Em entrevista aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7), o deputado estadual Lúdio Cabral (PT) abordou temas centrais da pauta política e institucional de Mato Grosso. Falou sobre a inauguração da Embrapa na Baixada Cuiabana, a ampliação de áreas protegidas no Pantanal, irregularidades na MT Par, o travamento da CPI da Saúde e o cenário nacional. O ponto mais contundente da conversa, no entanto, foi a denúncia direta ao prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), que estaria deixando de aplicar R$ 11,5 milhões destinados pelo parlamentar para a Saúde da capital, ignorando ofícios, descumprindo planos aprovados e mantendo dinheiro parado enquanto hospitais enfrentam risco de colapso.
A Embrapa como marco para a Baixada Cuiabana
Lúdio classificou a inauguração da Embrapa da Baixada Cuiabana como uma “revolução positiva” para a região. Lembrou que o projeto foi apresentado em 2024 ao comando da Embrapa, ao ministro Carlos Fávaro e ao Conselho de Administração. Em apenas um ano, a proposta saiu do papel, ganhou pedra fundamental, mobilizou parceiros técnicos e se tornou uma unidade efetivamente implantada. Para o deputado, a Baixada — que reúne 1,5 milhão de habitantes — tem condições de se tornar um polo de fruticultura e sistemas agroflorestais tão relevante quanto Petrolina e Juazeiro. Segundo ele, a unidade instalada em Nossa Senhora do Livramento já atua com piscicultura, produção de mudas, capacitação e implantação de hortas comunitárias, além de articular tecnologias para transformar o perfil produtivo local.
SISB, renda e o atraso de Cuiabá
Ao comentar a ampliação do mercado para produtos da agricultura familiar por meio do SISB — certificação que permite comercialização nacional —, Lúdio destacou que, até 2023, Mato Grosso não tinha um único município com o serviço. Hoje, são 72. Ele citou o caso do produtor de queijos de Livramento que ganhou reconhecimento internacional, mas não conseguia vender em Cuiabá por falta do certificado. Sem citar nomes, Antero Paes de Barros provocou: “Isso mostra o quanto estamos atrasados em Cuiabá”. Lúdio concordou. Disse que a prefeitura “cria dificuldades onde deveria criar oportunidades” e mantém uma postura persecutória com pequenos produtores.
Pantanal ganha ampliação de áreas protegidas
O deputado celebrou o anúncio feito pelo presidente Lula durante a COP da Biodiversidade Migratória, realizada em Campo Grande. O Parque Nacional do Pantanal ganhará mais 47 mil hectares e a Estação Ecológica Taiamã será ampliada em quase 57 mil hectares. A iniciativa envolverá R$ 140 milhões em indenizações e regularização fundiária. Para Lúdio, trata-se de um “presente histórico” para o bioma e para a ciência, com impacto direto sobre a proteção das águas e dos ecossistemas da região.
R$ 448 milhões e a sombra do escândalo do Banco Master
A entrevista avançou para a denúncia que envolve a MTPAR e a Nova Rota Oeste. Lúdio explicou que o governo do Estado depositou R$ 448 milhões em um fundo administrado pela REAG, empresa liquidada pelo Banco Central por ligações com o crime organizado e o Banco Master. Segundo ele, é preciso esclarecer por que a REAG foi escolhida, qual destino teve o dinheiro ao longo de três anos e se houve utilização indevida. Também chamou atenção para o fato de a Nova Rota Oeste ter usado R$ 3,9 bilhões sem realizar licitação, mesmo sendo estatal e, portanto, obrigada a obedecer à Lei das Estatais. Para ele, há risco concreto de o TCU determinar a paralisação das obras de duplicação da BR‑163, o que seria um retrocesso dramático.
Requerimentos ignorados e uma Assembleia fragilizada
Sobre a resistência do Executivo em responder aos pedidos de informação, Lúdio afirmou que o governo frequentemente responde “sem responder”, e às vezes com ironia. A MTPAR, por exemplo, sugeriu que deputados buscassem informações diretamente no Tribunal de Contas. Para o parlamentar, isso desmoraliza a Assembleia Legislativa e fere o papel constitucional de fiscalização. Disse que a Mesa Diretora demonstra sensibilidade, mas o governo “não se comove”.
O ponto central: os recursos da saúde que Abílio não usa
O tema mais grave da entrevista surgiu quando Lúdio foi questionado sobre os R$ 5 milhões que havia anunciado para a saúde de Cuiabá após a eleição. Segundo ele, o Estado liberou R$ 1 milhão ainda em dezembro de 2024 e R$ 4 milhões em abril de 2025, já na gestão de Abílio. Todo esse recurso, segundo Lúdio, está parado na conta da prefeitura. Além disso, mais R$ 6,5 milhões foram destinados no orçamento de 2025, mas apenas R$ 500 mil foram pagos pelo Estado. Os demais R$ 6 milhões seguem represados. O deputado explicou que todos os planos de aplicação foram aprovados pelo Conselho Municipal de Saúde e pela Comissão Intergestores Bipartite. Mesmo assim, os investimentos não avançaram. O parlamentar afirma ter oficializado o prefeito, se oferecendo para remanejar recursos conforme prioridade municipal, mas nunca recebeu resposta. Para ele, o problema não está na Secretaria de Saúde — onde servidores técnicos dialogam com sua equipe —, mas na condução política de Abílio. Lúdio foi direto: “O dinheiro está lá. Poderia estar salvando vidas. Mas o prefeito não sabe que é prefeito até hoje.”
Enquanto isso, hospitais públicos enfrentam risco real de suspender cirurgias por falta de pagamento de fornecedores, inclusive empresas que lavam e esterilizam lençóis. Para Lúdio, trata-se de uma crise fabricada pela má gestão do prefeito, agravada por práticas que classificou como “antirrepublicanas” por parte do governo estadual, que libera emendas de aliados e represaria as de oposição. Ainda assim, ele lembrou que destinou recursos não apenas para Cuiabá, mas também para Várzea Grande — igualmente governada pelo PL — onde o dinheiro foi utilizado com eficiência na montagem de um centro de reabilitação.
CPI da Saúde travada pela base do governo
Lúdio voltou a criticar o comportamento da base governista na CPI da Saúde. Disse que a comissão só não funciona porque seus três membros ligados ao governo faltam às sessões. Isso impede quórum e inviabiliza os trabalhos. Para ele, obrigar parlamentares a comparecer por meio judicial seria uma vergonha institucional, mas talvez inevitável se o boicote continuar.




