Mato Grosso assiste, estarrecido, a uma metamorfose cruel no perfil da violência contra a mulher. O que antes era restrito ao ambiente doméstico e ao machismo atávico, agora transborda para as planilhas do crime organizado. Dados do Anuário da Mulher de Mato Grosso 2025 acendem um alerta vermelho: a segunda maior causa de mortes de mulheres no estado — atrás apenas do feminicídio clássico — é a execução sumária determinada por facções criminosas.
Em entrevista concedida ao Jornal da Cultura (CULTURA FM 90.7), o cientista político e professor João Edison traçou um diagnóstico sombrio sobre as raízes dessa crise. Para o especialista, Mato Grosso tornou-se um campo fértil para a violência ancestral que, agora, se profissionaliza sob a lógica empresarial das organizações criminosas.
João Edison utiliza uma analogia didática para explicar a complexidade do crime organizado no Brasil: a de uma grande rede de supermercados. Segundo ele, o crime opera com uma hierarquia rígida e inteligência estratégica que, muitas vezes, supera a capacidade de resposta do Estado.
"O crime organizado é uma empresa. O acionista está na Faria Lima ou, em alguns casos, dentro do Congresso Nacional. Eles não chegam na ponta. Quem opera, quem resolve o problema no caixa ou na reposição de gôndolas, é quem está aqui embaixo", explica o professor. Nessa estrutura, a mulher deixou de ser apenas uma vítima colateral para se tornar o "maior foco do crime organizado para práticas menores".
A vulnerabilidade social, potencializada por uma migração de excluídos que buscam em Mato Grosso o poder e o dinheiro que lhes foram negados em seus estados de origem, empurra mulheres para a base dessa pirâmide. Elas são cooptadas para atuar na logística — o transporte de drogas e a comunicação com presídios —, ocupando funções que o crime considera "estratégicas" por, teoricamente, atraírem menos suspeitas da fiscalização.
A investigação sobre o assassinato de mulheres em Mato Grosso revela um padrão: o "tribunal do crime". João Edison ressalta que, no ambiente das facções, a informação é o ativo mais valioso e o segredo é a alma do negócio. "Quem detém a informação sozinho é melhor. Quando uma mulher, muitas vezes por relações familiares, deixa vazar algum detalhe para fora do núcleo criminoso, a máquina do crime reage com a eliminação. Não é uma questão afetiva, é a manutenção da engrenagem."
Essa realidade foi ilustrada recentemente pela Operação Valquíria, deflagrada pela Polícia Civil, que desarticulou um grupo que utilizava mulheres para o tráfico interestadual e para levar entorpecentes para dentro de presídios em Mato Grosso. Elas eram as "peças logísticas" que, ao falharem ou serem percebidas como riscos à segurança do grupo, tornavam-se alvos descartáveis.
A herança da "Justiça do 44"
O professor João Edison resgata a história de Mato Grosso para explicar por que o estado ainda é visto como um refúgio para a criminalidade. Ele lembra que, até poucas décadas atrás, a justiça no estado era resolvida pelo "calibre 44". "Era uma terra sem lei. Essa ideia, por incrível que pareça, ainda não diminuiu no imaginário do crime organizado. O criminoso que foge do Sul ou do Sudeste corre para cá porque ainda vê Mato Grosso como um território de impunidade e prosperidade rápida."
O fenômeno da violência é mais acentuado justamente nas cidades mais prósperas do agronegócio, como Sorriso e Sinop. Onde há circulação de capital, há o interesse das facções. "O boom da prosperidade traz o bom trabalhador e o empresário, mas o ladrão e o traficante vêm logo atrás. Eles buscam onde o tesouro está", pontua.
O diagnóstico de João Edison aponta para uma falência múltipla das instituições que deveriam formar o caráter e proteger a vida. Ele critica a sobrecarga depositada sobre a escola, que dispõe de pouco tempo para ensinar mais do que o conteúdo acadêmico básico.
A crítica estende-se às instituições religiosas e sociais. "As igrejas defendem a moral, mas muitas vezes fogem da educação elementar de defesa da vida. Há uma contradição latente: instituições que se posicionam contra o aborto, mas que silenciam ou até apoiam a pena de morte e a violência como solução de conflitos", afirma o professor, que se identifica como católico praticante ao fazer a autocrítica.
Para ele, a educação tradicionalista passada de pai para filho ainda é carregada de um patriarcalismo tóxico. "A educação passada de pai para filho é muito tradicionalista. Se o homem de cabeça fraca se sente contrariado por uma mulher que agora conhece seus direitos, ele apela para a síndrome da covardia, que é a violência física."
Oportunismo político e a indústria do medo
No campo político, João Edison é contundente ao denunciar o que chama de "políticos que vivem do problema". Ele argumenta que a violência se tornou uma das maiores indústrias econômicas do país, movimentando desde o setor de segurança privada e monitoramento até a construção civil (muros e grades).
"O político que não privilegia a ciência não precisa de solução, ele precisa de problema para vender a suposta solução. A discussão sobre a redução da maioridade penal para 16 anos, por exemplo, é irrelevante para resolver o crime organizado. O crime simplesmente contratará alguém de 14 ou 12 anos. É uma reposição de estoque", dispara.
O fechamento da análise foca no maior gargalo do Brasil: a impunidade. Para o cientista político, o crime organizado já infiltrou as altas esferas dos três poderes. "O problema está na Faria Lima, está no Congresso, está nos tribunais. Quando o crime organizado entra nas instâncias que deveriam combatê-lo, a sociedade perde a referência de justiça."
A entrevista que resultou nessa matéria foi conduzida pelos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, na Rádio Cultura FM.






