NOTICIÁRIO Quarta-feira, 17 de Junho de 2026, 11:58 - A | A

Quarta-feira, 17 de Junho de 2026, 11h:58 - A | A

FISSURA PARTIDÁRIA

Júlio acusa “autoritarismo” de Mauro Mendes e amplia disputa pelo comando do União Brasil

Mauro Camargo
Da ALMT

A disputa pelo controle dos rumos eleitorais do União Brasil em Mato Grosso ganhou novos capítulos nesta quarta-feira (17), com declarações contundentes do presidente em exercício da Assembleia Legislativa, deputado estadual Júlio Campos (União). Em entrevista coletiva, o parlamentar elevou o tom contra o ex-governador e presidente estadual do partido, Mauro Mendes, acusando-o de adotar uma postura “autoritária” ao tentar conduzir a legenda para um apoio antecipado ao vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) na sucessão estadual de 2026.

Embora tenha evitado falar em rompimento definitivo, Júlio deixou claro que a divergência entre os dois grupos está longe de ser apenas uma diferença de opinião. O embate expõe uma disputa interna pelo comando político da maior sigla do Estado e pela definição de quem representará o partido na corrida ao Palácio Paiaguás.

De um lado está o grupo liderado pelos irmãos Júlio e Jayme Campos, que defende candidatura própria do União Brasil ao governo. Do outro, a ala alinhada a Mauro Mendes, favorável à construção de uma aliança já no primeiro turno em torno do nome de Otaviano Pivetta, filiado ao Republicanos e principal herdeiro político do atual governador.

Ao comentar a resistência de Mauro Mendes em antecipar a convenção partidária para definir a estratégia eleitoral, Júlio afirmou que o partido não pode ser conduzido por decisões individuais.

“Não é questão de cacique. O problema é o autoritarismo. É a maneira ditatorial de achar que é dono de tudo. O União Brasil sempre foi um partido democrático. As decisões sempre foram debatidas internamente”, declarou.

A fala evidencia a insatisfação crescente da ala ligada ao senador Jayme Campos, que vê na antecipação do apoio a Pivetta uma tentativa de esvaziar qualquer debate interno sobre candidatura própria.

Para Júlio, o caminho natural seria permitir que todos os pré-candidatos disputassem o primeiro turno, deixando as alianças para uma eventual segunda etapa da eleição.

“Ninguém está proibindo Mauro Mendes de apoiar o Pivetta. Ele pode apoiar quem quiser. O que nós defendemos é que o partido tenha candidato próprio. Sem candidato a governador, a chapa proporcional é a mais prejudicada”, argumentou.

Segundo o parlamentar, a presença de um candidato majoritário fortalece as candidaturas proporcionais e amplia as chances de eleger deputados estaduais e federais.

Convenção será campo de batalha

A principal arena da disputa será a convenção estadual do União Brasil, responsável por definir oficialmente a posição da legenda. Júlio Campos afirmou que o grupo ligado a Jayme trabalha para conquistar a maioria entre os 52 convencionais com direito a voto.

“Nós estamos conversando com os convencionais e temos recebido deles o compromisso de apoiar a candidatura do Jayme Campos. Quem tiver maioria vence. A convenção é soberana”, afirmou.

O deputado também rebateu a interpretação de que a candidatura de Mauro Mendes ao Senado estaria automaticamente assegurada dentro do partido. Para Júlio, qualquer filiado pode apresentar seu nome à convenção e disputar a indicação partidária.

“Nem a minha posição nem a do Jayme estão garantidas. Tudo depende da convenção. É ela quem decide”, observou.

A declaração reforça a percepção de que o embate interno não se limita à sucessão estadual. A formação da chapa majoritária para 2026 envolve também a disputa pelas vagas ao Senado e poderá redefinir completamente a correlação de forças dentro do partido.

“Pequeno esgarçamento”

Apesar das críticas, Júlio procurou afastar a ideia de rompimento pessoal com Mauro Mendes. Questionado sobre a deterioração da relação política entre a família Campos e o ex-governador, o deputado minimizou os atritos.

“Em política não existe rompimento definitivo. Estive recentemente com Mauro Mendes em Jauru. Sentamos juntos, participamos da missa, rezamos e comungamos lado a lado. O que existe é um pequeno esgarçamento”, afirmou.

Ainda assim, as divergências ficaram evidentes nas últimas semanas. Recentemente, Mauro Mendes classificou como “bobagens” algumas declarações feitas por Júlio Campos sobre o processo interno do partido. A resposta veio em tom duro. O parlamentar afirmou que a crítica poderia ser interpretada como uma forma de discriminação contra eleitores da terceira idade.

“Espero que Mauro Mendes chegue aos 80 anos com a mesma disposição, a mesma inteligência e o mesmo prestígio político que eu tenho hoje”, respondeu.

A troca de farpas revela um desgaste que já extrapola os bastidores partidários e passou a ser travado publicamente.

Eleição ainda está aberta

Ao longo da entrevista, Júlio também procurou relativizar o favoritismo atribuído a alguns nomes na disputa de 2026. De acordo com o parlamentar, pesquisas recentes mostram mudanças importantes no cenário eleitoral e indicam que o quadro permanece aberto.

O deputado citou o crescimento de pré-candidaturas que apareciam com desempenho modesto nos primeiros levantamentos e argumentou que o eleitorado ainda está em processo de definição.

“Quem imaginava alguns meses atrás determinados nomes crescendo nas pesquisas? A política muda muito rápido. Ainda não existe candidato definido”, afirmou.

Na avaliação do parlamentar, a existência de vários postulantes ao governo reforça a necessidade de o União Brasil preservar sua autonomia política até o momento das convenções.

Uma das propostas defendidas por Júlio Campos para solucionar o impasse seria a realização de consultas mais amplas junto aos filiados da legenda.

O deputado sugeriu que o partido discutisse mecanismos de participação capazes de aferir a opinião dos mais de 50 mil filiados do União Brasil em Mato Grosso.

“Hoje existem ferramentas modernas. Por que não ouvir os filiados? Eles querem candidatura própria ou querem apoiar outro candidato? Essas decisões não podem ser impostas”, questionou.

Embora descarte a possibilidade de uma ruptura institucional da sigla, Júlio reconhece que o resultado da convenção poderá produzir consequências políticas relevantes. Caso a tese da candidatura própria seja derrotada, o grupo liderado por Jayme Campos terá de decidir qual posição adotará na eleição. “O que faremos depois será discutido no momento adequado. Primeiro precisamos saber qual será a decisão da convenção”, afirmou.

Enquanto isso, o União Brasil segue dividido entre dois projetos distintos: um que aposta na manutenção da independência partidária com candidatura própria e outro que defende a construção antecipada de uma aliança em torno de Otaviano Pivetta.

Há um mês do início das convenções, a disputa ainda está longe do fim. Mas uma conclusão já se impõe nos bastidores da política mato-grossense: a sucessão de 2026 passará, necessariamente, pela capacidade do União Brasil de resolver sua própria guerra interna.



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