O ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), tornou-se alvo de uma investigação sigilosa em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que apura supostas irregularidades no processo de credenciamento do Credcesta, programa de crédito consignado operado pelo Banco Master junto aos servidores públicos estaduais. A informação foi revelada pela coluna da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, com reportagem assinada por Johanns Eller e Malu Gaspar.
Segundo a publicação, a investigação foi aberta a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) e busca esclarecer se houve favorecimento indevido ao Banco Master durante a implantação da modalidade de crédito em Mato Grosso, em 2023.
De acordo com a reportagem, Mauro Mendes é o segundo ex-governador aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro a entrar na mira da Justiça em investigações relacionadas ao Credcesta. O primeiro foi o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), também investigado em desdobramentos envolvendo o Banco Master e seu controlador, o empresário Daniel Vorcaro.
A principal suspeita dos investigadores está relacionada à rapidez com que o processo de credenciamento foi conduzido pelo governo mato-grossense.
Conforme relatado por O Globo, em 5 de maio de 2023, Mauro Mendes assinou decreto criando uma margem consignável exclusiva de 10% destinada aos chamados cartões de benefícios para servidores e pensionistas. Três dias depois, em 8 de maio, o Banco Master protocolou pedido de credenciamento para operar a modalidade no Estado.
Segundo os documentos analisados na investigação, o procedimento administrativo foi aberto em apenas 24 horas. Em 12 de maio, pouco mais de meia hora após a apresentação de documentação complementar pelo banco, o governo estadual emitiu parecer favorável ao credenciamento. A autorização definitiva foi publicada no Diário Oficial em 1º de junho daquele ano, com validade até maio de 2028.
A velocidade da tramitação passou a ser um dos principais focos da investigação conduzida pelo STJ.
Procurado pela equipe da coluna de Malu Gaspar, Mauro Mendes negou qualquer irregularidade e afirmou que todos os atos administrativos de sua gestão obedeceram aos princípios constitucionais da administração pública.
O ex-governador sustentou que o Banco Master não recebeu tratamento diferenciado e que outras 24 instituições financeiras também foram credenciadas para operar junto ao funcionalismo estadual.
“Portanto, o Master era apenas mais um e não foi o primeiro a ter o cadastro aprovado. O governo de Mato Grosso preza por eficiência”, declarou Mendes à coluna.
Outro ponto mencionado na reportagem envolve uma viagem de Mauro Mendes a Nova York, realizada exatamente no período em que o credenciamento estava sendo analisado.
Segundo a publicação, o então governador participou de um evento promovido pelo Grupo LIDE nos Estados Unidos. No mesmo período, Daniel Vorcaro também se encontrava na cidade.
A investigação da Polícia Federal sobre o caso envolvendo Cláudio Castro identificou que Vorcaro patrocinou um jantar no restaurante Nusr-Et, conhecido internacionalmente pelo chef turco Salt Bae. Mauro Mendes não aparece formalmente citado nos relatórios da PF que fundamentaram as operações contra Castro, mas a reportagem destaca que ele esteve no mesmo restaurante na mesma noite.
Registros publicados nas redes sociais pela então primeira-dama Virginia Mendes confirmam a presença da comitiva mato-grossense no local.
Posteriormente, Cláudio Castro chegou a afirmar a aliados que encontrou Mauro Mendes durante o jantar. Mais tarde, contudo, divulgou carta pública afirmando que o encontro ocorreu por mera coincidência e que ambos ocupavam mesas separadas.
Mauro Mendes reafirmou à coluna que pagou integralmente suas despesas e que jamais manteve contato com representantes do Banco Master, seja em Nova York ou no Brasil.
O caso ganhou novos contornos após a deflagração da nona fase da Operação Compliance Zero, que ampliou as investigações sobre o modelo de expansão do Credcesta em diversos estados brasileiros.
Segundo a reportagem de O Globo, o mesmo modelo implantado em Mato Grosso também foi adotado anteriormente na Bahia e no Rio de Janeiro. Em todos os casos, houve ampliação das margens consignáveis e forte crescimento da participação do Banco Master na oferta de crédito aos servidores públicos.
A publicação destaca ainda que o programa vem sendo contestado judicialmente por sindicatos de servidores estaduais de Mato Grosso, representados pelo escritório AFG & Taques, ligado ao ex-governador Pedro Taques (PSB), atual pré-candidato ao Senado.
Os autores das ações alegam que mais de 15 mil servidores teriam enfrentado problemas relacionados ao Credcesta, incluindo superendividamento, comprometimento excessivo da renda e contratos supostamente firmados sem clareza suficiente sobre as condições financeiras.
As ações judiciais também questionam o credenciamento de empresas e fintechs que posteriormente tiveram suas carteiras de crédito absorvidas pelo Banco Master, tese que agora também integra o conjunto de fatos examinados pelos órgãos de investigação.
Até o momento, Mauro Mendes não foi denunciado nem formalmente acusado. A investigação segue em caráter sigiloso no Superior Tribunal de Justiça e busca determinar se houve ou não irregularidades no processo que permitiu a entrada do Credcesta no mercado de consignados do funcionalismo público mato-grossense.
A reportagem original foi publicada pela coluna da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, e integra uma série de matérias sobre as investigações envolvendo o Banco Master, seu controlador Daniel Vorcaro e a expansão do programa Credcesta em diversos estados brasileiros.
Crédito: Informações de Johanns Eller e Malu Gaspar, coluna de O Globo.






