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RISCO À SAÚDE I

Cesáreas no Brasil passam de 60% e país fica entre os três com maior taxa do mundo

Da Redação com Abr

Sete em cada dez gestantes brasileiras querem ter parto normal no início da gravidez. Mas mais de seis em cada dez bebês nascem por cesariana. O dado, que parecer contraditório, é o ponto de partida de uma pesquisa inédita do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgada nesta segunda-feira (13).

A Organização Mundial da Saúde preconiza que, no máximo, 15% dos nascimentos ocorram por cesariana — cirurgia que salva vidas em situações de emergência, mas também oferece riscos. O Brasil ignora esse parâmetro: a taxa nacional passa de 60% e se aproxima de 90% na rede privada. O país figura entre os três com maior proporção de cesáreas do mundo.

Intitulada Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes, a pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo (SP) e Belém (PA), nas redes pública e privada. O objetivo era entender o que acontece entre o desejo inicial e o desfecho da gestação para que tantas mulheres acabem na sala de cirurgia.

A conclusão do Unicef é direta: não se trata de uma escolha individual isolada, mas de uma consequência de fatores psicológicos, sociais e estruturais.

No plano psicológico, as gestantes relataram que a recuperação mais rápida do parto normal favorece sua escolha. Mas o medo da dor faz a balança pender para a cesariana. Essas crenças são fortemente influenciadas pelas experiências de outras mulheres — mães, avós e familiares — que tiveram partos desrespeitosos e violentos.

Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, explica que essas histórias contribuem para a construção social do parto normal como uma experiência de grande sofrimento.

"Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia presente, com vários procedimentos e intervenções que não eram necessárias, com indução de parto sem necessidade. Todas essas violências estão muito presentes no imaginário das pessoas e na vivência de outras", afirma.

A desigualdade como fator determinante

A pesquisa revela duas realidades distintas e desiguais.

Entre as usuárias do SUS, as experiências familiares tendem a valorizar mais o parto normal — mas por uma razão cruel: a falta de rede de apoio. "Essa escolha pelo parto normal está muito relacionada à necessidade de ter uma recuperação rápida, por não ter uma rede de apoio para cuidar do bebê e até de outros filhos e da casa", diz Stephanie Amaral.

Já entre as usuárias do setor privado, a ausência de rede de apoio sequer foi mencionada como desvantagem da cesariana. As mulheres que escolhem o parto normal fazem-no porque entendem os benefícios para a mãe e para o bebê — e muitas vezes têm condição de contratar uma equipe própria para garantir uma experiência positiva.

Outra barreira, exclusiva do SUS, é o desejo de fazer laqueadura. Muitas gestantes optam pela cesariana mesmo reconhecendo os riscos, por falta de orientação sobre métodos contraceptivos reversíveis de longa duração disponíveis na rede pública, como DIU e implante subdérmico.

A centralidade das equipes de assistência aparece tanto como facilitador quanto como barreira. Na rede pública, as gestantes afirmam receber informações superficiais sobre o trabalho de parto durante o pré-natal e desconhecem a possibilidade de fazer um plano de parto. Muitas sequer criam expectativas.

"No setor público, elas falam: 'Ah, não adianta me preparar. Eu não quero ter expectativa sobre o parto porque na verdade quem vai decidir vai ser o médico'. Então, tem esse sentimento de impotência", relata a especialista.

Na rede privada, as gestantes demonstraram maior preparo — por iniciativa própria. Algumas relataram ter trocado de profissional diversas vezes diante da recusa em realizar o parto vaginal.

Outro ponto de disparidade é o acesso à analgesia, amplamente disponível na rede privada e restrito a poucos hospitais de referência no SUS. "O parto é um momento muito imprevisível. Ter analgesia disponível é uma questão de dignidade", defende Stephanie.

O que o Unicef recomenda

O estudo traz recomendações para gestores públicos e privados:

Qualificar o pré-natal com informações claras sobre trabalho de parto, manejo da dor, plano de parto, direitos e planejamento reprodutivo

Incluir parceiros e acompanhantes no pré-natal e reconhecer a atuação de doulas

Mobilizar mães, avós, parteiras e referências locais como aliadas do cuidado, inclusive em territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos

Ampliar políticas públicas de apoio antes, durante e depois do parto, com busca ativa e adesão precoce ao pré-natal

Revisar modelos que favorecem a cesariana sem indicação médica, fortalecendo a segurança jurídica das equipes para decisões baseadas em evidências

O Unicef também lançou a campanha Parto normal. Uma escolha que merece respeito, que convida gestantes, famílias e profissionais de saúde a refletirem sobre como as opiniões alheias podem pressionar as mulheres, a despeito de seus desejos e das recomendações de saúde.

"A gente teve pessoas que falaram: 'Deus me livre ter outro filho!', porque a experiência foi tão ruim que ela não quer passar por isso de novo. Mas o parto não precisa ser traumático. Ele é uma experiência intensa, mas que pode ser positiva e transformadora", conclui Stephanie Amaral.

As informações são da reportagem especial produzida pela jornalista Tâmara Freire para a Agência Brasil.



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