A escolha do deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) como candidato a vice-governador de Otaviano Pivetta (Republicanos) fechou o núcleo da chapa governista, mas provocou uma reação em cadeia no tabuleiro eleitoral de Mato Grosso. Preterido na disputa pela vice, o Podemos anunciou que pretende lançar candidatura própria ao Governo. Ao mesmo tempo, a aliança determinada pela direção nacional do PL com o MDB abriu uma crise interna e levou lideranças bolsonaristas do Estado a Brasília para tentar rever o acordo.
Os três movimentos ocorrem às vésperas das convenções de Republicanos, Podemos e MDB, marcadas para esta terça-feira (4), e demonstram que a definição de uma chapa não encerrou as negociações. Ao contrário: reduziu os espaços disponíveis, contrariou partidos que esperavam integrar o projeto governista e acelerou a reorganização das forças que ficaram fora da composição.
Pivetta anunciou Fábio Garcia no fim da tarde de segunda-feira (3). Segundo comunicado distribuído por sua assessoria, a indicação teria recebido o apoio de 122 prefeitos. O número foi atribuído pelo próprio governador, mas a relação nominal dos gestores consultados ou apoiadores não foi apresentada no material divulgado.
“Fábio Garcia é um ótimo nome e irá ajudar a manter Mato Grosso no caminho certo. Vamos fazer mais e melhor por esse estado e por todos que vivem aqui. Ele teve o apoio de 122 prefeitos que encontraram em Fábio o perfil certo para ser vice-governador”, declarou Pivetta.
A decisão deverá ser formalizada na convenção do Republicanos, marcada para as 17 horas desta terça-feira, no Ginásio Dom Aquino, em Cuiabá. A escolha dos candidatos em convenção é a etapa partidária necessária para a posterior apresentação do pedido de registro à Justiça Eleitoral.
Confiança e continuidade
Deputado federal e ex-secretário-chefe da Casa Civil, Fábio Garcia integra o núcleo político mais próximo do ex-governador Mauro Mendes, presidente estadual do União Brasil e principal articulador da candidatura de Pivetta.
Sua escolha reforça o caráter de continuidade política e administrativa da chapa. Pivetta sucedeu Mauro Mendes no Governo e agora incorporou à sua composição um dos principais operadores políticos da gestão anterior.
“Agradeço ao governador Pivetta por essa oportunidade e confiança e vamos trabalhar muito para que o momento de desenvolvimento que esse Estado vive continue. Não podemos retroagir”, afirmou Fábio Garcia.
A composição também representa a consolidação da aliança entre o Republicanos e a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. Na convenção do União Brasil, os convencionais rejeitaram, por 30 votos a 19, a candidatura própria do senador Jayme Campos e autorizaram o apoio a Pivetta.
Depois de vencer a disputa interna contra o grupo de Jayme, Mauro Mendes ampliou sua influência sobre a chapa ao assegurar a indicação de Fábio para a vice.
Outras alternativas foram descartadas
Além de Fábio Garcia, pelo menos três nomes circularam nas negociações: a deputada federal Gisela Simona, o ex-secretário estadual de Fazenda Rogério Gallo, ambos do União Brasil, e uma indicação do Podemos.
Gisela reunia características consideradas estratégicas por aliados: é mulher, tem presença eleitoral na Baixada Cuiabana, atuação vinculada à defesa do consumidor e representatividade no movimento negro. Rogério Gallo foi mencionado nas horas finais da negociação, mas a possibilidade foi descartada pelo grupo de Pivetta.
O Podemos, por sua vez, buscava uma participação efetiva na chapa majoritária. O partido é presidido em Mato Grosso pelo presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi, e reúne uma estrutura eleitoral apoiada em prefeitos, vereadores e candidatos competitivos à Assembleia Legislativa.
A escolha de Fábio Garcia fechou essa porta.
Podemos reage com candidatura própria
Após a definição da vice, Max Russi anunciou que o Podemos decidiu trabalhar com candidatura própria ao Governo.
“O Podemos analisou todos os quadros e decidiu por candidatura própria ao governo”, declarou o presidente estadual da legenda à Gazeta Digital.
Max não revelou quem encabeçará a chapa. A informação é relevante porque o próprio parlamentar declarou, em entrevista concedida nesta terça-feira, que não pretende abandonar sua candidatura à reeleição para entrar na disputa pelo Governo “aos 45 minutos do segundo tempo”.
Dessa forma, até a formalização da decisão na convenção, é necessário separar dois movimentos: o Podemos anunciou a intenção de apresentar candidatura própria, mas Max Russi não confirmou que será o candidato.
O nome do presidente da Assembleia vinha sendo estimulado por lideranças que ficaram politicamente desabrigadas após a derrota de Jayme Campos na convenção do União Brasil. Participaram dessas articulações, além de Jayme, a deputada Janaina Riva e o deputado Eduardo Botelho, ambos do MDB.
Uma eventual candidatura do Podemos abriria uma nova frente na disputa pelo Palácio Paiaguás, até aqui concentrada principalmente entre Pivetta e o senador Wellington Fagundes, candidato do PL, além da candidatura de Natasha Slhessarenko, sustentada pela aliança formada por partidos do campo progressista.
A iniciativa, entretanto, dependerá da capacidade do partido de apresentar um candidato, compor a chapa majoritária e oferecer sustentação política e eleitoral ao projeto em prazo reduzido.
Janaina altera o cenário
A movimentação do Podemos também foi influenciada pela decisão da direção nacional do PL de apoiar a candidatura da deputada estadual Janaina Riva, do MDB, ao Senado.
Até então, Max e Janaina discutiam uma composição conjunta. A deputada poderia disputar o Governo, integrar como vice uma chapa encabeçada pelo presidente da Assembleia ou manter sua candidatura ao Senado dentro de uma aliança construída pelos dois partidos.
O acordo de Janaina com o PL reduziu essa possibilidade. A aproximação foi negociada com o presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar da Costa Neto, e recebeu, segundo informações divulgadas pela própria deputada, a concordância de Flávio e Michelle Bolsonaro.
A composição coloca Janaina no palanque de Wellington Fagundes, seu sogro e candidato do PL ao Governo. Mas a decisão tomada pela direção nacional encontrou resistência imediata entre lideranças estaduais da legenda.
Rebelião dentro do PL
O deputado federal José Medeiros viajou a Brasília para se reunir com Valdemar da Costa Neto e tentar modificar o acordo. Também participaram da mobilização o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, e o empresário Odílio Balbinotti, indicado como primeiro suplente de Medeiros.
“A gente quer entender, porque ficamos sabendo só pela imprensa. Aí viemos para tratar desse tema. Então é preciso a gente, antes de qualquer coisa, conversar”, afirmou Medeiros.
A reação está relacionada à composição para o Senado. Na convenção do PL, realizada em 22 de julho, a direção partidária havia apresentado Medeiros como candidato único do grupo. A entrada de Janaina cria uma chapa com dois candidatos ao Senado e modifica a estratégia política anunciada aos convencionais.
Como cada eleitor poderá votar em dois candidatos ao Senado em 2026, a presença de dois nomes na mesma aliança é juridicamente possível. O conflito é político: Medeiros e seus aliados sustentam que receberam a garantia de exclusividade e que o novo acordo foi fechado pela direção nacional sem consulta às principais lideranças estaduais.
Abilio adotou a posição mais dura. O prefeito afirmou que não fará campanha ao lado do MDB e admitiu até mesmo a possibilidade de sofrer uma punição partidária.
“Ou me libera, ou tolera, ou me expulsa. Com PT e MDB eu não vou”, escreveu em uma rede social.
A resistência não está limitada ao prefeito de Cuiabá. Prefeitos e parlamentares do PL passaram a cobrar explicações da direção nacional. O prefeito de Rondonópolis, Cláudio Ferreira, também rejeitou publicamente a aproximação com o MDB, assim como a prefeita de Várzea Grande, Flávia Morreti e o deputado estadual Gilberto Catanni.
Convenções sob pressão
As convenções desta terça-feira terão, portanto, efeitos que ultrapassam a simples homologação de candidaturas.
O Republicanos chega ao encontro com a chapa Pivetta–Fábio Garcia definida e com o apoio formal do União Brasil. O Podemos precisará transformar o anúncio de candidatura própria em uma decisão concreta, indicando quem disputará o Governo e quais forças sustentarão o projeto. O MDB deverá confirmar Janaina Riva ao Senado e deliberar sobre a aliança com o PL.
No campo liberal, a reunião em Brasília poderá determinar se o acordo com o MDB será mantido integralmente, renegociado ou imposto à direção estadual apesar da resistência de prefeitos e parlamentares.
A escolha de Fábio Garcia resolveu a principal pendência da chapa de Otaviano Pivetta. Politicamente, porém, produziu um efeito mais amplo: deixou o Podemos sem o espaço que reivindicava, empurrou o partido para a discussão de candidatura própria e tornou ainda mais disputada a reorganização dos grupos que ficaram fora do núcleo comandado por Pivetta e Mauro Mendes.
O tabuleiro está mais definido em relação aos candidatos, mas menos estável quanto às alianças.
Nota de Transparência
Esta matéria foi produzida pelo Sistema Editorial Inteligente do Nossa República — SEI-NR, com supervisão editorial e texto final humano, a partir de press release distribuído pela assessoria de campanha do governador Otaviano Pivetta, declarações públicas de dirigentes partidários e levantamento complementar em veículos de comunicação de Mato Grosso.
A informação de que Fábio Garcia recebeu o apoio de 122 prefeitos foi divulgada pela assessoria de Pivetta e repetida pelo governador. Até o fechamento desta apuração, não havia sido apresentada uma lista nominal dos prefeitos consultados. A candidatura própria anunciada pelo Podemos ainda dependia da convenção partidária e da indicação de quem encabeçaria a chapa. O resultado da reunião das lideranças do PL com Valdemar da Costa Neto também não havia sido formalmente divulgado.






