NOTICIÁRIO Sábado, 27 de Junho de 2026, 17:15 - A | A

Sábado, 27 de Junho de 2026, 17h:15 - A | A

BOLSONARISMO RACHADO

Como a crise Bolsonaro fragiliza Fagundes e reconfigura o tabuleiro sucessório

Da Redação

Mato Grosso sempre gostou de se definir como "a última fronteira agrícola", um lugar onde o pragmatismo do agronegócio falaria mais alto que as brigas ideológicas do Sul e do Sudeste. A temporada eleitoral de 2026 está mostrando que não é bem assim. O racha instalado no PL nacional entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro já produziu ondas sísmicas em Cuiabá, e o epicentro atende pelo nome de Wellington Fagundes.

O senador mato-grossense, que o PL reafirmou pela décima vez como pré-candidato ao governo do Estado, segundo o portal Gazeta Digital, depende do palanque nacional do bolsonarismo para viabilizar sua candidatura. O problema é que o palanque está rachado. De um lado, Flávio, que busca consolidar a herança política do pai e enfrenta rejeição elevada — 40%, segundo o Datafolha de 20 de junho (TSE BR-09956/2026). Do outro, Michelle, que em pesquisas qualitativas atrai o voto feminino e evangélico com mais consistência que o enteado, e já mobiliza alas do PL em sua defesa.

Em Mato Grosso, o racha já produziu efeitos concretos. A deputada estadual Gisela Simona (União) saiu em defesa de Michelle; a vereadora Paula Calil (PL) reprovou a atitude. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, antecipou o retorno ao Brasil. Estava no exterior para tentar apaziguar a relação. Damares Alves (Republicanos-DF) atuou como interlocutora. Ciente do ativo eleitoral da ex-primeira-dama, Valdemar prega cautela. Mas o estrago está feito.

Wellington Fagundes, que construiu sua trajetória política numa aliança pragmática com o bolsonarismo, agora precisa escolher um lado ou manter o silêncio estratégico que arrisca desagradar a ambos. O governador Otaviano Pivetta (Republicanos), que alfinetou Fagundes com a pergunta "por que ele é tão rejeitado no PL?", aproveita o momento para expandir seu próprio leque de alianças. Na mesma semana, admitiu publicamente diálogo com o MDB para as eleições, um movimento que, em condições normais, seria impensável para um governador que depende da base conservadora.

Enquanto a direita se fragmenta, o cenário nacional favorece o Planalto. A pesquisa BTG/Nexus de 15 de junho (TSE BR-01075/2026) mostra Lula com 42% contra 33% de Flávio no 1º turno, e vantagem de 49% a 43% no 2º turno. Pela primeira vez em 2026, a aprovação do governo superou a desaprovação — um dado que, na prática, reduz o ímpeto da narrativa de "nova república" que a oposição tenta construir.

A pesquisa Genial/Quaest de 10 de junho (TSE BR-07661/2026) registrou Lula com 39% e Flávio com 29% no 1º turno, com vantagem de 44% a 38% no 2º turno. Já o Real Time Big Data de 1º de junho (TSE BR-05864/2026) apontou Lula com 38% e Flávio com 31% no 1º turno, com 45% contra 40% no 2º turno. A trajetória é consistente. Lula oscila dentro da margem de erro, mas mantém vantagem estável entre 7 e 9 pontos no 1º turno e entre 4 e 6 pontos no 2º.

O dado novo, que pode reconfigurar a fotografia das próximas semanas, é a conclusão da Polícia Federal de que Flávio Bolsonaro caluniou Lula ao atribuir-lhe crimes de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro em postagem de janeiro. A manifestação foi enviada ao ministro Alexandre de Moraes na sexta-feira (26). Se o STF aceitar a denúncia, a pré-campanha de Flávio — e, por extensão, o palanque de todos os candidatos do PL, incluindo Wellington Fagundes — sofrerá um abalo de proporções imprevisíveis.

Em Mato Grosso, o cenário desenhado pelas pesquisas nacionais encontra um chão fértil para movimentações. A pesquisa Real Time Big Data para o estado, registrada sob o TRE MT-01755/2026, já apontava Mauro Mendes (União) e Janaína Riva (MDB) como favoritos ao Senado. Com o racha no PL e a indefinição sobre o palanque presidencial, a vantagem de ambos tende a se consolidar — a menos que a crise no bolsonarismo produza um movimento inesperado de radicalização, capaz de reativar a base mais fiel.

O que está em jogo em Mato Grosso, afinal, não é apenas a sucessão estadual. É a comprovação de que o pragmatismo político que sempre se atribuiu ao estado ainda existe  ou se a polarização nacional, com suas fraturas expostas, finalmente atravessou a última fronteira.



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