Duas mulheres foram assassinadas durante uma confraternização no distrito de Cangas, em Poconé, na madrugada desta quinta-feira (13). Maria Helena do Carmo e Cleidineia Eucaris da Costa, ambas agentes comunitárias de saúde, foram atacadas a golpes de faca. Um homem também ficou ferido.
O suspeito preso pela polícia é ex-marido de Maria Helena. As circunstâncias ainda estão sob investigação e não havia, até o fechamento desta reportagem, confirmação pública sobre eventual boletim de ocorrência anterior, medida protetiva ou comunicação de ameaças contra ele.
Essas respostas são essenciais para reconstruir o crime. Permitem saber se a violência surgiu sem registro anterior conhecido ou se houve sinais que não foram identificados, compartilhados ou acompanhados pelas instituições.
O assassinato de mulheres por companheiros ou ex-companheiros raramente começa no momento do ataque. Em geral, é precedido por controle, humilhação, ameaça, perseguição, agressão, isolamento e inconformismo com o fim do relacionamento.
Dados do Tribunal de Justiça mostram que quase 80% dos feminicídios registrados em Mato Grosso em 2025 foram cometidos por parceiros íntimos. O Estado contabilizou mais de 50 mortes no período, com crescimento em relação ao ano anterior.
Entre janeiro e maio de 2026, foram registradas 8.053 ocorrências de ameaça contra mulheres, 4.120 casos de lesão corporal e 2.953 de injúria. As denúncias de violência psicológica cresceram 40%, enquanto os registros de descumprimento de medidas protetivas aumentaram 26%.
Os números mostram dois desafios distintos. O primeiro é convencer a mulher de que ameaça, vigilância e controle também são violência e de que procurar ajuda pode impedir uma escalada. O segundo é garantir que a proteção funcione depois da denúncia.
Entre 2019 e 2025, 288 das 316 vítimas de feminicídio analisadas pelo Judiciário estadual não haviam procurado ajuda. O dado demonstra que a maior parte das mortes ocorre fora do alcance formal da rede, frequentemente porque a vítima não reconhece o risco, teme represálias, depende economicamente do agressor ou acredita que ele mudará.
Isso não transfere à mulher a responsabilidade por sua morte. Cabe à sociedade e ao Estado oferecer canais acessíveis, acolhimento, segurança financeira e respostas capazes de tornar a denúncia menos perigosa que o silêncio.
A rede começa a falhar quando a ameaça é tratada como desentendimento doméstico; quando perseguição e ciúme são confundidos com afeto; quando familiares se calam; quando o atendimento desacredita a vítima; ou quando os órgãos não compartilham informações sobre o agressor.
Também falha quando uma medida judicial existe apenas no papel. A ordem de afastamento precisa ser acompanhada por avaliação de risco, fiscalização, monitoramento eletrônico quando necessário e reação rápida ao descumprimento.
Mato Grosso concedeu 18.223 medidas protetivas em 2025. Até 26 de maio deste ano, outras 7.491 haviam sido registradas. A proteção alcança milhares de mulheres, mas o aumento de violações mostra que a decisão judicial precisa estar ligada a uma capacidade real de resposta.
O aplicativo SOS Mulher MT permite registrar ocorrência e solicitar medida protetiva. Para mulheres já protegidas judicialmente, o botão do pânico virtual pode acionar a Polícia Militar em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e Rondonópolis. O dispositivo físico associado à tornozeleira do agressor pode ser utilizado em todo o Estado, mediante decisão judicial.
A limitação territorial do botão virtual revela uma desigualdade importante. Mulheres que vivem em cidades menores ou áreas rurais enfrentam distâncias, efetivos reduzidos e maior dificuldade para acessar delegacias, abrigos e atendimento especializado.
A rede de enfrentamento está presente em cerca de 110 dos 142 municípios mato-grossenses. A cobertura de 75% representa avanço, mas deixa uma parcela do Estado sem a mesma estrutura de prevenção.
Os crimes de Poconé precisam ser apurados individualmente, sem conclusões antecipadas. Ao mesmo tempo, não podem ser tratados apenas como mais duas ocorrências policiais.
Cada morte exige perguntas anteriores ao ataque: havia ameaça? O rompimento era recente? O agressor perseguia ou controlava a vítima? Alguém sabia? Houve pedido de ajuda? Qual resposta foi oferecida?
O projeto Amor Sem Medo, do Nossa República, parte de um princípio simples: ciúme, controle, vigilância e medo não são manifestações de amor. Reconhecer esses sinais antes da violência física é uma tarefa de famílias, escolas, serviços de saúde, empresas, polícias e Justiça.
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 180. Em situação de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo 190. A mulher também pode procurar delegacias, Ministério Público, Defensoria Pública e os serviços municipais de assistência social.
Romper o silêncio é fundamental. Mas a responsabilidade não termina na denúncia. Quando uma mulher pede ajuda, o Estado precisa chegar antes do agressor.
Nota de Transparência
A reportagem integra o projeto Amor Sem Medo. As informações sobre o crime em Poconé foram obtidas em registros preliminares da ocorrência e em reportagens locais; a investigação permanece em andamento.
Os dados e orientações foram confrontados com publicações do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, do Portal Cemulher e com informações oficiais sobre medidas protetivas e o aplicativo SOS Mulher MT. Não foi afirmado que as vítimas de Poconé possuíam medida protetiva ou haviam denunciado anteriormente, porque essa informação ainda não foi confirmada oficialmente.






