#PAPO COM ELA Sábado, 15 de Agosto de 2026, 12:27 - A | A

Sábado, 15 de Agosto de 2026, 12h:27 - A | A

SAIBA IDENTIFICAR

Os quatro cavaleiros que podem anunciar o fim de um relacionamento

Michely Figueiredo

Papo com Ela

thais juchem

O Brasil registrou 428.301 divórcios em 2024. O número representa uma queda de 2,8% em relação ao ano anterior, mas mantém o país diante de uma realidade em que centenas de milhares de relacionamentos são oficialmente encerrados todos os anos. A taxa geral foi de 2,7 divórcios para cada mil brasileiros com 20 anos ou mais, enquanto o tempo médio de duração dos casamentos caiu para 13,8 anos. 

Mas o que acontece antes de um relacionamento chegar ao fim?

Para a psicóloga Thais Juchem, muitas vezes a resposta está menos em uma grande crise isolada e mais em pequenos padrões de comunicação que se repetem até transformar o conflito em uma espécie de ciclo automático. São eles que a ciência dos relacionamentos popularizou como “os quatro cavaleiros do apocalipse”: crítica, defensividade, desprezo e obstrução — também chamada de stonewalling.

A expressão foi criada pelo psicólogo americano John Gottman, a partir de décadas de pesquisas sobre casais. A metáfora faz referência aos quatro cavaleiros do Apocalipse descritos no Novo Testamento, mas, no campo dos relacionamentos, representa quatro formas de comunicação associadas à deterioração da relação. 

E há uma ressalva fundamental. Ter um desses comportamentos ocasionalmente não significa que um casamento esteja condenado. A própria abordagem de Gottman trata os cavaleiros como padrões que precisam ser identificados e substituídos por comportamentos mais saudáveis. 

Papo com Ela

quatro cavaleiros

 

O primeiro cavaleiro: quando a reclamação vira ataque

Reclamar de algo que incomoda o casal não é, por si só, um problema. A diferença está na forma como a insatisfação é apresentada. Segundo Thais, a crítica aparece quando a pessoa deixa de falar sobre um comportamento específico e passa a atacar a personalidade do parceiro.

É a diferença entre dizer: “Eu gostaria que, quando você lavasse a louça, também limpasse o fogão.” E: “Você é porco. Você nunca faz nada direito.”

Na primeira frase, existe uma reclamação sobre uma situação concreta. Na segunda, há um julgamento sobre quem a outra pessoa é.

Essa distinção também aparece na pesquisa de Gottman. Uma queixa aborda uma situação ou comportamento específico, enquanto a crítica transforma o problema em um ataque ao caráter do parceiro. 

Palavras como “sempre” e “nunca” costumam alimentar esse mecanismo. “Você nunca me ajuda.” “Você sempre faz isso.” “Você nunca pensa em mim.” O problema é que, quando alguém se sente atacado, a tendência seguinte pode ser tentar se proteger. E aí entra o segundo cavaleiro. 

O segundo cavaleiro: a defensividade

A crítica frequentemente encontra como resposta a defensividade. É quando, diante de uma reclamação, a pessoa imediatamente procura uma justificativa, assume o papel de vítima ou devolve a acusação. “Mas eu fiz um monte de coisas.” “E você? Você também nunca faz isso.” “Eu só cheguei atrasado porque você…”

Segundo Thais, a defensividade cria uma espécie de jogo de pingue-pongue: um acusa, o outro rebate; o segundo contra-ataca, o primeiro responde novamente. O conflito deixa de ser sobre a louça, o atraso, o dinheiro ou a mensagem que não foi respondida. Passa a ser sobre quem tem razão.

Na metodologia de Gottman, o antídoto para a defensividade é assumir responsabilidade pela própria parcela do problema, ainda que ela seja pequena. Isso não significa aceitar uma culpa que não existe. Significa reconhecer a própria participação.

“É verdade, eu cheguei atrasado e deveria ter avisado. Desculpa.” A explicação pode vir depois. Primeiro, vem o reconhecimento.

Quando a irritação vira desprezo

O terceiro cavaleiro é considerado particularmente destrutivo. O desprezo aparece quando a comunicação passa a carregar superioridade, desrespeito, sarcasmo, ridicularização, insultos ou gestos de desvalorização, como revirar os olhos diante do que o parceiro diz.

É quando o problema deixa de ser: “Eu não gostei do que você fez.”  E passa a assumir uma mensagem semelhante a: “Você é inferior a mim.”

Para Gottman, o desprezo é o comportamento mais associado ao risco de divórcio entre os quatro cavaleiros. O instituto o classifica como o maior preditor individual de divórcio identificado em sua pesquisa. E é justamente nesse ponto que a relação pode começar a perder algo fundamental: a admiração pelo outro.

Thais explica que, quando o casal acumula conflitos e mágoas sem reparação, começa a enxergar predominantemente aquilo que está errado. As pequenas coisas positivas deixam de ser percebidas. O antídoto, segundo ela, é construir uma cultura de carinho, respeito e apreciação.

“Obrigado.” “Isso foi importante para mim.” “Eu gostei do que você fez.” “Eu reconheço o seu esforço.” São frases aparentemente simples, mas que funcionam como depósitos em uma espécie de conta emocional do casal.

O quarto cavaleiro: quando alguém constrói uma muralha

O último dos quatro padrões é a obstrução, ou stonewalling. É quando uma pessoa se desengaja emocionalmente da conversa. Pode parar de responder, ficar em silêncio, desviar o olhar, sair do ambiente ou simplesmente permanecer fisicamente presente, mas emocionalmente distante.

Thais explica que nem sempre esse comportamento significa falta de interesse. Em determinadas situações, a pessoa pode estar fisiologicamente sobrecarregada pelo conflito.

O organismo entra em um estado de alerta, associado à resposta de luta ou fuga, e a capacidade de ouvir, processar informações e encontrar soluções diminui. A própria pesquisa de Gottman relaciona o stonewalling ao estado de sobrecarga fisiológica, recomendando uma pausa antes da retomada da conversa. 

Por isso, uma frase pode ser muito mais saudável do que bater a porta: “Eu não estou conseguindo continuar essa conversa agora. Preciso me acalmar e depois a gente retoma.”

A diferença está em interromper a discussão sem abandonar o relacionamento.

Não é uma sentença de divórcio

Aqui está talvez a parte mais importante da conversa com a psicóloga. Os quatro cavaleiros não devem ser interpretados como uma espécie de teste capaz de determinar se um casal vai ou não se divorciar.

Gottman e seus colaboradores encontraram associações importantes entre determinados padrões de interação e a estabilidade dos relacionamentos. Em estudos longitudinais, o conjunto de medidas utilizado pelos pesquisadores — que incluía os quatro cavaleiros, fisiologia e outras variáveis — apresentou capacidade média superior a 90% para distinguir padrões associados ao divórcio em determinados estudos.

Isso significa dizer que comportamentos são sinais de risco, não sentença. E essa diferença é essencial.

A boa notícia é que a teoria não termina no diagnóstico do problema. Para Thais, cada padrão pode ser substituído por uma resposta mais saudável. 

A própria metodologia de Gottman propõe substituir os quatro padrões por comportamentos construtivos, em vez de simplesmente tentar “parar de brigar”. 

Casal feliz não é casal sem conflito

Um dos pontos levantados pela psicóloga desmonta uma ideia bastante comum sobre relacionamentos. Um casal saudável não é necessariamente aquele que nunca discorda.

Pessoas que cresceram em famílias diferentes, têm personalidades diferentes, expectativas diferentes e necessidades diferentes inevitavelmente terão conflitos.

O que muda é a maneira como lidam com eles.

Na entrevista, Thais chama atenção para uma distinção importante. Conflito não é sinônimo de briga. É possível discordar sem humilhar. É possível reclamar sem atacar. É possível reconhecer um erro sem transformar a conversa em uma disputa. E é possível fazer uma pausa sem transformar o silêncio em punição.

A reparação pode ser mais importante que a perfeição

Talvez nenhum casal consiga eliminar completamente os quatro cavaleiros. A própria psicóloga reconhece que todos nós, em algum momento, podemos ser críticos, defensivos, desdenhosos ou nos fechar diante de um conflito.

O diferencial estaria na capacidade de perceber, reparar e tentar novamente. “Eu errei.” “Não deveria ter falado dessa forma.” “Desculpa.” “Eu estava nervoso, mas isso não justifica o que fiz.”

A reparação interrompe a lógica de que uma discussão precisa terminar com um vencedor. E transforma o relacionamento em um espaço onde ambos podem reconhecer falhas sem que isso represente uma derrota.

O assunto também ultrapassa a relação entre duas pessoas. Crianças observam como os adultos lidam com divergências. Um ambiente em que críticas, insultos, desprezo e silêncio hostil são frequentes pode oferecer um modelo de relacionamento que será posteriormente reproduzido.

Na entrevista, Thais chama atenção justamente para esse aprendizado pelo exemplo. A criança pode não saber explicar o que está acontecendo, mas aprende o que é “comum” dentro de uma relação. Isso não significa que toda discussão diante dos filhos produzirá danos ou que pais precisam construir uma casa sem qualquer conflito.

O aprendizado pode estar justamente em mostrar que conflitos podem ser reparados.

O “banco emocional” do relacionamento

Uma das metáforas mais interessantes trazidas pela psicóloga é a da conta bancária. Se os conflitos representam saques, carinho, reconhecimento, atenção, presença e gratidão funcionam como depósitos.

Um relacionamento não pode viver apenas dos momentos em que nada está acontecendo. É preciso alimentar deliberadamente os vínculos. Um jantar. Um cinema. Uma conversa sem celular. Um abraço. Um “obrigado”. Um “eu vejo o quanto você está se esforçando”. Um elogio que não venha acompanhado de um “mas”.

São pequenos gestos que ajudam a construir aquilo que Thais chama de uma poupança emocional.

E quando o relacionamento já está muito machucado?

Ainda é possível reconstruir? Segundo a psicóloga, sim. Mas isso não significa que seja fácil. Quando determinados padrões são repetidos durante anos, eles se tornam respostas automáticas. Por isso, mudar exige autopercepção, prática e, em alguns casos, acompanhamento profissional.

A terapia de casal pode ser uma ferramenta nesse processo, especialmente quando os dois estão dispostos a participar. O primeiro passo, porém, não é olhar para o parceiro e identificar qual é o cavaleiro dele. É olhar para si.

A mudança começa quando o “você faz” dá lugar ao “eu percebo”.

Amor também exige responsabilidade

A conversa do Papo com Ela termina em uma reflexão que vai além dos quatro cavaleiros. Em uma sociedade em que relacionamentos são frequentemente tratados como produtos substituíveis, se não funciona, parte-se para o próximo, existe o risco de confundir liberdade de escolha com incapacidade de enfrentar conflitos.

Mas também é preciso fazer uma ressalva: preservar um relacionamento não significa permanecer em uma relação abusiva ou violenta.

Conflito conjugal é uma coisa. Violência é outra.

Controle, isolamento, medo, ameaças, agressões físicas, violência sexual, violência patrimonial ou psicológica não devem ser tratados como simples “problemas de comunicação” que o casal precisa resolver sozinho. Nesses casos, a prioridade é segurança e proteção.

A própria entrevista que deu origem a esta reportagem faz esse alerta. Nem toda violência é visível e comportamentos de controle e isolamento podem anteceder agressões mais evidentes.

Os quatro cavaleiros, portanto, não são uma profecia sobre o fim do amor. São um convite para prestar atenção antes que a comunicação se transforme em uma guerra permanente.

Assista à entrevista completa: 



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