A beatificação do missionário italiano Nazareno Lanciotti, realizada neste sábado (13), em Jauru (425 km de Cuiabá), entrou para a história da Igreja Católica em Mato Grosso. Reconhecido como mártir da fé pelo Vaticano, o sacerdote tornou-se o primeiro beato ligado ao Estado, em uma cerimônia que reuniu milhares de fiéis, autoridades civis e religiosas e projeta o município como um novo destino de peregrinação religiosa no país.
A celebração foi presidida pelo cardeal Dom João Braz de Aviz, enviado do Vaticano para representar o Papa Leão XIV. O momento mais aguardado ocorreu com a leitura da Carta Apostólica que oficializou a beatificação.
“Concedemos que o venerável servo de Deus, Nazareno Lanciotti, mártir, missionário infatigável do Evangelho, fundador fecundo de obras de caridade social e promotor dedicado do culto mariano, seja doravante chamado Beato”, proclamou o cardeal diante da multidão.
Um dia depois da cerimônia, neste domingo (14), durante a oração do Angelus na Praça São Pedro, no Vaticano, o Papa Leão XIV destacou a beatificação ocorrida em Mato Grosso e recordou o legado do sacerdote.
“Ele também foi mártir porque, em nome do Evangelho, defendia os mais pobres”, afirmou o pontífice.
Quem foi o padre Nazareno
Natural de Roma, na Itália, Nazareno Lanciotti chegou a Mato Grosso em 1972 como missionário e fixou residência em Jauru, onde fundou a Paróquia Nossa Senhora do Pilar e desenvolveu um amplo trabalho de evangelização e assistência social.
Ao longo de quase três décadas, criou escolas, projetos sociais, unidades de atendimento à população vulnerável e obras voltadas ao acolhimento de idosos e pessoas em situação de fragilidade.
Sua atuação também foi marcada por denúncias contra crimes como exploração sexual de menores, tráfico de drogas e outras atividades ilícitas que atingiam a região.
Em fevereiro de 2001, o sacerdote foi baleado dentro da própria residência paroquial. Ele morreu dias depois, aos 61 anos. Após investigações conduzidas pela Igreja Católica, o Vaticano reconheceu que sua morte ocorreu por ódio à fé, condição necessária para o reconhecimento do martírio.
Jauru passa a integrar rota de peregrinação
Além do significado religioso, a beatificação abre uma nova perspectiva para Jauru. A expectativa da Igreja é de que o município receba um número crescente de peregrinos nos próximos anos, fortalecendo o turismo religioso na região oeste de Mato Grosso.
Segundo o padre Diogo Monteiro, da Arquidiocese de Cuiabá, a cidade já atraía visitantes por causa da história do missionário e da espiritualidade mariana difundida por ele. “Com a beatificação e com as relíquias do beato preservadas aqui, a tendência é que esse movimento cresça ainda mais”, afirmou.
Entre os locais que integram o circuito religioso estão a Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, onde estão os restos mortais do beato, o Memorial Beato Nazareno Lanciotti, o Santuário Imaculado Coração de Maria, o Hospital Nossa Senhora do Pilar, o Lar dos Velhinhos Imaculado Coração de Maria e outros espaços ligados à trajetória do sacerdote.
Legado social permanece vivo
Durante a celebração, Dom João Braz de Aviz destacou que o reconhecimento concedido pela Igreja não se limita ao aspecto religioso.
“Se a gente olha Jauru quando ele chegou e o que é hoje, pode notar não apenas o crescimento da Igreja, mas também o crescimento humano e social proporcionado por ele”, afirmou.
O legado permanece vivo entre os moradores que conviveram com o sacerdote. Um deles é Adilson Barbosa dos Santos, conhecido como Pio, que foi coroinha de padre Nazareno e atualmente atua como ministro da Igreja Católica.
“Tudo o que existe aqui na igreja, o asilo e tantas obras têm a marca dele. Ele doou a vida por esta cidade”, recordou.
Próximo passo é a canonização
A beatificação representa uma das etapas mais importantes do processo de reconhecimento da santidade pela Igreja Católica. Para que Nazareno Lanciotti seja canonizado e declarado santo, será necessário o reconhecimento oficial de um milagre atribuído à sua intercessão após a beatificação.
A expectativa dos fiéis é que a devoção popular ao novo beato cresça ainda mais nos próximos anos, fortalecendo a causa de canonização e consolidando Jauru como um dos principais centros de peregrinação religiosa do Centro-Oeste brasileiro.







