Mato Grosso repete o padrão brasileiro de excesso de cesarianas — e com consequências graves. Dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) e estudos científicos apontam que a taxa de cesáreas no estado gira em torno de 62%, mais de quatro vezes o limite de 15% preconizado pela Organização Mundial da Saúde.
Em Cuiabá, o percentual chegou a 56,7% dos nascimentos em 2024, com índices superiores a 70% nos hospitais privados — um retrato do abismo entre a saúde pública e a suplementar.
A situação é ainda mais preocupante quando se olha para os desfechos. Um estudo publicado em 2026 no ResearchGate, com dados de 2020 a 2024, revelou que os estados de Santa Catarina e Mato Grosso apresentaram taxas de mortalidade em cesáreas cinco vezes superiores às registradas em partos normais. No país, a taxa de mortalidade do parto cesariano (0,04%) foi o dobro da taxa do parto normal (0,02%) — mas em MT a disparidade é ainda mais acentuada.
Uma pesquisa publicada na Revista de Saúde Pública de Mato Grosso do Sul, analisando dados do estado vizinho e do centro-oeste, identificou que a taxa global de cesáreas atingiu 62%, com a maior contribuição vindo do chamado Grupo 5 de Robson — mulheres que já haviam passado por cesárea anterior. O dado sugere um ciclo vicioso: a primeira cesárea, muitas vezes sem indicação clínica, praticamente determina as seguintes.
Em Mato Grosso, o perfil é semelhante. O estudo Cesarianas no Sistema Único de Saúde: análise de custos e mortalidade em comparação ao parto normal aponta que a repetição de cirurgias sem necessidade médica eleva riscos e custos para o sistema.
Um retrato de 57 mil nascimentos
Segundo o Painel de Monitoramento de Nascidos Vivos do Ministério da Saúde, o estado registrou 57.658 nascidos vivos no último ano com dados consolidados. Se a taxa de cesárea se mantém em 62%, isso significa que aproximadamente 35.700 bebês nasceram por cirurgia — número que poderia ser reduzido drasticamente com políticas de incentivo ao parto normal.
Entre as usuárias do SUS, a taxa de cesárea é menor, mas ainda acima do ideal — gira em torno de 40% a 45%. Na rede privada, salta para perto de 80% a 85%, reproduzindo a lógica que o estudo do Unicef agora expõe: a escolha pela cesariana não é individual, mas determinada por fatores estruturais, econômicos e culturais.
O que explica o índice alto em MT
A pesquisa do Unicef, baseada em entrevistas com gestantes em São Paulo e Belém, ajuda a entender o fenômeno também em Mato Grosso. Os fatores se repetem:
Medo da dor e relatos de violência obstétrica que circulam entre familiares
Falta de analgesia no SUS — disponível em poucos hospitais de referência
Desejo de laqueadura — muitas gestantes optam pela cesárea para fazer a esterilização, por falta de orientação sobre métodos contraceptivos de longa duração como DIU e implante subdérmico
Baixa adesão ao plano de parto e pré-natal superficial na rede pública
Modelo de remuneração que favorece a cirurgia na saúde suplementar
O custo da cesárea sem necessidade
Levantamento recente publicado na revista Contribuciones a las Ciencias Sociales analisou os custos dos procedimentos e concluiu que o aumento expressivo das cesarianas sem indicação clínica gera impacto financeiro relevante para o SUS. Em Mato Grosso, onde a taxa se mantém consistentemente acima de 60% há pelo menos uma década, o custo acumulado é bilionário — e evitável.
O estudo Panorama das cesarianas no Brasil na última década (2025) confirma que, entre 2014 e 2023, não houve redução significativa das taxas em nenhuma região do país, apesar de sucessivas campanhas e recomendações da OMS e do Ministério da Saúde.
O Unicef lista recomendações que valem tanto para Mato Grosso quanto para o resto do país:
Qualificar o pré-natal com informações claras sobre trabalho de parto e plano de parto
Ampliar a oferta de analgesia no SUS
Oferecer métodos contraceptivos reversíveis de longa duração como alternativa à laqueadura
Criar modelos de financiamento que não incentivem cesarianas sem indicação clínica
Capacitar equipes para um cuidado respeitoso e baseado em evidências
Em seu site, o Ministério da Saúde oferece painéis interativos de monitoramento. Os dados de Mato Grosso estão disponíveis no SINASC e no TabNet (DATASUS) para consulta pública.
As informações são de dados do Ministério da Saúde (SINASC/DATASUS), Fiocruz, ResearchGate e ANS.






