CULTURA Terça-feira, 23 de Junho de 2026, 15:32 - A | A

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KANJINJIN

Artista lança álbum que conecta Cuiabá às diásporas afro-latino-americanas

Da Redação

O nome remete a uma bebida centenária produzida em Vila Bela da Santíssima Trindade. Mas, nas mãos do artista mato-grossense Ahgave, Kanjinjin se transforma em algo maior. Um manifesto musical sobre amor, pertencimento e resistência cultural.

Lançado recentemente nas plataformas digitais, o álbum independente reúne oito faixas que atravessam fronteiras geográficas e sonoras ao combinar reggaeton, afrobeat, cumbia, rap, reggae e lambadão mato-grossense. O resultado é uma obra que aproxima Mato Grosso da América Latina e das diásporas africanas, sem abrir mão das referências locais que marcam a trajetória do artista.

Mais do que uma coleção de músicas, Kanjinjin propõe uma reflexão sobre temas contemporâneos como masculinidade, relações afetivas, liberdade, meio ambiente e desigualdades sociais. Tudo isso embalado por ritmos tradicionalmente associados à dança e à celebração. "Kanjinjin é um gole contra a monocultura de grãos e afetos", resume Ahgave, ao definir o conceito que orienta o projeto.

Uma bebida transformada em símbolo

A inspiração para o álbum nasceu da tradicional bebida produzida há gerações em Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso e importante território da cultura afro-brasileira.

Feito artesanalmente com aguardente, mel e especiarias, o kanjinjin atravessou séculos de transformações sociais, preservando sua presença na memória cultural da região. Para Ahgave, essa permanência tornou-se metáfora para falar sobre identidades que resistem ao apagamento e sobre culturas que sobrevivem mesmo diante das pressões da modernidade.

A ideia de resistência aparece não apenas no título, mas em toda a construção conceitual do álbum.

Uma das marcas mais evidentes do trabalho é a presença do reggaeton, gênero que acompanha o artista desde uma temporada vivida no México, em 2009. No álbum, o ritmo surge como elemento de conexão entre diferentes experiências afro-latino-americanas. Ao lado da cumbia e do afrobeat, ajuda a construir uma sonoridade que rompe fronteiras nacionais e aproxima Cuiabá de cidades, histórias e movimentos culturais espalhados pelo continente.

Essa mistura ganhou forma ao longo de anos de pesquisa artística desenvolvida em parceria com o produtor musical Vibox. O processo teve início ainda durante a pós-produção de "Dancerrala", trabalho anterior lançado por Ahgave em 2023.

As músicas de Kanjinjin nascem de experiências observadas ou vividas em espaços frequentemente ignorados pelas narrativas oficiais como esquinas, botecos, hotéis, bailes de rua, rodas de rima e festas populares. São histórias que transitam entre romance, autoconhecimento, crítica social e memória coletiva.

Entre os destaques do álbum está "Sereia", faixa que explora os encontros afetivos e a liberdade amorosa sobre uma base de reggaeton. Já "Agrocídio" utiliza a mesma atmosfera dançante para abordar questões ambientais e os impactos dos modelos econômicos predominantes.

Em "Pá Aprende", Ahgave mergulha em experiências pessoais para discutir masculinidade, casamento e violência emocional, tema ainda pouco explorado na música popular contemporânea.

A proposta estética de Kanjinjin vai além da música. Em parceria com o cineasta Ricardo Cruz, Ahgave desenvolveu uma série de visualizers inspirados em fotografias históricas, capas de discos e referências visuais que atravessam as décadas de 1970 a 2000.

Utilizando inteligência artificial como ferramenta criativa, o projeto recria uma Cuiabá imaginária e atemporal, dialogando com elementos da cultura popular brasileira, do muralismo latino-americano e da filosofia africana Sankofa, que propõe revisitar o passado para construir o futuro.

A intenção não é apenas despertar nostalgia, mas chamar atenção para patrimônios culturais e simbólicos ameaçados pelas transformações urbanas aceleradas e pela homogeneização estética das cidades.

Para Ahgave, Kanjinjin marca uma etapa de amadurecimento criativo. É o primeiro trabalho em que amor e política ocupam o mesmo espaço narrativo e também o primeiro desenvolvido sem financiamento público ou patrocínio privado. "Foi um álbum cozinhado em fogo baixo. Tive tempo para amadurecer as letras, os conceitos e os instrumentais. Por isso ele tem um sabor diferente para mim", afirma o artista.

A próxima etapa do projeto prevê apresentações ao vivo que incorporam elementos de dança, cenografia, direção de arte e iluminação, ampliando a experiência para além do formato tradicional de show.

ONDE OUVIR: 

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Divulgação



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