A inteligência artificial, a desinformação, o financiamento irregular de campanhas e a possível interferência do crime organizado estão entre os principais desafios da Justiça Eleitoral para as eleições de 2026. Em Mato Grosso, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MT) ampliou a estrutura tecnológica e de inteligência para tentar identificar irregularidades com mais rapidez e garantir segurança durante o processo eleitoral.
Em entrevista, o diretor-geral do TRE-MT, Mauro Diogo, afirmou que a Justiça Eleitoral já trabalha em conjunto com órgãos de segurança e inteligência e conta, neste ano, com novas ferramentas tecnológicas para acompanhar o pleito.
Uma delas é a GuaIA, plataforma de inteligência artificial utilizada para auxiliar na identificação de conteúdos falsos, distorcidos ou manipulados. A ferramenta pode analisar textos, áudios e vídeos e ajudar magistrados e integrantes do Ministério Público na avaliação de possíveis casos de desinformação. O próprio TRE-MT informa que a plataforma foi desenvolvida pelo Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás em parceria com o TRE-GO e passou a ser adotada pelo tribunal mato-grossense nas eleições deste ano.
Segundo Mauro Diogo, a ferramenta não substitui uma perícia oficial, mas funciona como instrumento de apoio à análise de conteúdos que chegam à Justiça Eleitoral.
“Eu acho que na essência é combater a desinformação. Eu acho que esse é um grande desafio, combater a desinformação.”
IA será permitida, mas terá regras
O diretor-geral também chamou atenção para uma diferença importante: o uso de inteligência artificial nas campanhas não é proibido. O que existe é uma série de regras para identificar conteúdos produzidos ou modificados com essa tecnologia.
A regulamentação do TSE determina que conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial utilizados em propaganda eleitoral sejam identificados de forma explícita. Também há restrições específicas para conteúdos que envolvam imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas.
Para Mauro Diogo, o problema central está no uso da tecnologia para manipular informações e influenciar o eleitorado.
“Não combater o uso da inteligência artificial. Eu acho que na essência é combater a desinformação.”
Pardal transforma eleitor em fiscal da eleição
Outra aposta do TRE é ampliar a participação do eleitor na fiscalização das campanhas.
O Pardal, aplicativo da Justiça Eleitoral para denúncias de propaganda irregular, ganhou uma nova versão para as eleições deste ano. A ferramenta começou a receber denúncias a partir de 16 de agosto e permite o envio de fotos, vídeos, áudios e informações sobre possíveis irregularidades.
O sistema também passou a contar com classificação automatizada para orientar o usuário sobre o tipo de irregularidade relatada e apresentar informações sobre o que é permitido ou proibido pela legislação.
Mauro Diogo destaca que Mato Grosso tem 2.638.230 eleitores aptos a votar nas eleições de 2026. O número representa crescimento de 7% em relação às eleições gerais de 2022.
Para o diretor-geral, mesmo uma pequena parcela desse eleitorado atuando como fiscal pode representar um reforço importante para a Justiça Eleitoral.
Outdoor e propaganda irregular podem ser denunciados
Durante a entrevista, Mauro citou situações que podem ser alvo de fiscalização, como outdoor irregular e determinadas formas de propaganda sonora.
O Pardal, entretanto, não substitui os canais destinados a outros tipos de ocorrência. Segundo as regras do TSE, denúncias que não se enquadrem no escopo do aplicativo podem ser direcionadas ao Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral ou aos canais do Ministério Público Eleitoral.
A propaganda eleitoral está liberada desde 16 de agosto de 2026.
TRE terá acesso a 18 mil câmeras no estado
A tecnologia também será utilizada na segurança do dia da votação.
Mauro Diogo revelou que uma parceria com a Secretaria de Estado de Segurança Pública permitirá à Justiça Eleitoral utilizar imagens das câmeras do programa Vigia Mais MT para verificar ocorrências nos locais de votação.
O TRE-MT já havia anunciado que pretende integrar as imagens das câmeras ao sistema Camino, utilizado para acompanhar ocorrências em tempo real durante as eleições. Segundo o tribunal, Mato Grosso já contava com mais de 18 mil câmeras de videomonitoramento distribuídas por 128 municípios.
Na prática, a estrutura poderá permitir que uma ocorrência registrada em uma escola ou local de votação seja verificada remotamente pela Justiça Eleitoral.
Crime organizado entra no radar da Justiça Eleitoral
Além da desinformação, Mauro Diogo aponta a possível interferência do crime organizado como uma das principais preocupações para o pleito.
Segundo ele, o TRE-MT mantém articulação com as forças de segurança e órgãos de inteligência para monitorar tanto a atuação de grupos criminosos nos bairros quanto possíveis movimentações financeiras relacionadas ao financiamento de campanhas.
O diretor citou como exemplo uma investigação decorrente das eleições municipais de 2024, em Rondonópolis, na qual, segundo seu relato, a prestação de contas levantou suspeitas sobre o financiamento de uma candidatura por integrantes do crime organizado. O candidato teria sido posteriormente cassado.
O planejamento de segurança para 2026 envolve, entre outras instituições, a Polícia Federal. O TRE-MT informou que a PF terá um grupo de trabalho específico para as eleições e disponibilizará 308 policiais federais para atividades relacionadas ao pleito em Mato Grosso.
Carros de aplicativo não podem ter propaganda eleitoral
Na entrevista, o diretor-geral também respondeu a uma dúvida enviada por representantes dos motoristas de aplicativo.
Segundo Mauro Diogo, a Justiça Eleitoral passou a considerar também os veículos utilizados por aplicativos de mobilidade nas restrições relacionadas à propaganda eleitoral. Eventuais irregularidades precisam ser levadas ao conhecimento da Justiça Eleitoral por meio de denúncia, já que o tribunal depende de provocação para atuar nesses casos.
Eleição terá seis votos e TRE já prevê segundo turno
A logística das eleições também está entre as preocupações do tribunal.
Mauro Diogo afirmou que um eventual segundo turno já está previsto no planejamento orçamentário e operacional do TRE-MT, incluindo contratação de veículos, transporte aéreo e convocação de mesários.
O diretor estima que cerca de 30 mil mesários atuarão no estado.
A logística é especialmente complexa por causa das dimensões territoriais de Mato Grosso e da necessidade de levar urnas e equipes para regiões urbanas, comunidades indígenas, áreas rurais, quilombolas, Pantanal e Araguaia.
R$ 21 milhões para realizar as eleições
De acordo com Mauro Diogo, o TRE-MT prevê aproximadamente R$ 21 milhões em despesas de custeio para as eleições de 2026, incluindo itens como deslocamento, combustível, veículos e alimentação.
O diretor compara o valor ao orçamento das eleições anteriores e afirma que, corrigido pelos índices oficiais, o montante permanece próximo ao registrado em 2022.
Com um eleitorado de aproximadamente 2,64 milhões de pessoas, o custo representa algo próximo de R$ 8 por eleitor.
Eleitor terá que digitar 25 números
No fim da entrevista, Mauro Diogo deixou um alerta para os eleitores: a quantidade de escolhas na urna será grande.
Em Mato Grosso, serão seis votos, nesta ordem:
1. Deputado federal
2. Deputado estadual
3. Senador – primeira vaga
4. Senador – segunda vaga
5. Governador
6. Presidente da República
A ordem é confirmada pela regulamentação do TSE para as eleições de 2026.
O tribunal pretende estimular os eleitores a levarem uma “colinha” com os números dos candidatos para evitar erros durante a votação.
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e eventual segundo turno para presidente e governador ocorrerá em 25 de outubro.






