NOTICIÁRIO Domingo, 21 de Junho de 2026, 09:35 - A | A

Domingo, 21 de Junho de 2026, 09h:35 - A | A

CLIMA EXTREMO

O inverno sob a influência do El Niño: calor e seca extrema desafiam o país

Mauro Camargo

Infográfico produzido por IA

Tempo seco em Cuiabá

A queda drástica na umidade relativa do ar em Cuiabá durante os meses de inverno não é apenas um fenômeno meteorológico sazonal, mas uma questão de saúde pública que exige alerta imediato. Com índices que rotineiramente despencam para patamares abaixo de 20% entre julho e agosto, a capital mato-grossense entra em estado de atenção equivalente ao de climas desérticos.

Às 5h24 deste domingo, 21 de junho de 2026, começou oficialmente o inverno no Hemisfério Sul. A estação mais fria do ano, tradicionalmente marcada por temperaturas baixas e dias mais curtos, inicia-se sob a forte influência do fenômeno climático El Niño, que promete elevar as temperaturas médias em grande parte do território nacional e redefinir a dinâmica do clima nos próximos meses. As informações são da jornalista Marina Tokarnia, da Agência Brasil.

O fenômeno El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento anormal da região equatorial do Oceano Pacífico, atua como um poderoso modulador atmosférico. Historicamente batizado por pescadores do Peru e do Equador em referência ao "Menino Jesus" devido à sua ocorrência habitual no período natalino, o fenômeno altera a circulação de ventos e a distribuição de umidade em escala global, com impactos diretos sobre o continente sul-americano.

De acordo com Melquizedek Rafael Duarte da Silva, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a expectativa é de um inverno com características atípicas. O especialista explica que o país pode não registrar um inverno tão frio quanto os observados em anos anteriores. Isso ocorre porque o El Niño cria um bloqueio atmosférico persistente, concentrado principalmente próximo ao estado de São Paulo, impedindo que as frentes frias de origem polar avancem de forma consistente em direção ao Sudeste e a porções do Centro-Oeste.

Enquanto o bloqueio favorece o calor e a estiagem no interior do país, a dinâmica no Sul é oposta. O fenômeno intensifica a ocorrência de frentes estacionárias na Região Sul, o que pode resultar em volumes de chuva significativamente acima da média climatológica e em eventos de precipitação extrema concentrados em curtos períodos de tempo, elevando o risco de enchentes e deslizamentos em áreas vulneráveis.

Em Mato Grosso, o inverno de 2026 acentua a transição para o auge do período de estiagem, caracterizado por uma queda drástica nos índices de umidade relativa do ar, que frequentemente despencam para patamares críticos, abaixo de 20%. Essa secura extrema, combinada com temperaturas acima da média histórica devido ao bloqueio atmosférico, cria um ambiente altamente suscetível à propagação de incêndios florestais e queimadas no Cerrado e no Pantanal mato-grossense, exigindo atenção redobrada dos órgãos de defesa civil e do setor produtivo.

Além do risco ambiental, o inverno no estado é marcado por uma forte amplitude térmica diária, onde as manhãs começam amenas ou frias sob a influência de ocasionais massas de ar polar — fenômeno conhecido localmente como "friagem" —, mas as tardes registram calor intenso. Essa variação brusca de temperatura, somada à alta concentração de poeira e fumaça em suspensão na atmosfera, agrava significativamente as doenças respiratórias na população, pressionando os sistemas de saúde pública de Cuiabá e dos municípios do interior.

Do ponto de vista astronômico, o inverno ocorre quando o Hemisfério Sul recebe menor incidência de radiação solar devido à inclinação do eixo de rotação da Terra em relação ao Sol. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, essa transição é sentida de maneiras muito distintas. No Chuí (RS), extremo sul do país, os dias de inverno contam com menos de 10 horas de luz solar, com o Sol nascendo por volta das 7h30 e se pondo às 17h30. Já em Macapá (AP), cortada pela Linha do Equador, a variação diária de luminosidade é quase imperceptível ao longo do ano, mantendo o ciclo de 12 horas de luz praticamente inalterado.

A crescente imprevisibilidade dos ciclos climáticos, potencializada pelo aquecimento global, torna as previsões de longo prazo um desafio complexo para os meteorologistas. Eventos que antes duravam poucas semanas agora se estendem por meses, alterando o planejamento agrícola, a gestão dos recursos hídricos e a preparação das cidades para lidar com extremos climáticos que deixaram de ser exceção para se tornarem a nova regra climática.

Com informações de Marina Tokarnia, da Agência Brasil.

 



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