O problema do El Niño para Mato Grosso não começa quando uma lavoura perde produtividade. Começa antes, na decisão sobre quando plantar a soja, avança sobre a janela do milho e termina na planilha financeira do produtor — onde cada saca que deixa de ser colhida aumenta o peso dos custos já contratados.
É essa combinação que torna a safra 2026/27 particularmente sensível.
O El Niño está configurado desde junho e os modelos utilizados pelo painel oficial do governo federal apontam probabilidade superior a 90% de permanência pelo menos até o início de 2027, com possibilidade elevada de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão.
Isso não significa que Mato Grosso terá necessariamente quebra de safra.
Significa que a maior potência agrícola brasileira entra no próximo ciclo convivendo com um fator adicional de risco justamente quando os produtores precisam tomar suas principais decisões econômicas.
E o tamanho desse risco ajuda a responder à pergunta central: quanto um El Niño forte pode custar a Mato Grosso?
O problema pode ser a chuva errada
A primeira armadilha é imaginar o El Niño simplesmente como sinônimo de seca.
No Centro-Oeste, o efeito pode ser mais complexo. O problema para uma lavoura não é apenas quanto chove durante toda a temporada, mas quando a chuva começa, sua distribuição ao longo do ciclo e a ocorrência de períodos secos justamente nas fases mais sensíveis da planta.
O painel oficial alerta para alterações nos padrões de precipitação e temperatura e recomenda acompanhamento permanente porque os efeitos variam regionalmente e dependem da interação do Pacífico com outros componentes do sistema climático.
Em Mato Grosso, isso atinge primeiro a soja.
O plantio depende da consolidação das chuvas depois do vazio sanitário. Se o produtor antecipa a semeadura diante de uma chuva isolada e a precipitação desaparece, aumenta o risco de germinação irregular e necessidade de replantio.
Se espera demais, reduz outro ativo extremamente valioso: tempo.
E é aí que o problema da soja passa para o milho.
Uma safra empurra a outra
Mato Grosso desenvolveu um modelo produtivo baseado no aproveitamento intensivo da mesma área agrícola.
Colhe-se a soja e, imediatamente depois, planta-se grande parte do milho de segunda safra.
Esse sistema ampliou extraordinariamente a produção sem exigir crescimento territorial na mesma proporção. Mas criou uma dependência de calendário.
Quanto mais tarde a soja entra no campo, mais tarde tende a sair. E quanto mais tarde o milho é semeado, maior a possibilidade de atravessar fases importantes do desenvolvimento em condições climáticas menos favoráveis.
A ameaça econômica do El Niño, portanto, pode funcionar como uma sequência:
chuva irregular → atraso da soja → atraso do milho → maior risco climático → produtividade menor → margem menor.
Análises recentes sobre a safra mato-grossense já chamam atenção exatamente para o risco de irregularidade das precipitações comprometer a janela entre as duas culturas.
Esse efeito multiplicador ajuda a entender por que algumas semanas de atraso podem ter consequências muito maiores do que aparentemente sugerem.
Os números mostram o tamanho do ativo colocado sob risco.
Mato Grosso responde por aproximadamente um terço da produção brasileira de grãos. Estimativa recente do IBGE atribui ao Estado 32,1% da produção nacional.
Na safra que se encerra, o milho mato-grossense alcançou produtividade estimada pelo Imea em 128,64 sacas por hectare, crescimento de 6,95% em relação ao ciclo anterior.
É sobre uma base produtiva dessa magnitude que pequenas alterações percentuais ganham grande significado econômico.
Imagine, apenas como exercício, uma propriedade cuja expectativa seja colher 60 sacas de soja por hectare.
Uma perda de 5% significa três sacas a menos. Uma redução de 10%, seis sacas. Uma quebra de 15%, nove sacas por hectare.
O exemplo não é uma previsão para a próxima safra. Serve para demonstrar como funciona a exposição econômica.
Se sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, combustível, mão de obra, arrendamento e juros já foram contratados, a queda da produtividade não reduz os custos na mesma proporção.
Ela aumenta o custo de cada saca efetivamente produzida.
É por isso que o impacto financeiro de uma quebra de 10% pode ser maior que 10% sobre a margem do produtor.
Existe outro componente nessa equação.
Uma safra menor pode pressionar preços para cima. Em tese, parte da redução de produtividade poderia ser compensada por uma valorização do produto.
Mas isso não acontece automaticamente.
O produtor pode ter vendido antecipadamente parte da safra, pode enfrentar perdas superiores à valorização do grão ou simplesmente estar numa região atingida pela adversidade enquanto outras regiões brasileiras ou concorrentes internacionais produzem normalmente.
O Imea já acompanha a comercialização da soja 2026/27. Em junho, o preço mensal de comercialização indicado para Mato Grosso estava em R$ 110,75 por saca.
O risco, portanto, não é apenas agronômico. É também comercial.
O produtor precisa administrar simultaneamente clima, produtividade futura, preço, câmbio e compromissos financeiros assumidos antes de saber quanto efetivamente colherá.
O risco já tem preço
Há um sinal particularmente interessante: o El Niño começa a produzir efeitos econômicos antes de qualquer perda agrícola ocorrer.
Empresas consumidoras de grandes volumes de grãos já estão revendo estratégias de abastecimento. A MBRF, uma das maiores compradoras de milho e soja do país, informou que utiliza contratos a termo como instrumento para reduzir sua exposição às possíveis oscilações provocadas pelo fenômeno.
Isso mostra que risco climático também é informação econômica.
Quando compradores, tradings, produtores, bancos e seguradoras alteram decisões diante de uma possibilidade climática, parte do impacto já começa a ser incorporada ao mercado.
Para o agricultor, a proteção passa por planejamento de plantio, escolha de cultivares, manejo do solo, diversificação das janelas, comercialização e instrumentos financeiros.
Não existe estratégia capaz de eliminar o risco climático.
Existe capacidade maior ou menor de absorvê-lo.
Crédito pode ser segundo problema
Esse ponto ganha importância porque uma quebra de produtividade não termina na porteira.
Menor geração de caixa reduz capacidade de pagamento. A dificuldade do produtor alcança revendas de insumos, tradings, cooperativas, bancos e fornecedores de máquinas e serviços.
Em municípios fortemente dependentes do agronegócio, pode chegar ao comércio, à arrecadação e ao mercado de trabalho.
O efeito econômico de uma safra ruim, portanto, não corresponde apenas ao valor das toneladas que deixaram de ser produzidas.
Existe um encadeamento.
É também por isso que seguro rural e crédito se tornam estratégicos. Quanto maior a incerteza climática, mais importante é a capacidade de proteger receita e refinanciar compromissos quando eventos excepcionais efetivamente atingem a produção.
Seria tentador transformar a ameaça em uma manchete com um número: “El Niño pode causar prejuízo de tantos bilhões a Mato Grosso”.
Hoje, essa conta seria artificial.
Ainda não sabemos como as chuvas estarão distribuídas durante todo o ciclo, quais regiões serão mais afetadas nem qual será a produtividade efetiva das principais culturas.
O próprio fato de o fenômeno ser classificado como forte ou muito forte não determina automaticamente a intensidade do impacto em cada município de Mato Grosso.
O que já pode ser afirmado é que existe risco elevado o suficiente para alterar planejamento e decisões econômicas.
E existe uma escala produtiva suficientemente grande para transformar pequenas variações de produtividade em muito dinheiro.
A questão central da safra 2026/27 talvez não seja, portanto, simplesmente se vai chover mais ou menos.
Será se vai chover no lugar certo e, principalmente, na hora certa.
Para Mato Grosso, poucos dias podem separar uma chuva inconveniente de uma chuva de bilhões.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida prioritariamente a partir de fontes técnicas e primárias, entre elas o Painel El Niño 2026–2027, elaborado conjuntamente por Inmet, Inpe, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional; informações da Conab; e indicadores do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
Informações jornalísticas e análises setoriais recentes foram utilizadas como fontes complementares para identificar os riscos discutidos pelo mercado para a safra 2026/27 e foram cruzadas, sempre que possível, com as fontes técnicas.
Os percentuais de perda de produtividade de 5%, 10% e 15% apresentados no texto constituem exclusivamente cenários didáticos. Não são projeções do Imea, da Conab ou de órgãos meteorológicos e não representam previsão de quebra da safra mato-grossense.
A reportagem deliberadamente não apresenta estimativa de prejuízo total em reais porque, neste estágio da safra, não existem elementos suficientes para produzir esse número com rigor. Intensidade do El Niño e intensidade das perdas agrícolas não são equivalentes: os efeitos dependerão da distribuição espacial e temporal das chuvas, temperaturas e demais condições meteorológicas durante o ciclo produtivo.






