam a representar poder, respeito e status dentro de determinados territórios, podem acabar ocupando, para alguns jovens, o lugar de referência e admiração que deveria ser preenchido por vínculos sociais mais saudáveis.
O ponto, ressalta a psicóloga, não é dizer que a necessidade de pertencimento explica sozinha a entrada de um adolescente no crime. Trata-se de um fenômeno complexo, influenciado por fatores sociais, familiares, econômicos, territoriais e individuais. Mas o pertencimento pode ser uma peça importante desse processo.
Pertencer a qualquer custo pode fragilizar a identidade
Para Hélia, quando a pessoa passa a depender excessivamente da validação externa, surge uma consequência ainda mais profunda. A fragilização da própria identidade. “Quem eu sou?”, passa a ser uma pergunta difícil de responder.
A psicóloga relaciona identidade a valores, pensamentos, sentimentos e comportamentos. Quando esses referenciais são substituídos pela necessidade constante de aprovação, a pessoa pode começar a viver de acordo com aquilo que o grupo espera dela. Isso pode alimentar comparação, ansiedade, tristeza e sensação de insuficiência.
Dados do UNICEF ajudam a dimensionar a preocupação com a saúde mental entre os jovens brasileiros. Em levantamento divulgado pela organização, 48% dos adolescentes e jovens brasileiros disseram sentir-se frequentemente nervosos, preocupados ou ansiosos, enquanto 22% afirmaram sentir-se frequentemente deprimidos ou sem vontade de realizar atividades cotidianas.
Mais recentemente, Ministério da Saúde e UNICEF ampliaram a capacidade do canal Pode Falar, voltado ao atendimento de adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. A capacidade mensal passou de mil para 11 mil atendimentos.
O algoritmo pode preencher o vazio?
A psicóloga também chama atenção para o papel dos algoritmos na formação de comunidades e visões de mundo. Quanto mais uma pessoa pesquisa, curte ou compartilha determinado conteúdo, mais tende a receber materiais semelhantes. Isso pode criar uma espécie de ambiente informacional personalizado.
O resultado pode ser positivo quando aproxima pessoas com interesses legítimos ou problemático, quando reforça comportamentos prejudiciais, discursos de ódio ou práticas violentas. Por isso, Hélia defende que o combate aos efeitos negativos das redes não deve ser responsabilidade exclusiva do indivíduo.
A saída passa pelo coletivo
Para a psicóloga, mudar um padrão de pertencimento negativo é possível, mas exige um trabalho conjunto. Família, escola, comunidades, instituições religiosas, profissionais de saúde e políticas públicas precisam atuar de maneira integrada.
Não basta simplesmente retirar o celular das mãos de um adolescente se não houver, no lugar, oportunidades reais de convivência, reconhecimento, desafio, afeto e construção de identidade.
O desafio, portanto, não é acabar com as redes sociais. É impedir que elas se tornem o principal lugar onde uma pessoa procura aquilo que deveria encontrar em vínculos reais.
A internet pode informar, aproximar, educar e criar comunidades. Mas, como resume a reflexão trazida por Hélia Parente ao Papo com Ela, pertencimento saudável não se mede pelo número de curtidas. Ele se constrói pela qualidade dos vínculos.
Assista à entrevista na íntegra






