NOTICIÁRIO Segunda-feira, 13 de Julho de 2026, 09:54 - A | A

Segunda-feira, 13 de Julho de 2026, 09h:54 - A | A

ECONOMIA AMEAÇADA

"Antes de melhorar, vai piorar bastante", diz presidente da Abrasel sobre reforma tributária

Mauro Camargo

O setor de bares e restaurantes de Mato Grosso vive o que o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no estado (Abrasel-MT), Daniel Teixeira, classifica como uma "tempestade perfeita". Em entrevista ao Jornal da Cultura (90.7), concedida à jornalista Michely Figueiredo, o advogado e dirigente associativo traçou um diagnóstico preocupante: alta mortalidade de empresas, endividamento das famílias com apostas eletrônicas, mudança drástica nos hábitos de consumo e uma reforma tributária que, na avaliação dele, vai piorar o cenário antes de melhorar.

"Muito mais difícil. A gente sabe que houve um desaquecimento da economia, taxa de juros muito alta, faz com que não haja dinheiro na economia, o dinheiro está todo nos bancos, as pessoas preferem fazer investimentos do que empreender. Empreender hoje no Brasil é muito complicado. Taxa de mortalidade das empresas nesse ramo é muito grande", afirmou.

Ao contrário do que o senso comum sugere, a Copa do Mundo não representa necessariamente um período positivo para o setor. "Existe uma retração nos negócios. Muito feriado, muita retração, ao contrário do que as pessoas pensam, não é o que a gente prefere. A gente prefere semanas completas, normais, em que as pessoas estão trabalhando, as pessoas estão fazendo negócio, estão indo pra rua, do que esses períodos de só festa", explicou Teixeira.

Ele destaca que o impacto é heterogêneo: restaurantes que investem em decoração e promoções aproveitam o fluxo; estabelecimentos em regiões turísticas como Chapada dos Guimarães sentem o movimento de visitantes; mas os restaurantes de entorno escolar sofrem com as férias.

O problema mais grave: falta de mão de obra

Para Daniel Teixeira, a escassez de trabalhadores é o gargalo mais crítico. "Hoje nem que você queira oferecer o produto, você queira ampliar seu negócio, você não consegue. Eu já desisti de várias possibilidades de ampliar meus negócios, porque a gente não tem mão de obra."

O dirigente aponta múltiplas causas: mudança geracional — jovens da geração Z avessos ao emprego formal com carteira assinada —, migração para aplicativos de entrega e transporte, e um fenômeno que considera gravíssimo: o avanço das bets (apostas eletrônicas). "Muita gente que saiu pra ser autônomo, pra ser Uber. Muita gente quer trabalhar como a gente chama de extra, ele não quer ficar vinculado."

Ele refuta, no entanto, a tese de que a culpa seja do estilo de vida nas grandes metrópoles. "Essa geração não viu nenhum pai workaholic, essa geração não viu nenhum pai demorando uma hora para chegar no trabalho. Isso é um dado que está ligado a outros lugares. Vamos chegar em Mato Grosso — Cuiabá em 10 minutos você chegava em qualquer lugar. Hoje, um pouquinho mais, mas também não é problema. Engarrafamento é em São Paulo", disse, provocando reflexão sobre a importação de diagnósticos que não se aplicam à realidade local.

O avanço silencioso das bets

O impacto das apostas eletrônicas foi um dos pontos mais contundentes da entrevista. "Não tem empresa que não tenha um funcionário que não pediu demissão para fazer acordo. Ele começa a faltar para poder levantar fundo de garantia, seguro-desemprego, para poder pagar o joguinho. O endividamento com o agiota, por causa do joguinho. Tem gente se suicidando. É muito sério."

Dados citados durante a entrevista reforçam a gravidade: R$ 143 bilhões deixaram de ser injetados no varejo brasileiro por conta das bets; 270 mil famílias ficaram inadimplentes; 6 mil pessoas buscaram atendimento no SUS por vício em jogos no ano passado.

Canetas emagrecedoras e a revolução silenciosa no consumo

Outro fator da "tempestade perfeita" são os medicamentos injetáveis para perda de peso. "Hoje, mudou muito a forma de consumir. O pessoal está querendo mais proteína, mas numa quantidade muito menor do que antigamente."

O impacto foi ainda maior no segmento de bebidas alcoólicas. "A emagrecedora hoje já é usada até para alcoolismo. Isso diminuiu muito o consumo de bebida alcoólica. Então a gente tem que inovar e oferecer bebidas não alcoólicas com criatividade, com experiência. Tem que oferecer algo que o cara tire uma foto, instagramável."

O fim do happy hour e o império do delivery

Daniel Teixeira constata uma mudança estrutural de comportamento. "Costumam dizer que o happy hour em Cuiabá acabou. Antigamente, você tinha happy hour, de fato. Hoje, você vai nos bares, nos restaurantes, até 19h30, 20h não tem ninguém."

A facilidade do delivery, a qualidade da comida entregue em casa, a multiplicação de canais de streaming e o conforto do ar-condicionado transformaram a relação do consumidor com o comer fora. "O sujeito aperta dois botões e chega uma comida quentinha, com qualidade."

O que vem pela frente

Daniel Teixeira não poupa críticas à reforma tributária. "Antes de melhorar, vai piorar bastante. A gente já tem um custo tributário proibitivo pra quem quer empreender. E agora com essa reforma, as coisas vão ficar piores ainda. As pessoas têm que fazer um caixa, a gente tem que estar preparado."

Diante do cenário adverso, a saída, segundo ele, é a reinvenção. "A gente não oferece mais comida. No restaurante, você não se alimenta, você serve pela experiência. O empresário que não oferecer uma experiência vai estar fora do mercado. De comer, você come em casa pelo iFood."

A Abrasel-MT realiza encontros mensais de formação continuada com workshops, palestras e consultorias em parceria com o Sebrae, abordando questões tributárias, trabalhistas e de relação de consumo. "Quem está associado se aproveita bastante disso, porque hoje se você não estiver atualizado, você está fora do mercado."

Teixeira encerra com um convite: "Venham para a Abrasel, se associem. Hoje, mais do que nunca, é uma atividade de risco você ser empresário. Se você não estiver realmente junto com a gente ou buscando informações todo dia, você corre o risco de ficar para trás."



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