EDUCAÇÃO E SAÚDE
Reitora da UFMT critica decisão “sem escuta” e alerta: Santo Antônio pode não suportar novo Júlio Müller
Marluce Souza diz que lei aprovada na Assembleia incluiu hospital em Santo Antônio do Leverger sem participação da universidade; caderno técnico aponta desafios de água, segurança e transporte para atender 3,5 mil usuários/dia.
A reitora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), professora Marluce Aparecida Souza e Silva, entrou no centro de uma das discussões mais sensíveis da Grande Cuiabá: onde ficará, juridicamente e operacionalmente, o novo Hospital Universitário Júlio Müller — se em Cuiabá ou dentro dos limites de Santo Antônio do Leverger.
Em entrevista ao Jornal da Cultura (Cultura FM 90.7), aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo, Marluce disse que a Assembleia Legislativa aprovou uma lei que posiciona o hospital dentro do território de Santo Antônio, mas que os encaminhamentos foram feitos “sem o acompanhamento da Universidade Federal, sem a escuta da Universidade Federal”. Segundo ela, a UFMT foi procurada pelo deputado Wilson Santos após a votação, quando a decisão já estava tomada, e apresentou avaliações técnicas que podem levar à revisão da legislação.
A reitora confirmou que a UFMT entregou à Prefeitura de Santo Antônio um caderno de encargos, com prazo de resposta até 11 de março, cobrando garantias mínimas para que o município consiga contratualizar serviços e sustentar a operação de um hospital de alta complexidade.
Pelo que descreveu, o documento não é burocrático: é um checklist de realidade. “Nós apontamos questões administrativas, políticas e estruturais”, afirmou, citando pontos críticos como fornecimento de água, segurança, vias pavimentadas, transporte público e energia.
Água, orçamento e SUS: o tamanho do desafio
Marluce afirmou que o novo hospital deve atender, em média, 3.500 usuários por dia. Ela também estimou que o orçamento anual para funcionamento do Júlio Müller ficará entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão, contemplando custeio, pessoal e estrutura.
O ponto de tensão, segundo a reitora, é o desequilíbrio entre o porte do hospital e o porte do município que passaria a abrigá-lo. Marluce citou que o orçamento anual de Santo Antônio do Leverger é de R$ 113 milhões, e avaliou que um município com cerca de 15 mil habitantes dificilmente suportaria, sozinho, a parcela municipal no custeio tripartite do SUS.
“Dificilmente um município de 15 mil habitantes conseguirá suportar e garantir estrutura administrativa para garantir o funcionamento (…) de um instrumento social de saúde de alta complexidade”, disse.
Entre os exemplos mais diretos, ela citou a demanda por água: a UFMT calcula que o hospital exigirá volume capaz de consumir “quase toda a água fornecida aos contribuintes de Santo Antônio dentro do hospital”. Na mesma linha, apontou a necessidade de manutenção constante do entorno e infraestrutura urbana compatível com um equipamento de saúde que, na prática, atende a toda a região.
Questionada sobre a tese de que a disputa seria motivada por ISS, levantada pelo deputado Wilson Santos, a reitora disse não ter os números de arrecadação e não arriscou estimativas. Segundo ela, a UFMT aguarda a resposta da prefeita para avaliar se o município apresentará alternativa que equilibre custos e receitas.
Ampliação do hospital e cronograma: obra em 2026, migração em 2027
A reitora explicou que a UFMT fará a migração inicial com as clínicas e atendimentos já oferecidos no hospital atual, e que há um plano de ampliação apresentado ao ministro Alexandre Padilha e ao Ministério da Educação — ampliação que, segundo ela, deve ocorrer de forma gradual, conforme liberação orçamentária.
Quanto ao calendário, Marluce disse que o governo do Estado deve entregar a obra ao fim de 2026. A migração e a entrada em operação, porém, dependem de equipamentos, mobiliário, laboratórios e contratações. A expectativa de migração citada na entrevista aponta para fevereiro ou março de 2027.
Ela também comentou o processo seletivo simplificado para médicos, conduzido pela Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares). Segundo Marluce, os aprovados devem começar a ser convocados em período anterior à migração, provavelmente no início de 2027.
O hospital será 100% SUS, voltado para alta complexidade, e não terá portas abertas em regra — com exceção do atendimento já existente em obstetrícia e ginecologia de alto risco, que deve permanecer como porta aberta via encaminhamentos da rede.
E o prédio atual do Júlio Müller?
Sobre o destino do prédio atual, Marluce disse que a UFMT pediu ao governador Mauro Mendes a cessão do imóvel, mas ainda não recebeu resposta. Se o Estado ceder, a reitora afirmou que a universidade tem um projeto pronto para instalar ali um serviço de saúde mental e atendimento à saúde de servidores — da UFMT, do município e do Estado — mas que depende de espaço e custeio.
UFMT retoma obras paradas e mira reaproximação com a sociedade
Além do hospital, a entrevista trouxe um balanço de gestão. Marluce afirmou que, ao assumir em 17 de outubro de 2024, encontrou oito obras paralisadas: três em Sinop, quatro em Cuiabá e uma em Várzea Grande. Segundo ela, todas foram retomadas e contratualizadas, com a última ordem de serviço assinada em 19 de fevereiro.
No campus de Várzea Grande, a reitora disse que há R$ 18 milhões já transferidos, mas que o valor não conclui a obra. A previsão é chegar a 85%–90% e buscar novos recursos em 2027, além de mobiliar e equipar. A migração dos cursos de engenharia para a nova sede foi projetada para o fim de 2027 ou início de 2028.
Para 2026, ela projetou entregas em Cuiabá (Humanitas, Instituto de Física e Instituto de Biologia) e, em Sinop, ampliação da Biblioteca Central e finalização de blocos de Agrícola e Farmácia.
Marluce também apontou que a UFMT ainda sofre com infiltrações e alagamentos por conta da infraestrutura antiga — blocos com cerca de 55 anos — e disse aguardar recurso extraordinário prometido pelo ministro Camilo Santana.
Parque Tecnológico, evasão e inteligência artificial
A reitora avaliou que o Parque Tecnológico e a proximidade com IFMT e outras estruturas em Várzea Grande tendem a fortalecer pesquisa e avaliação de cursos, citando que a UFMT foi contemplada recentemente com recursos após visita da ministra Luciana Santos.
Sobre evasão, Marluce citou uma pesquisa coordenada pela professora Gerusa Vieira para entender causas de desistência. Ela falou em um contingente de cerca de 10 mil estudantes com vínculo, mas sem matrícula regular, ao longo dos últimos 10 anos. Entre hipóteses, citou fatores econômicos e questões de gênero: para mulheres, gravidez e cuidado com filhos; para homens, necessidade de trabalhar e gerar renda.
Na pauta de inteligência artificial, Marluce disse que a UFMT já tem pesquisadores e pós-graduandos estudando o tema, especialmente a dimensão ética, e defendeu adaptação das estratégias didáticas, com avaliações menos dependentes apenas de texto e mais baseadas em debates e rodas de conversa.
Segurança no campus: “Botão do Socorro”
No fim da entrevista, Marluce anunciou uma iniciativa de segurança: o “Botão do Socorro”, um aplicativo que, segundo ela, aciona ajuda em até três ou quatro minutos dentro do campus em caso de ameaça. Disse que a ferramenta estará disponível a partir de agora para mulheres e homens, com o objetivo de tornar a UFMT um ambiente de trabalho e aprendizagem “sem hostilidade e com mais segurança”.




